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2.1.4. AB Ülkelerinde Mevduat Sigorta Sistemi Sürec
O romance Lavoura Arcaica14 pode ser lido como uma versão transgredida da
parábola do filho pródigo. O romance é divido em duas partes, uma primeira parte, mais extensa, intitulada A partida, e uma segunda parte, intitulada O retorno. Diferente do discurso bíblico, a narrativa se faz na primeira pessoa, sob o ponto de vista de André; há um movimento de retorno que percorre a narrativa tanto no sentido espacial (casa – pensão; pensão – casa) como no sentido temporal. André acorda recordações misturadas no tempo e no espaço, desordenadas do ponto de vista seqüencial, como se os relatos fossem concatenados por um processo de livre associação. Esse processo começa com a visita de Pedro, o irmão mais velho, que tem como missão devolver o filho pródigo a casa da família. A presença de Pedro suscita uma série de recordações que seguem desde as tardes da infância passadas num esconderijo no bosque da fazenda, de volta à pensão, para a lembrança da mãe (dos olhos da mãe), para a casa da família. Até o momento em que André revela seu amor pela irmã, Ana, e consequentemente a consumação do incesto, relatado no final da primeira parte do romance. A narrativa percorre esse ziguezague, colocando o leitor ora como acompanhante do processo de recordação, ora no lugar de Pedro que toma conhecimento dos fatos até então ignorados, que implicam em situações de transgressão em relação à palavra do pai. O desfecho da obra se dá com o assassinato da irmã pelo pai na última festa da família.
A obra Lavoura Arcaica (1975) foi publicada pela primeira vez pela José Olympio a pedido de Antonio Olavo Pereira, escritor pouco conhecido da literatura brasileira, amigo de Raduan Nassar. A força da obra de Nassar foi percebida logo de início de sua publicação, haja vista a recepção da crítica por Torriere Guimarães em 1976, Aguinaldo Silva (1976), Modesto Carone (1976), Haroldo Bruno (1980) e, ao longo dos anos, com Carlos Tavares (1989). Em 1976, Lavoura Arcaica ganhou o prêmio Coelho Neto para romance da Academia Brasileira de Letras. No mesmo ano, recebeu o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e Menção Honrosa da Associação Paulista de críticos de Arte APCA. Em 1982, foi traduzido para o espanhol
14 Esse resumo pode ser tomado também para o filme que se propõe uma leitura fiel do romance. Com
exceção do quarto capítulo da literatura que não é refeito no filme, a história segue muito próxima ao que é narrado no romance.
– Labor Arcaica. E em 1985, foi traduzido para o francês – La Maison de la mémoire. E, em 2004, saiu a tradução de Berthold Zilly para o alemão como Das Brot des
Patriarchen. E, em 2001, foi transposto para o cinema pelo renomado Luiz Fernando
Carvalho.
A representatividade de Lavoura Arcaica na literatura brasileira fez-se sempre muito forte, no entanto: “Caso fizermos um levantamento, em programas de pós- graduação das universidades brasileiras, quanto ao número de vezes em que a obra foi estudada nos anos a partir de seu lançamento, observaremos que se deu de fato o veredicto do autor” (MARCHEZAN, 2011, p.08). O veredicto do autor era de que sua obra “era para daqui vinte e cinco anos”, como relata Marchezan (2011), a partir de uma conversa com Raduan Nassar. De fato, a crítica no início se restringiu mais aos meios jornalísticos, enaltecendo a estreia do escritor, para depois alcançar a academia com importantes trabalhos como o de Octavio Ianni (1990), Ruth Rissin Jozef (1992), Sabrina Sedlemayer (1997) e, mais recentemente, o de Teixeira (2002), Gondim Filho (2003), Rodrigues (2006), Curcino (2010)15, dentre outros que têm se mostrado leituras sensíveis e instigantes sobre a obra de Nassar e que valem ser revistos.
3.1. Fortuna Crítica
Um dos primeiros críticos da obra Lavoura Arcaica (NASSAR, 1975) foi Torrieri Guimarães (1976), que teceu uma crítica aliada a informações biográficas do autor. Em linhas gerais, levantou três temas que foram recorrentes em quase todas as análises feitas desse romance. Esses eixos temáticos seriam: a constituição e as contradições da família comandada pelo pai, à crítica contundente aos costumes e o desejo manifesto de retorno ao ventre materno. O crítico apontou a presença do elemento místico no romance, em função da sua permanente ligação com os textos sagrados. Para Guimarães, o livro seria uma espécie de “novo evangelho”.
Aguinaldo Silva (1976), em seu texto intitulado de Boa colheita, admirado pelo aparecimento de “novos valores literários”, fez algumas considerações importantes sobre a obra. Uma delas é a presença da família como tema central do romance. Isso porque toda a trama narrativa se dá no seu interior; é dela que brotam as relações
contraditórias de profundo amor e tragédia. Outro elemento apontado, também ligado à família, é a relação do homem com a natureza, simbolizando seus laços familiares. Para esse crítico, a obra de Raduan Nassar remete o leitor a uma narrativa pastoril tal qual a écloga.
Contudo, segundo Gondim Filho (2003, p.42), essas críticas, por se tratarem de resenhas jornalísticas da época de lançamento do livro, voltaram-se, principalmente, para celebrar a novidade do autor estreante. Devido a esse fator, muitos outros aspectos que poderiam ser analisados acabaram não sendo inseridos em suas críticas. Porém, algumas dessas primeiras ideias serviram de bases para as reflexões feitas em outros suportes de leitura, que puderam, por abarcarem outras finalidades, explorá-las melhor.
De forma geral, os caminhos da análise crítica perpassaram, principalmente, pelas questões da linguagem, da compreensão sociológica, da orientação da psicanálise ou do enfoque filosófico. Não obstante, muitas delas se misturam.
No que tange à linguagem, há um quase consenso da crítica na exaltação do processo linguístico do texto de Raduan Nassar, como uma espécie de fio condutor da tensão do discurso. A potência desse discurso está relacionada à poeticidade da narrativa e comanda todos os elementos da narração. Segundo algumas dessas análises, o tom do discurso, fruto da linguagem empregada, é que provoca o equilíbrio entre a tradição e a inovação. Modesto Carone (1976), por exemplo, falou sobre a linguagem lírica e, a partir dela, propôs uma investigação voltada para as questões relativas ao gênero.
Haroldo Bruno (1980) também direcionou a sua análise à poeticidade da linguagem da obra. O estudioso enumerou as qualidades do romance primeiro pela densidade e originalidade do texto, responsáveis pelo tom de dramaticidade, pelo misticismo e pela “transfiguração da realidade”.
Há entre Haroldo Bruno (1980) e Aguinaldo Silva certa concordância no que concerne à intrínseca relação entre Lavoura Arcaica com outros textos, à percepção da fusão do gênero poético no narrativo: “Lavoura Arcaica é essencialmente um texto poético” (HAROLDO BRUNO apud GONDIM FILHO, 2003, p.54). Contudo, Haroldo Bruno não concebeu a reflexão analítica dos elementos estéticos da obra sem a reflexão psicológica, que seria a responsável pela problemática no texto.
Segundo Gondim Filho (2003), a linguagem no romance assumiu “lugar de capital importância, seja por marcar o ritmo lírico ou trágico seja por imprimir na história o tom mítico, adensado pela abundância de metáforas ligadas à religiosidade” (GONDIM FILHO, p.57).
Essa potência lírica ou trágica impressa no discurso de Raduan Nassar inspirou algumas produções poéticas, como é o caso de Maria Lúcia Dal Farra (2002) e José Paulo Paes (2001) (apud CADERNOS, 1996). A primeira produção é de cunho religioso e a segunda exalta as sensações lúdicas do ato de narrar. Os poemas estabelecem estreita ligação com várias passagens do romance.
Outro ensaio importante sobre o texto Lavoura Arcaica é o de Carlos Tavares intitulado O Ventre do Diabo (1989). Nessa leitura, foram apontados traços relevantes da obra como, por exemplo: a presença marcante do discurso bíblico, o tom de tragédia e poesia impregnadas no lirismo da linguagem. Segundo o crítico: “Lavoura Arcaica é um livro que sacraliza o herético e profaniza mitos da religiosidade cristã” (apud CADERNOS, p. 88). No trabalho de Tavares, existem duas questões fundamentais. A primeira é sobre a diluição dos gêneros como marca registrada da narrativa não só de Raduan Nassar, mas também como característica de quase todas as narrativas modernas e pós-modernas. A segunda é sobre a polifonia do discurso nassariano, repleto de linguagem poética. Por fim, esse crítico fez comparações do personagem André com outros de outros textos como, por exemplo, o Ulisses de James Joyce.
Das análises de cunho sociológico, vale a pena ressaltar e de Octavio Ianni (1991). Das análises de cunho psicanalítico, a de Ruth Rissin Jozef intitulada A palavra
do desejo e o desejo da palavra (1992) se destacou. A autora fez uso, em partes, da
psicanálise freudiana para desvelar a “lavoura fictícia de Raduan Nassar”. Sua interpretação abarcou os aspectos das fantasias e dos desejos presentes na narrativa. Neste sentido, ela expôs três eixos temáticos: o discurso religioso como o elemento primevo dos diferentes olhares presentes no texto; o incesto como uma marca de distinção de André em relação aos outros membros de sua família; e o discurso do pai. Numa análise do discurso verbal e do silêncio dos personagens, a estudiosa procurou apresentar as visões particulares de cada um.
Outro exemplo de análise de cunho psicológico é Ao lado esquerdo do pai (1997) de Sabrina Sedlmayer. Nesse trabalho, a autora propôs uma análise da categoria
do sujeito, através do entendimento dos relacionamentos engendrados em Lavoura
Arcaica. Suas bases teóricas são freudianas e lacanianas. Sua análise se dividiu em
quatro partes: a primeira que trata da linguagem; a segunda direcionada ao intercurso dos textos bíblicos; a terceira que explica a fundação teórica do sujeito; e a última que retoma a questão do “verbo” para falar do círculo das relações, para a apreensão deste mesmo sujeito.
Outro elemento importante que se tornou base de análise para a obra é a influência dos textos sagrados em Lavoura Arcaica. Sobre essa perspectiva destacamos os trabalhos de André Luis Rodrigues, Ritos da Paixão em Lavoura Arcaica (2006), e
Raduan Nassar e a lavoura dos dizeres: entre provérbios e cantares (2010), de Curcino.
Fora desses principais eixos de análise, há O Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles (1996), no fascículo dedicado ao escritor e que também se tornou uma referência, pois consagrou a obra de Raduan Nassar através de dados biográficos, depoimentos, entrevista, ensaio fotográfico, conto inédito, ensaio crítico, de Leyla Perrone Moisés, e listagem da fortuna crítica. Esse material é uma importante reunião de informações sobre o autor e suas obras, servindo como uma espécie de roteiro de estudo.
Dentro das publicações que propõem uma revisão sobre a obra de Nassar, há também a dissertação de mestrado de Hugo Abati de 1999. Esse trabalho reuniu um precioso levantamento, com inúmeros comentários e transcrições de toda fortuna crítica de Lavoura Arcaica.
Em 2007, saiu a publicação Relendo Lavoura Arcaica, de organização de Brunilda Reichmann. A obra é composta por 9 artigos/ensaios sobre a obra de Raduan Nassar e prefácio de Sabrina Sedlemayer, de acordo com a autora: “Esta publicação, assim, não só acrescenta e contribui com a fortuna crítica sobre Lavoura arcaica como também amplia os estudos de intermídia, o diálogo intersemiótico entre literatura e cinema e entre literatura e filosofia” (2007, p.08). A obra já traz algumas reflexões entre filme e literatura como no texto de Camati, Leviski e Rocha, Lavoura Arcaica: o cinema da crueldade de Luiz Fernando Carvalho.