Muamele Yapılmasına Dair Milletlerarası
IV. A 27 (1056) SAYILI GENEL KURUL KARAR TASARISI
A difusão do gravador seria para o jornalismo e as ciências sociais um marco importante, pois teria permitido uma expansão sensível dos usos da entrevista a partir dos anos de 1960. Para Paul Thompson, em seu A voz do passado, é só a partir de então que se pode falar estritamente em história oral, uma vez que o registro e a transcrição sistemáticos de relatos são possíveis. Dispensados do uso exclusivo do bloco de anotações, historiadores, etnólogos, linguistas e sociólogos utilizar-se-iam de métodos mais elaborados como o questionário aberto, o semidiretivo e o fechado. No primeiro, o entrevistador participa pouco do registro, incitando inicialmente o solilóquio livre do depoente. No segundo, o entrevistador orienta, por meio de um roteiro com os assuntos de seu interesse, as intervenções do entrevistado. No último, por fim, o entrevistado só deve intervir quando incitado pelas perguntas pontuais do pesquisador (QUEIROZ, 1991). Cada uma dessas modalidades obedeceria a um fim diverso: a captação de depoimentos sobre fatos ou personagens históricos; um relato de vida completo; o registro de ocorrências linguísticas ou de tradições; o testemunho de uma experiência interessante aos vários campos de saber que o requerem.
Ainda que quase sempre se afirme a não existência de regras rígidas, Thompson (1992), entre outros especialistas desse campo, elaborou uma lista extensa de precauções a serem tomadas para coletar um bom relato. Aqui, como no jornalismo, a técnica é refinada:
Fazer perguntas exatas, sem dar chance a dubiedades; demonstrar segurança ao entrevistado; pedir que se detalhem melhor as narrativas generalizantes; estimulá-lo com
comentários ou mesmo objetos e fotografias que reforcem os caminhos desejados – “‘Muito
bem, então você está em... Feche os olhos e vá me contando em sequência – o que você vê o que você ouve... ’” (p.261).
alguém possui opiniões muito firmes, particularmente da perspectiva de uma minoria, pode ser fundamental demonstrar uma simpatia básica em relação a elas para poder começar” (p.261). Fazer perguntas arranjadas de tal modo que possam arrancar aquilo que for polêmico: “‘Você pode-me falar sobre um momento em que você teve que castigar severamente...?’, ‘Naquele tempo, a maioria das pessoas trazia para casa objetos que pegavam na fábrica?’” (p.261).
Mas para a maior parte dos casos, não fazer perguntas que sugiram respostas: “‘Você sentia prazer em seu trabalho?’ é uma pergunta forçada; ‘Você gostava do seu trabalho, ou não?’ ou ‘O que você achava de seu trabalho?’ são perguntas neutras” (p.262).
Deve-se, por fim, escolher bem o local, a situação, o número de pessoas presentes e, acima de tudo, dispor-se a falar o menos possível, afim de somente escutar.
O refinamento não seria sem razão de ser, afinal. Todos esses novos procedimentos do historiador garantiriam uma maior legitimidade de suas fontes, as orais, em relação aos documentos (escritos, registros etc.), uma vez que o procedimento investigativo proporcionar- lhe-ia responder às inconvenientes perguntas sobre a intencionalidade das fontes – algo que os documentos, supostamente obscuros, dificilmente entregariam. Segundo Thompson, desse modo, o historiador oral seria aquele capaz de sanar um problema até então insolúvel para a historiografia tradicional: “a tensão básica: entre a história e a vida real” (p.305); “a voz consegue, como nenhum outro meio, trazer o passado até o presente” (p.334); “a evidência oral, transformando os ‘objetos’ de estudo em ‘sujeitos’, contribui para uma história que não só é mais rica, mais viva e mais comovente, mas também mais verdadeira” (p.137). Tal condição não seria ameaçada nem mesmo pela acusação de subjetivismo dos documentos propiciados pela história oral. Para Paul Thompson (1992), a ilusão biográfica não seria um problema, pois já estaria pressuposta em todos os documentos. As fontes orais seriam assim,
a priori mais legítimas que os documentos tradicionais da história:
Toda fonte histórica derivada da percepção humana é subjetiva, mas apenas a fonte oral permite-nos desafiar essa subjetividade: descolar as camadas da memória, cavar fundo em suas sombras, na expectativa de atingir a verdade oculta. Se assim é, por que não aproveitar essa oportunidade que só nós temos entre os historiadores, e fazer nossos informantes se acomodarem relaxados sobre o divã, e, como psicanalistas, sorver em seus inconscientes, extrair o mais profundo de seus segredos? (p.197)
Mas isso não é tudo. Agora a história ampliaria seu escopo ao tratar não só das esferas políticas e econômicas, como também daqueles que estão ao largo e aquém de suas decisões. O testemunho recolhido de todos, e especialmente daqueles marginalizados, constituiria a oportunidade de julgar a narrativa histórica de outro ponto de vista, de desmistificar os antigos
heróis, apresentando outros, “gente comum, tanto quanto líderes; mulheres, tanto quanto homens; negros, tanto quanto brancos” (p.334). O historiador libertar-se-ia dos esquemas acadêmicos e hierarquias ao ter de deixar os gabinetes e trabalhar com parceiros de outras disciplinas e níveis no trabalho de campo. A história, enfim, democratizar-se-ia, fosse em seus conteúdos, mais abertos, fosse em seus procedimentos, fosse, enfim, por poder ser escrita por todos,
não apenas por profissionais, mas também por universitários, por escolares, ou por pessoas de uma comunidade. Eles não têm apenas que aprender a própria história; podem escrevê-la. A história oral devolve a história às pessoas em suas próprias palavras. E ao lhes dar um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas. (p.337)
Mas os anos 60 e seus gravadores reservariam também novidades para o universo jornalístico. Segundo Leonor Arfuch, assistir-se-ia nesse período ao auge midiático da exibição pública do íntimo privado. Essa tendência, que se tornaria hegemônica a partir daí, teria no New Journalism estadunidense a sua expressão modelar, expandindo as possibilidades do gênero jornalístico com longas reportagens elaboradas a partir de técnicas como a observação participante e de longas entrevistas de personagens tanto da cena artística
underground quanto da política. O jornalismo passaria a flertar com o gênero literário em
narrativas mais elaboradas e extensas, nas quais o repórter faria as vezes de um personagem. São referências dessa época as obras de Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer. Para Arfuch (2010) “produzia-se, assim, com o auge midiático, uma consciência funcional em torno da entrevista como o modo mais efetivo de estimular tanto os relatos do passado quanto os do presente” (p.248).
As entrevistas fascinariam a todos.