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3.1. Kırgız Destanlarında İnanç Motifleri

3.1.1. Abdest

É sabido que, para falar em campo, é preciso observar e analisar a relação concorrencial interna e externa às disputas nas quais se dão a conhecer práticas e representações de diferentes grupos e suas instâncias de consagração. Mas também é preciso reconhecer o acordo tácito sobre aquilo que merece ser disputado bem como os consensos que produzem os efeitos de campo. Disposição constituinte assentada em uma forma particular de crença, a illusio impõe a adesão incorporada ao sentido do jogo e sua doxa: o reconhecimento da importância do que está em jogo bem como das formas legítimas de ortodoxos e

heterodoxos dele participarem. Cabe a ela desenhar os limites do jogo e do jogado preservando a existência do campo. Essa preservação se torna factível porque a illusio é capaz de sustar os “...objetivos da existência ordinária, em favor de novos móveis de interesse, suscitados e produzidos pelo próprio jogo [jogado]” (Bourdieu, 2001, p. 123).

Tendo esboçado, na primeira parte deste tópico, as instâncias de consagração que permitem explorar, já no século XIX, o caráter concorrencial presente no espaço social forjado pela medicina, minha intenção agora é, pois, evidenciar alguns acordos e consensos que se deixaram entrever na pesquisa dando identidade social aos letrados do Império, de maneira geral, e aos médicos, em particular.45 Trata-se de buscar sistematizar, pelo menos em parte, o que lhes foi capaz de dar unidade como grupo e as questões que lhes foram colocadas – ou que por eles foram assumidas – como sendo as suas questões fundamentais. Para tanto, considerei, com Edler (1992, p. 6), que a relação entre ciência (médica) e sociedade não pode ser definida a priori. Ela deve ser percebida e esboçada a partir do estudo das hierarquias nas determinações históricas advindas dos contextos culturais em que se expressam mediações sociais – entre outras, de ordem política, econômica, religiosa – que orientam as práticas e representações científicas de uma dada época. Essas orientações ocorrem com colaborações e impedimentos variados.

Assim perspectivado, o que parece caracterizar o engendramento do campo médico foi uma transitoriedade: aquela que vai do interesse inicial que aglutinou um grupo de médicos, afinadamente formados para atuar na burocracia estatal e que participam como letrados da elite dirigente, para um cada vez mais marcado interesse de assentar a autoridade desse grupo na possibilidade de arbitrar fundamentadamente as questões afetas a uma temática específica, cujo sentido,

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Seguindo uma indicação de Bourdieu (1987), uso a designação letrados para referir-me a atuação dessa elite quando ainda não é possível distinguir uma autonomização progressiva do campo propriamente intelectual. Com seus letrados, o campo intelectual em vias de configuração e consolidação ainda mantém relações de produção, reprodução, circulação e consumo de bens simbólicos altamente dependentes da lógica do campo político e do campo de poder.

numa só expressão, concentra-se no debate da saúde individual e coletiva, privada e pública. É em torno dos últimos adjetivos desses pares de interesse, portanto na saúde coletiva e pública, que se articula e consolida inicialmente o campo médico. É importante frisar que o projeto médico para a educação e para a educação physica neles se inseria.

Tanto nas fontes acessadas como nos estudos que orientaram a presente síntese, foi percebido que interesses políticos e burocráticos mais imediatos – mesmo quando camuflados em eventuais desinteresses por determinada questão – estão muito presentes até próximo à década de 1870, quando parece haver uma inflexão e os médicos, já gozando de alguma legitimidade social em detrimento de demais concorrentes – curandeiros e charlatães, cada vez mais alijados do campo – passam a refinar o debate de suas questões específicas.

O estudo de Coradini (1997) demonstra que a elite médica se estruturou no Brasil a partir de um conjunto de princípios legitimadores e hierarquizantes decorrentes “...da origem e posição social e respectivas relações com a cultura dominante e o poder (econômico, político, cultural, etc.)” (Coradini, 1997, p. 428), fazendo com que o capital cultural específico do campo médico tivesse, a princípio, menor circulação e valor. Os títulos escolares aliados às relações de reciprocidade – de amizade com os politicamente poderosos, principalmente com a família imperial – eram credenciais usadas com freqüência para a ocupação de posições importantes na esfera de poder. Fortalece essa análise os já comentados laços de oficialidade firmados pela SMRJ/AIM que a fizeram uma “...instituição capturada pela teia do patronato oficial, [que] permanecia [como] uma academia de escolhidos e eleitos a partir de vínculos políticos e relações sociais” (Edler, 1992, p. 92). Critérios de excelência científica e autoridade perante os pares, que amenizassem a importância do capital social, foram se construindo muito paulatinamente e incrementados – ainda que modestamente – apenas no último terço do século XIX.

De modo geral, na formação do Estado Imperial, os médicos brasileiros aderiram ao despotismo esclarecido. Em 1852, em these apresentada à FMRJ, o Dr. Veiga reconhecia que,

Debaixo de um governo sabio e amante do paiz, á sombra da liberdade que plantada alfim entre nós, parece ir perfeitamente vigorando e dando fructos, [...] o Brasileiro mesmo sem sahir de sua patria pode cultivar as diversas sciencias (apud Gondra, 2000, p. 28).

E, cultivando a ciência para si, podiam – ou, pelo menos pretendiam – estendê-la, com sua atuação, ao resto da população. Isso porque, em palavras do Dr. Meirelles pronunciadas em 1836,

O povo geralmente não entende o que lhe é útil, e muitas vezes é incapaz desta inteligência. É preciso que a autoridade, como mais instruída, e mais capaz desta inteligência, faça o que entender que é útil e conveniente, sem se importar como o que diz ou pensa o povo erradamente, e sem lhe dar satisfações em matérias em que não pode ser o juiz, e cumpre pois mais que tudo instruir e persuadir a autoridade, e isto se faz diretamente com representações e propostas (apud Kury, 1990, p. 124).

Por muito tempo, a medicina foi representada, no sentido amplo, como cultura geral e política (Coradini, 1997). Tida como a mais social das ciências, sua institucionalização possibilitava “...o questionamento da vida social como um todo; [já que] as relações humanas em todas as suas dimensões eram, por princípio, objeto da medicina” (Ferreira, 1996, p. 50).

Alguns integrantes da elite médica souberam entonar diferentes vozes para dar visibilidade às questões que a medicina reivindicava exclusividade para discutir e intervir. Naquele que foi, no entender de Mattos (1994), o Tempo Saquarema, a trajetória do Dr. Jobim parece ter sido exemplar: ele atuava em diversas frentes – que iam do consultório particular ao Conselho Imperial – mas três em especial parecem ter se destacado em sua vida pública: a SMRJ/AIM, na qual foi várias vezes presidente, diretor, orador oficial, redator; a FMRJ, que dirigiu por dezoito anos; e o Parlamento, onde foi Deputado na década de 1840 e Senador na de 1850. Essas foram as principais tribunas acionadas pelo Dr. Jobim, conforme a natureza da questão, na defesa e encaminhamento a serem dados a assuntos pertinentes à temática médica.

Escapa aos propósitos deste estudo ponderar sobre como médicos atuavam fora do campo médico ou, mais precisamente, como atuavam no campo político, a partir da lógica deste campo [político]. Cabe, entretanto, procurar mostrar como a produção do conhecimento médico se relaciona, a partir da lógica do campo [da produção do conhecimento] médico com o campo político. Retomo aqui a discussão do processo de nacionalização/europeização de costumes.46

Vários médicos participaram da formulação das representações que compuseram a base ideológica do Estado Imperial. Viveram a ambigüidade de, num esforço de patriotismo, construir princípios de identidade entre cidadãos; princípios esses que se fundavam, paradoxalmente, no reconhecimento de que as sociedades européias eram civilizadas e, portanto, superiores. A questão que se colocava, então, era a missão de construir uma nação civilizada nos trópicos, sem romper com o modelo econômico que tornava a escravidão uma “necessidade”. Para tanto, desviaram o foco das atenções das decisões políticas que garantiam essa permanência e construíram discursos – no sentido de Foucault – que forjavam ascendências históricas para os brasileiros, situando as causas da incipiente civilização do País na juventude da nação e nas nossas determinações naturais. Uma representação polifônica de natureza permitia que representações e práticas médicas corroborassem a produção de uma nacionalidade brasileira.

Uma tal representação de natureza comportou diferentes dimensões, das quais a análise de Kury (1990) enfatiza três. Uma cultural e filosófica, que impunha aos médicos a avaliação – positiva ou negativa – de uma dita natureza tropical. A questão de fundo que perpassava o debate era a possibilidade – ou não – de se civilizar a chamada zona tórrida. Outra, político-ideológica, irradiava-se pelas instituições que organizavam a elite, vislumbrando “...criar e expandir elos capazes de aglutinar os letrados em torno de alguns ideais de nacionalidade, entre eles, a identificação entre pátria e natureza” (Kury, 1990, p. 10). Por fim,

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A síntese sobre as relações entre elite médica e Estado Imperial está sobremaneira apoiada no estudo de Kury (1990).

uma dimensão científica singularizava os problemas propostos e discutidos pelos médicos brasileiros. A convivência da romantizada representação de natureza – o esplendor das terras brasileiras com seus reinos mineral, vegetal e animal, este último incluindo os “selvagens” que aqui habitavam em “estado de natureza” – conciliava-se com a de insalubridade do clima tropical no interior das práticas médicas, por meio dessa polifonia, tecendo o enredo no qual o conhecimento médico se constituiu e se emaranhou dando suporte a algumas de suas principais (potenciais) intervenções.

Esquematicamente, no que tange à dimensão filosófico-cultural, a questão assim se colocava: por um lado, pairavam representações de que a natureza exuberante não era necessariamente “boa”. Filósofos, como Buffon, acreditavam no caráter negativo da natureza. Para ele, a variedade de povos na terra era decorrência de três causas: o clima, a alimentação e os costumes. O clima temperado (europeu) acolhia o modelo perfeito de beleza e cor, não só pelo que naturalmente possuíam de melhor, mas também pelo que os homens que lá viviam demonstravam sobre o domínio da natureza. No clima tropical reinava a inferioridade nata e a propensão à degeneração. Entretanto, esse caráter negativo da natureza poderia ser modificado pela ação empreendedora do homem. Isso significava que, apesar de tudo, a civilização era possível nos trópicos desde que superadas as influências climáticas, principalmente por meio da reformulação de hábitos a ela suscetíveis – destaque dado à indolência. Por aqui é possível vislumbrar como ganhava importância na produção do conhecimento médico a questão da educação (physica). Por outro lado, a valorização do natural e do selvagem ganhava novos tons com concepções como as de Rousseau. Embora reconhecesse diferenças entre homens de diferentes naturezas climáticas e geográficas, os selvagens eram encarados com positividade, não para que se voltasse àquele “estado de natureza”, mas para que se potencializasse a perfeição possível da humanidade, principalmente investindo na formação moral harmonizada à natureza.

O que nos interessa é que, fosse positiva ou negativamente, se estabelecia uma relação entre as influências e/ou determinações da natureza e a formação social humana. E, no caso da natureza brasileira, especialmente no século XIX, ela foi valorizada pelos letrados, não sem tensões, como elemento singular da nação e marca de sua identidade.

Contrastava com a exuberante natureza tropical a civilização, isto é, o usufruto moral, social e material do conforto propiciado pela cultura européia. Isso impunha aos letrados outra ambigüidade, dessa vez na dimensão político-ideológica: a vontade e a necessidade de construir – e de sobreviver – como uma nação civilizada de estirpe européia nos trópicos. O esforço de desenvolver a cultura nacional – principalmente pela literatura e pela ciência – tomou fôlego no início do século, consolidando-se em torno da década de 1850. Era no seu desenvolvimento, e no que nela se associava ao despotismo esclarecido, que se vislumbrava a possibilidade de equiparação com a civilização européia – projeto prejudicado, sem dúvida, pela conciliação ginástica que o Brasil manteve por muito tempo entre mercado e escravatura.

Uma “vontade de ser brasileiro” foi cultivada na e pela elite. A formação dessa consciência nacional fez parte de uma política de Estado, e foi, ao mesmo tempo, condição fundamental para sua consolidação. Os letrados, partícipes como dirigentes da Construção do Estado, tiveram aqui uma atuação fundamental dando a esse processo uma direção intelectual e moral. Essa direção foi conformada pela trajetória de individuação de um grupo social que se estabeleceu como classe senhorial.47 Seguindo Mattos (1994), a trajetória de individuação da classe senhorial ocorreu tanto em relação aos interesses metropolitanos, como em relação aos interesses uma sociedade inclusiva, fazendo com que ela forjasse

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Para o autor, a classe senhorial não é a consideração do lugar ocupado por um conjunto de indivíduos no mundo da produção e a relação que esse mantém com outras classes. Como categoria histórica, a classe senhorial é fruto de “...uma trajetória assinalada por inúmeras lutas [...]. Assim, a natureza da classe e seus elementos de coesão – sua identidade, em suma – aparecem como resultados de experiências comuns vividas por determinados homens, experiências essas que lhes permitam sentir e identificar seus interesses como algo que lhes é comum e dessa forma contrapor-se a outros grupos...” (Mattos, 1994, p.4).

os meios que, fundando e consolidando o Império do Brasil, não perdessem referências civilizadas da Europa e naturais da América.

No que diz respeito aos interesses metropolitanos, tiveram olhos na Europa ao reclamar um lugar na Civilização, considerando-se, também, filhos da Ilustração, e ao envidar esforços na construção de um Império soberano, à semelhança dos Estados nacionais europeus, mas mantiveram os pés na América, na reiterada posição de marcar a singularidade deste reino a cada investida da política britânica para a extinção do tráfico negreiro. Condizente com uma determinada representação de natureza, a monarquia e seu caldo cultural eram, como lembra Mattos (1994, p. 119), uma “’flor exótica na América’”.

No que se refere à sua relação com uma sociedade inclusiva, a trajetória de individuação da classe senhorial manteve os olhos na Europa acompanhando as conquistas de liberdade, o nacionalismo nascente, as garantias constitucionais trazidas pela Revolução. Aos poucos, o Esclarecimento revelava as agruras do absolutismo e fazia repudiar o despotismo e o clericalismo. Vislumbrava-se a idéia de povo como multidão organizada. Porém, os pés na América impunham o princípio monárquico ao princípio republicano. Numa sociedade que tendia à desagregação e à anomia, os que a dominavam e dirigiam tomaram medidas políticas, materiais e simbólicas, visando à preservação de sua continuidade e preservação político-geográfica sem motins. Impunha-se a necessidade de uma miscigenação e a confraternização racial. Era dessa forma que a natureza poderia, por assim dizer, precipitar a civilização.

Mas junto com essa possibilidade de “precipitação”, a natureza “brasileira” oferecia outra complementar permitindo a invenção de raízes culturais nacionais por meio da produção de seu passado e da projeção de um futuro glorioso para a nascente pátria. Os letrados gestavam uma cultura local europeizada. Um ponto de vista estrangeiro se amalgamava nas representações nacionalistas eurocêntricas pelo do consumo de livros importados diversos – proporcionalmente alto –, pelo intercâmbio cultural possível feito pelos estudantes que iam fazer seus

cursos fora, e do intercâmbio com estrangeiros que para cá vinham em expedições científicas, intensificadas a partir do aportamento da Corte.

A construção desse ponto de vista exterior no interior da elite letrada corroborou o traço moralista da verdejante produção intelectual brasileira, que se representava esclarecida, culta, viajada, desvinculada de qualquer grupo social e de interesses políticos declarados. Esses letrados, por assim dizer, sentiam-se livres e preparados para aqui edificar uma nação (civilizada) mas, também, para viver bem com sua brasilidade em qualquer lugar (civilizado) do planeta. Esse ponto de vista era ratificado pela ambigüidade do olhar estrangeiro que, se, por um lado, se deleitava com o encantamento da natureza tropical, por outro, mostrava enorme desconforto com a natureza social vigente: escravidão, religiosidade, costumes “bárbaros”, ignorância geral da população, decorrente, sem dúvida, pensavam, do clima.

Pois bem, os letrados foram importantes agentes construtores e difusores do ideal civilizatório no Império na medida que compunham o grupo dirigente do Estado. Dele participavam a alta burocracia – dentre outros, senadores, ministros e conselheiros de Estado, magistrados e bispos –; as famílias poderosas, quando considerado poder econômico e capital social, estivessem elas próximas ou distante fisicamente da Corte; professores, médicos, literatos, jornalistas e demais “profissionais liberais” ocupantes ou não de cargos públicos, além de todos aqueles que tinham acesso ao mundo civilizado, mesmo com informações de “terceira ou quarta mão” (Kury, 1990, p. 52). Esse conjunto se unificava na medida em que aderia aos princípios de ordem e civilização e, principalmente, contribuía para sua difusão, nem que fosse influenciando, porque persuadindo representações e práticas, pequenos públicos a que tinham acesso: alunos, leitores, empregados, etc.

Ao se organizarem para difundir as “Luzes”, os letrados instauravam a importância das instituições culturais – científicas e artísticas – na divulgação de teorias, perspectivas e opiniões bem como na proposição de questões e seus

encaminhamentos que tinham a intenção de viabilizar a consecução do ideal da civilização nos trópicos. Tratar das ciências e das artes era uma das formas de se engajar nos destinos do País, atuando de forma educativa na homogeneização da própria elite. O periodismo médico da primeira metade do século participou ativamente dessa construção ao mesmo tempo em que construía as bases sociais da legitimidade médica. Considero que as theses de fim de curso participaram de modo peculiar desse processo e fundamentarei essa observação no próximo tópico.

Numa perspectiva bourdieusiana, argüir a homologia entre os campos de poder e intelectual e seus habitus de classe implica estabelecer relações de ordem que se mantêm numa realidade social observando: a) a posição dos intelectuais e dos artistas na estrutura da classe dirigente; b) as posições que os grupos colocados em situação de concorrência pela legitimidade intelectual ou artística ocupam num dado momento do tempo na estrutura do campo e, por fim; c) o habitus como princípio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ideologias características de um grupo de agentes (Bourdieu, 1987). Partindo dessas orientações, procurei perceber, apoiada na bibliografia estudada, a relação estabelecida entre a produção acadêmica (genérica e específica da medicina) e a ordenação do campo político. Ao que parece, dada a não autonomização àquela época de um campo intelectual no Brasil, os letrados atuaram de maneira ativa, organizada e orgânica no campo político, potencializando sua contribuição. Esse grupo assumiu a tarefa de construir a base ideológica e simbólica do Estado nacional e foi equânime e unificador em suas proposições. Por quê?

Em primeiro lugar é importante reter que o grupo de letrados no Brasil era numericamente restrito; e, como o centro irradiador de cultura era a Corte, desde 1808, é certo que mesmo interferindo em áreas culturais diferentes, os diversos intelectuais travavam relações até mesmo pessoais entre si. Em segundo lugar, o esforço para construção de um Estado nacional englobou todos, apesar das diferenças políticas: construíram um Estado ao mesmo tempo que dependiam dele para sua sobrevivência, já que a produção cultural não tinha condições materiais de existência autônoma. Mais: a quase totalidade dos intelectuais do Império se identificava com uma determinada classe social – a classe senhorial –, havendo diminutas possibilidades de algum outro grupo social propor um projeto de sociedade global que fosse alternativo (Kury, 1990, p. 62).

A representação de medicina como cultura política e geral e as práticas médicas acadêmicas dão-nos indícios de que, até meados do século, era muito difícil separar literatos de cientistas, cientistas de médicos, médicos de literatos.48 Nessas diversas manifestações intelectualizadas, à época pouco diferenciadas, a natureza brasileira era uma temática corrente e recorrente, principalmente quando o assunto era o clima. O clima (noção imprecisa que aos poucos cede espaço à noção de meio físico no qual é possível postular a ação de forças da natureza, como a água, a luz, o ar, a temperatura, a umidade, etc.) era um fator preponderante e conhecê-lo correspondia uma espécie de conhece-te a ti mesmo, já que o quadro natural colocava-se como um dos principais determinantes do caráter e da organização das sociedades humanas.

Benzer Belgeler