Fen Bilimleri
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A Escola do Interesse Público (“Public Interest” Theory) defende a necessidade de regulação com origem no conflito entre os agentes econômicos privados e o interesse público. O Estado é chamado a intervir na economia para limitar e controlar as atividades econômicas praticadas pela iniciativa privada, quando há serviço ineficiente, preços abusivos e/ou desequilíbrio de mercado.
Para a referida Escola, o interesse público deve prevalecer sobre o interesse do mercado, como bem explica Lucas Lehfeld. A regulação, em uma dimensão ampla (intervenção estatal no mercado), tem por objetivo alcançar o bem público, embora ressalte o autor ser tal conceito de concreção difícil, haja vista as diversas dimensões política, jurídica e econômica.301
Segundo essa teoria, a intervenção estatal na economia e na sociedade é essencial para se garantir a distribuição de riquezas, manter a sociedade igualitária e propiciar um desenvolvimento sustentável. Críticos ao liberalismo econômico e à ideia de que a eficiência econômica seria alcançada pelo próprio mercado (“mão invisível”, segundo John Maynard Keynes), a doutrina do Interesse Público prega exatamente o fim
do abstencionismo estatal, regulando a economia (“mão visível” do Estado, de acordo com Vital Moreira) de modo a suprir as falhas de mercado.
Assim, algumas normas têm por finalidade redistribuir recursos de um grupo para outro ou proteger algumas pessoas da ação coletiva promovida por grandes grupos. Por causa do problema da ação coletiva, explica Cass R. Sunstein302, as normas
reguladoras possuem o papel de garantir direitos relevantes para determinados grupos da sociedade, tornando-os inalienáveis (ex: direitos trabalhistas, normas sobre saúde e segurança). Por outro turno, o Jurista estadunidense explica que
[...] um dos paradoxos do Estado Regulador é que os esforços para redistribuir recursos por meio da regulação tendem a prejudicar os menos favorecidos ou, de qualquer modo, tendem a ter efeitos complexos, muitos dos quais não desejados e perversos. O mercado é extremamente criativo para superar esforços regulatórios que pretendam transferir recursos.303
Um exemplo da aplicação dessa Teoria do Interesse Público é encontrado na regulação dos serviços de água e de resíduos em Portugal, realizada pelo Instituto Regulador da Água e dos Resíduos – IRAR. Jaime Baptista, Dulce Pássaro e Rui Santos explicam a necessidade da regulação dos mencionados serviços num regime de monopólio nas terras lusitanas:
Quando existe um serviço público que constitui um monopólio natural, o Estado, através da Administração Central, da Administração Local ou de uma Empresa Pública, pode assumir, para além da propriedade, a sua gestão e exploração de modo a garantir a satisfação do interesse público e dos consumidores, sem tirar proveito da sua condição de monopolista para oferecer um serviço de menor qualidade a um preço superior ao que resultaria de um mercado concorrencial. Esta opção implica contudo que o Estado se assuma interessado e capaz de executar uma gestão eficiente e eficaz e direccionada para o interesse público.304 (grifo nosso)
302 Rodrigo Luís Kanayama, pautado na atuação do Estado e o grau de intensidade da relação com os sujeitos pertencentes à sociedade, identifica Cass R. Sunstein como ligado a um paternalismo libertário, corrente intermediária entre o liberalismo de John Stuart Mill e o paternalismo coercitivo de Sarah Conly. Assim explica a essência da corrente doutrinária: “A aplicação do paternalismo libertário não é contraditório ao liberalismo (...). É um complemento. Pela constatação de que as pessoas não fazem escolhas racionais, ou escolhas que atendem, realmente, seu melhor interesse, elas podem ser dirigidas, incentivadas, com um empurrão, a tomar o rumo certo. Não se viola o direito de escolha; mas se incentiva a escolha racional”. In: Políticas públicas: entre o liberalismo e o paternalismo. Revista de Direito Público
da Economia – RDPE, Belo Horizonte, ano 11, p. 223, abr./jun. 2013.
303 SUNSTEIN, Cass R. Op. cit., p. 43-44.
304 BAPTISTA, Jaime Melo; PÁSSARO, Dulce Álvaro; SANTOS, Rui Ferreira dos. O modelo de regulação das águas e resíduos em Portugal. Revista de Direito Público da Economia – RDPE, Belo
Considerando o monopólio natural, a regulação consiste num mecanismo de controle de eficiência dos serviços públicos prestados, reproduzindo um “mercado de competição virtual”305, assegurando a manutenção do interesse público. Exemplo clássico
de monopólio natural, decorrente da inviabilidade econômico-financeira da estrutura dos serviços, é o serviço de saneamento básico.
Giovani Ribeiro Loss critica a posição de Calixto Salomão, que aproxima a Escola do Interesse Público à Escola do Serviço Público, pois entende serem elas divergentes:
A Escola do Interesse Público parte de duas premissas econômicas básicas: a primeira, de que o mercado é extremamente frágil e por isso inapto a operar de forma eficiente sem algum tipo de regulação estatal; a segunda, de que a regulação estatal tem um baixo custo para a sociedade. A Escola do Serviço Público, a seu turno, parte da própria noção de serviço público, da natureza da atividade envolvida e de sua imprescindibilidade para a coletividade.306 Percebe-se, claramente, a distinção entre as duas escolas doutrinárias, ao contrário do que anota Calixto Salomão: a primeira está calcada em duas premissas econômicas em relação à sociedade (necessidade de regulação estatal do mercado e o baixo custo desta regulação para a sociedade), ao passo que a segunda escola vincula a noção de serviço público à própria natureza da atividade envolvida, ou seja, caracteriza- se por ser indispensável e essencial à coletividade. Ademais, a aproximação das duas escolas não se sustenta, pois a busca do Estado pelo interesse público nem sempre consiste na submissão da atividade estatal a um regime jurídico de serviços públicos.