A petição, como o próprio nome indica, é a parte da carta que consiste em um pedido. Não aparece necessariamente em um lugar específico, mas é comum estar próxima à
conclusio. Para o Anônimo de Bolonha, um dos tratadistas da ars dictaminis, a petitio pode
ser de nove tipos: suplicatória, didática, cominativa, exortativa, incitativa, admonitória, de conselho autorizado, reprovativa e direta (in TIN, 2005, p. 100).
A petitio nas cartas machadianas é, naturalmente, determinada pelas circunstâncias e intenções do remetente, mas também, assim como os outros elementos da ars dictaminis, determinada retoricamente pela posição do autor (escritor iniciante, escritor renomado, presidente da Academia Brasileira de Letras etc.) e pelo lugar ocupado pelos seus destinatários no tempo da correspondência. Nesse sentido, em muitas cartas destinadas ao jovem Magalhães de Azeredo, Machado pede para que o amigo responda sempre às correspondências ou que continue a escrever versos e prosa. Muitos pedidos estão na forma de
conselho autorizado ou de maneira incitativa, estimuladora. Afinal, como diz o próprio
Machado a Azeredo, citando Renan, ―nada mais verdadeiro e eterno que aconselhar o trabalho à mocidade‖ (ASSIS, 1969, p. 25).
Quero dar-lhe ainda outro conselho; é o jus dos velhos, – ou dos mais velhos, se me permite esta vangloria. Não duvide de si. Receio muito que este sentimento lhe ate as asas. Hade de sempre haver quem duvide do seu talento; deixe essa tarefa a quem pertence par droit de naissance. O seu direito e dever é crer nelle e mostral-o. Não descreia das musas; elas fazem mal ás vezes, são caprichosas, são escuivas, mas entregam-se nas horas de paixão, e nessas horas os minutos valem por dias. (ASSIS, 1969, p. 25) (mantida a grafia original) (grifos nossos)
Os pedidos acima identificados são conselhos estimulantes para a atividade de escritor do destinatário. Tratavam-se de palavras incentivadoras, incitativas. No término desta epístola, o autor acrescenta, continuando um círculo de comunicação próprio das cartas: ―mande-me em troco alguns versos, se os houver, e, se não, a sua boa prosa epistolar, que é a própria pessoa‖. Aliás, esse foi o pedido mais constante feito a Azeredo: ―desejo ver cartas suas (...). Espero-as carinhosas e amigas, como sabem ser‖ (ASSIS, 1969, p. 42).
Em outra carta a Azeredo, de dois de abril de 1895, Machado aconselha o amigo, que se queixava de alguma enfermidade e de excesso de trabalho, pedindo para que ele se poupasse, descansasse, pois, sendo jovem, não faltaria tempo para produzir escritos. Em carta de sete de dezembro de 1897, referindo-se aos textos do amigo, o autor de Quincas Borba
reitera o constante estímulo: ―Continue com elles, e dê-nos um livro de viagens, ou mais, em que a imaginação de poeta, a observação de moço e moderno, com educação litteraria, nos mostre uma vista brasileira das cousas do velho mundo‖ (ASSIS, 1969, p. 131) (mantida a grafia original).
A petição de Machado para Azeredo escrever sobre a Europa, mais especificamente sobre Roma e a Itália, onde o segundo se encontrava, era uma forma de conforto para quem nunca saíra do Brasil e muito pouco do Rio de Janeiro.
Uma das suas cartas (creio que a ultima) falava de me ver na Europa, e particularmente nessa Roma, que tanto e de tanta cousa fala. Sei que lhe daria prazer com isto, e pode adivinhar qual seria o meu. Entretanto, se não posso inteiramente dizer que não irei lá nunca, pois ninguem sabe onde estará amanhã, é todavia improbalissimo que lá vá. Terei vivido e morrido neste meu recanto, velha cidade carioca, sabendo unicamente de outiva e de leitura o que há por fora e por longe. (ASSIS, 1969, p. 182) (mantida a grafia original)
Em carta de 21 de janeiro de 1897, Machado afirma:
Que bom que é ler o apanhado de tantas vistas bellas, como as de arte, de monumentos, de ruinas, e de toda aquella Italia que acaba de deixar! É melhor que ler outras de extranhos. Quando a pessoa que as descreve é um patrício, fala a nossa língua, sente comnosco recordações communs, parece que tambem nós vemos pelos olhos delle. (ASSIS, 1969, p. 120-1) (mantida a grafia original)
Para o organizador da correspondência entre os dois autores, Carmelo Virgillo, ―as cartas de Magalhães de Azeredo deviam constituir para Machado de Assis um escape, pois que o velho mestre leria nessas páginas os anelos da mocidade que lhe era tão cara‖ (in ASSIS, 1969, p. 12). Em um tom de lamento, Machado repete em várias cartas a mesma temática:
As suas ultimas cartas tem um encanto mais, alem dos do costume, é o logar, seja Roma, seja Albano, seja Carpinetto ou outra parte; fala-me sempre de cousas italianas, que me fazem lembrar a bella ode de Musset ao irmão, en revenant
d’Italie. Somente, eu não sou Musset, nem posso dizer, como elle, que deixei o
coração em Veneza. Se em alguma parte está nessa terra, é em toda Ella, que nunca chegarei a ver, meu querido amigo, por que na minha edade ja não é possível deixar a terra em que nasci e vivi para recomeçar uma vida nova. Agora acabou. Creio que nenhum dos meus contemporâneos deixou de ir ver terras alheias e diversas, onde a arte lhe deparasse vistas antigas e recentes, e costumes tão diversos destes. Só eu fiquei pegado à terra natal. (ASSIS, 1969, p. 206)
Se para Magalhães de Azeredo a petitio geralmente se relacionava à escrita de cartas ou de textos literários, de forma incentivadora e conselheira, para outros destinatários, conforme as circunstâncias, os pedidos variavam.
Para Francisco Ramos Paz, amigo da juventude de Machado, com quem dividiu moradia, os pedidos estavam associados a necessidades financeiras na época do casamento do autor: ―Ajuda-me, Paz; eu não tenho ninguém que o faça. Conselhos, sim; serviços, nada‖ (ASSIS, 1986, p. 1.031). E em outro bilhete: ―Ainda preciso daquilo que te falei. Vê se me arranjas, e deixo ao teu parecer as condições, que conto serão razoáveis, favoráveis para mim‖ (ASSIS, 1986, p. 1.031).
Para Salvador de Mendonça, um pedido de crítica literária para o livro de poesia
Americanas, configurando o que mais adiante trataremos sob o título roda de compadres:
―Remeto-te um exemplar das minhas Americanas. Publiquei-as há poucos dias, e creio que agradaram algum tanto. Vê lá o que isso vale; se tiveres tempo, escreve-me as tuas impressões‖ (ASSIS, 1986, p. 1.033). No mesmo sentido, em carta a Joaquim Nabuco de 14 de abril de 1883, Machado pede para que o amigo escreva algo sobre o livro Papéis Avulsos, que estava sendo enviado junto à carta.
Como já mencionado, reveladores de uma prática epistolar da época de Machado é o pedido e o envio de retratos, revistas, jornais, livros ou qualquer outro pertence, que figurava como um presente para o destinatário. Em uma carta-bilhete a Salvador de Mendonça, a epístola praticamente se reduz a petitio: ―Meu caro Salvador. / Procurei-te ontem sem ter a fortuna de encontrar-te; mas vai aqui no papel o que eu te queria dizer, e é que, se depois de publicado o discurso do Dumas, não fizeres empenho em conservar o original, o mandes a este / Teu do C. / M. A. (ASSIS, 1986, p. 1.033). As fotografias eram pedidas não raramente. Os interlocutores mantinham um álbum de retratos, como atesta o próprio Machado em carta a J. C. Rodrigues: ―Não me será dado obter igualmente um retrato seu para o meu álbum dos amigos? (ASSIS, 1986, p. 1.032).