A denunciação judicial é uma manifestação dos crimes, para que por meio deles sejam castigados os que os cometerem em ordem à satisfação da República, e da parte, se a houver.
[Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia].242
No mundo ibérico Inquisição, Igreja e Estado, justificados pela teoria da salvação, intentavam exercer uma função complementar e disciplinadora das sociedades coloniais, vigiando e fazendo vigiar a observância de sua doutrina através da instituição da dinâmica da delação.243
Entre o fim do século XVIII e início do XIX, homens e mulheres que circulavam diariamente pelas vias publicas paulistanas ainda viviam em clima de denúncia e envolvidos em trâmites judiciários e práticas populares, como mostra Eliana Goldschmidt:
[...] O incentivo à delatação começava com a exigência de apresentação à Mesa do Santo Ofício no primeiro domingo da quaresma, para declarar todo e qualquer ato de heresia relacionado em seu monitório. Não havia critério de julgamento para as acusaçòes feitas, recebendo-se inclusive as formuladas por pessoas legalmente desqualificadas, de crédito duvidoso ou de suposta falsidade; e as produzidas anonimamente, por ouvir dizer e ainda por presumir: a validade delas dependeria da vontade de cada inquisidor [...]244.
As fontes pesquisadas dão conta de que era preciso não apenas evitar o pecado, mas ter cautela e estar atento aos deslizes dos outros. Todos os envolvidos em um processo de divórcio, tanto justificante como justificado e, principalmente, as testemunhas, faziam
241 PRADO Jr. Op.cit, p.329.
242VAINFAS, Ronaldo (Org.). Confissões da Bahia: Santo ofício da inquisição de Lisboa. São Paulo: Companhia das letras, 1997 – Retratos do Brasil, p. 67.
243 GOLDSCHIMIDT, E. M. R. Op.cit, p.67 244 IDEM, p.68.
acusações que visavam desconstruir a imagem do outro perante as autoridades eclesiásticas e a sociedade.
Em 1828, testemunhas atestam que o marido de Antônia Justina Vieira, o alferes Antônio Gonçalves de Oliveira, era um homem devasso, que não tinha qualquer compromisso com a honra, religião e temor a Deus.
[...] Porque o marido esquecendo-se dos deveres do seu estado tem maltratado a Antônia não só com escandalozos impropérios, mas com todo gênero de crueldades, espancando e sem motivo algum injuriando-a de palavras picantes e athé lançando-a para fora de casa, motivo porque Antônia se recolheu em casa de seu pai, o Sargento-mor Francisco Viera [...] continuou na amizade ilícita que já tinha antes de se casar com huma cabra de nome Francisca [...] e depois se introduzio de amizade com outra cabra de nome Anna [...] publicamente concubinado [...]245.
As denúncias de atos que atentam gravemente contra as leis eclesiáticas são recorrentes nos processos de divórcio. Na intenção de contextualizar a mulher em um ambiente violento e perigoso, advogados faziam menção às violações contra as leis da Igreja. Os espancamentos, as ameaças e os xingamentos somavam-se ao concubinato, a bestiliadade e às uniões pecaminosas baseadas na desigualdade social entre os membros (senhor e escrava). Os sujeitos deviam ser, ainda que na teoria, honrosos e tementes às leis de Deus. Em todos os processos constam os juramentos:
[...] Manuel Joaquim da Silveira, casado em face da Igreja, natural morador da Freguesia de Cotia deste Bispado, de idade que deve ser de trinta e cinco anos, que vive de suas lavouras, testemunha aqui ao Reverendíssimo Doutor Vigário Geral devido juramento dos Santos Evangelhos [...] em que pôs sua mão direita subcargo do cargo do qual me foi encarregado, que dissesse verdade do que blefe [...]246.
As qualidades mais comuns da justificante eram: “uma mulher honrosa”, “boa esposa”, “religiosa”, “obediente” e “dedicada”.
245 ACMSP Processo de divórcio e nullidade de matrimônio. Estante 15, Gaveta 21, n. 291. 246 ACMSP Processo de divórcio e nullidade de matrimônio. Estante 15, Gaveta 4, n. 58.
[...] Religiosa servindo a hum marido apezar de suas tiranias, com todo amor e cuidado e em tudo cumprindo com seus deveres [...] ela sempre serviu e obedeceu [...] Joaquim Vieira de Brito, casado, natural da Vila de Santo Amaro e morador de São Roque de idade que dice ser de quarenta e três annos, que vive de sua lavoura e do trato de animais [...] testemunha em razam de próprio e verdadeiro conhecimento e por terem ouvido na visinhança [...] Testemunha que o justificado dava muitas pancadas em sua esposa [...]. Comportada e cheia de toda honra, saúde e paz no Senhor que de todos hé verdadeiro remédio, lus e salvação [...]. Que a justificante hé casada e recebida em face da Igreja [...] obedecendo-lhe, servindo-o e amando-o como praticão as mulhes honradas [...] ser a mesma comportada, quieta e pouco ficando pela vizinhança [...]247.
Neste contexto os espaços da família e da religião podem ser vistos ao mesmo tempo como locais da materialização do poder seja de classe, seja de gênero. Trata-se de espaços de compartilhamento de experiências vividas diferencialmente por homens e mulheres, que por sua vez, são portadores de identidades diferenciadas.
A vivência conflituosa entre classes e gêneros desenhava o espaço social paulistano. A diversificada população de livres, forros e escravos, no processo de ocupação do perímetro urbano, favoreceram um modo de vida na cidade permeado por tensões.
As relações sociais, apesar de seu caráter hierárquico, também eram marcadas por fortes ligações vicinais, de parentesco e amizade, como podemos testemunhar na petição de divórcio da branca livre Gertrudez Maria Joaquina do Nascimento. No ano de 1790, Gertrudez acusava seu marido de espancá-la e viver concubinado com uma mulata forra de nome Caetana, moradora do bairro São Bento. Rosa Francisca, uma preta forra vinda de Guiné, amiga de Gertrudes, testemunha:
[...] Rosa Francisca, preta forra de naçam de Guiné e moradora nesta cidade, de idade que dice ser de trinta annos, que vive do trabalho de suas mãos de lavar e fiar algodam testemunha, por presencear na própria caza, digo na sua própria caza248, onde se veio a justificante recolher no tempo das bexigas, vindo a justificante com ella de seu sítio com seu marido, e filhos, [...] por não ter onde morar, dando assim ella testemunha este abrigo [...] o marido da
247 ACMSP. Processo de divórcio e nullidade de matrimônio. Estante 15, Gaveta 7, n. 122.
248 Erro do escrivão. A intenção era escrever: “por precencear na sua própria caza”, mas acabou escrevendo: “por precencear na própria caza”. Para reaver o erro ele recorre ao “digo”. Assim lê-se: “por precensear na própria caza, digo, na sua própria caza”.
justificante, perseguindo-a com coices e pancadas com as mesmas botas que trazia calçadas, lançando-as cama abaixo na occasiam de sua prenhez [...] o marido da justificante então já vivia com esta mulata forra, de nome Caetana e com quem até agora vive concubinado, ordinário: que desta verdade ignore: que esta concubina foi muitas vezes dela a testemunha, onde a justificante e seo marido viviam, procurar por elle, e sem medo e sem vergonha que o botacesse para fora. [...] vive e mora em casa de Caetana sua concubina, lá vive em mora dias, noites e semanas inteiras, o que dice ella testemunha saber por ver e presenciar quanto tinha deposto como por ser fama pública e notória nesta cidade [...]249.
Neste depoimento estão presentes diversos aspectos da vida social e conjugal dessa mulher paulistana. Rosa Francisca, uma preta forra que vivia do trabalho de suas mãos, corrobora as afirmações da amiga, a branca livre Gertrudez. Afirma que Luis estava concubinado com a mulata forra Caetana e era na casa da mulata que ele passava os dias e as noites, além de espancar Gertrudes, inclusive durante a gestação.
Rosa também abrigou a amiga com o marido Luis e os filhos durante um surto de varíola. Nesse período, Caetana foi à casa de Rosa para encontrar Luis, às vistas de Gertrudes. Nota-se que a preta forra ficou muito revoltada com o fato de que Luis não pediu para Caetana se retirar, chamando-o de “ordinário”. Ao que parece, Rosa tinha apreço pela amiga Gertrudes, e afirmou saber dos fatos não apenas por presenciá-los, mas porque eram “públicos e notórios”. Ou seja, a vida conjugal de Gertrudes perambulava pelas ruas da cidade como as tropas de muar e os carros de boi. O falatório e o burburinho quanto à vida alheia são recorrentes, como se verifica no depoimento de outra testemunha:
[...] Anna Maria de Moraes, solteira, natural desta cidade e nella moradora, de idade que dice ser de quarenta annos, que vive do trabalho de suas mãos testemunha a quem o Revendíssimo Senhor Doutor Vigário Geral e governador deste bispado Paulo de Souza Rocha [...] Ouviu e lhe contou Rosa Francisca, preta forra desta cidade, que tudo quanto a justificante padece com o predicto seu marido provem de andar e viver concubinado hà muitos annos com uma mulata de nome Caetana, com quem comete adultério e vive de dia e de noite na caza desta mesma concubina, desamparando por isso a justificante e seus filhos, tratando-a com sevícias, chegando a tal excesso que estando a justificante prenhe, tendo dado coices
no ventre e ver se periga ella na sua vida e pode abortar. Dice mais ella testemunha que indo à caza de Dna. Caetana, moradora na Rua Sam Bento desta mesma cidade, esta mesma Dna. Caetana dice a ella testemunha, falando sobre a justificante e o estado miserável em que esta vive com seu marido, que este maltrata muito de sevícias a justificante: o que tudo dice ella testemunha, não só por lhe diserem, como por ser nesta cidade público e notório e ainda mais por dizer ella testemunha a mesma justificante algumas vezes que foi à sua caza, chorando e lamentando seu lastimoso estado [...]250.
Assim sendo, a preta forra Rosa ouviu dizer que Gertrudes padecia frente ao desprezo e a violência do marido; contou para Anna, que por sua vez, foi até a casa da mulata forra Caetana na Rua São Bento, de quem ouviu que os boatos eram verdadeiros; Luis traía Gertrudes e a espancava com freqüência.
Na trama social paulista, esboçava-se uma rede afetiva e moral tecida com trabalhadores livres, sitiantes das redondezas e pequenos comerciantes das vilas. Esta rede era cerzida de várias maneiras; através de favores mútuos, parentescos fictícios (compadrio) e demonstrações recíprocas de afeto.
Eni de Mesquita Samara, em A família brasileira, destacou as particularidades da formação e do convívio familiar em São Paulo. As famílias extensas, do tipo senhorial, compostas de pai, mãe, filhos, escravos e agregados não eram numericamente predominantes.
Samara afirma que o mais comum em São Paulo eram famílias com estruturas mais simples e composta de poucos integrantes. Constatou-se que as extensas, do tipo patriarcal, eram apenas uma das formas de organização familiar e não chegavam a representar 26% dos domicílios. Nos demais, ou seja, 74% das casas predominavam outros tipos de composição, o que significa que famílias extensas eram representativas apenas de um segmento da população.251
[...] O fato é que nos domicílios com estrutura mais complexa, as ligações de trabalho eram determinantes. Por isso, é mais comum encontrarmos escravos
250 IDEM.
e agregados252, do que parentes e afilhados. No entanto, é importante considerarmos que por tratar-se de uma sociedade escravista, os dados que se referem aos domicílios complexos ainda são pouco significativos. É surpreendente verificarmos que dentre os proprietários locais 64% não tinham escravos e 80% não tinham agregados. Estamos trabalhando, portanto com uma pequena parcela da população [...]253.
Esta constituição familiar pode se caracterizar como reflexo da economia vigente em São Paulo que, nas últimas décadas do XVIII e ao princípio do XIX, era voltada, em sua maioria, para a produção nas lavouras de subsistência, caminhando à margem da produção de açúcar para exportação. Os processos de divórcio mostram que um grande número de pessoas, não apenas em São Paulo, mas também nas vilas, ainda viviam de sua lavoura. Na petição, envolvendo Salvador e Bárbara, já citada no início deste capítulo, todos os envolvidos viviam de suas lavouras:
[...] Petiçam por parte de Bárbara de Oliveira e Moraes [...] para efeito de justificar neste superior juízo [...] contra seu marido Salvador Marianno Camargo, morador na Freguesia de Cutia, que vive de sua lavoura.
Testemunha 1.
Geraldo José da Silva, casado, natural desta cidade de São Paulo e morador na Freguesia de Cutia, de idade que deve ser de quarenta annos, que vive de sua lavoura [...].
Testemunha 2.
Manuel Joaquim da Silveira, casado, natural e morador da Freguesia de Cutia deste Bispado, de idade que dice ser de trinta e cinco annos, que vive de suas lavouras [...].
Testemunha 3.
José Fernandes França, casado, natural da Freguesia de Santo Amaro e de presente morador na Freguesia de São Roque, de idade que deve ser de sessenta e oito annos, que vive de suas lavouras [...]. 254
252 IDEM, p.34-36. Agregados são aqui descritos como indivíduos que nada possuem de seu, por isso se abrigam na moradia alheia. Eni Samara discorre sobre agregados ligados às famílias locais, ficando difícil explicar economicamente sua presença em domicílios onde, teoricamente, representam mais despensas do que lucros. Os exemplos vão desde agregados velhos doentes que viviam da caridade particular, como mulheres que viviam maritalmente com homens solteiros sem que isso resultasse em uniões definitivas. Muitas vezes, a agregada era concubina do dono da casa, quadro este que, embora reduzido, não deixa de recompor parte da imagem típica das famílias brasileiras do período colonial.
253 IBIDEM, p.35. Em dados fornecidos pela autora, dentre os proprietários com escravos predominavam aqueles com pequeno número: 10% tinham apenas 1 escravo; 32,4% tinham até 10; e somente 1 proprietário possuía mais de 50 escravos. A presença de escravos e agregados é explicável pela necessidade de mão de obra, já que esses indivíduos desempenhavam múltiplas funções como serviços domésticos, ajudantes, aprendizes, lavradores etc.; ainda que muitas vezes exercessem atividades econômicas independentes, com recursos pessoais e escravos próprios.
[...] Na Capitania de São Paulo a pequena lavoura não foi eliminada pela expansão do açúcar [...]255, como fica claro no estudo demográfico realizado por Luna e comentado acima, era relevante o número de produtores de gêneros alimentícios para abastecimento interno que possuíam, em média, um a cinco escravos. E foi neste contexto, nas idas e vindas das grandes fazendas para o centro de São Paulo, ou na produção de gêneros alimentícios em pequenas propriedades, que os escravos vivenciavam sua sociabilidade e a construção de laços familiares.