Desde a posse de Morales-García Linera à presidência da Bolívia, percebe-se o esforço em propor, e pôr em marcha, um pacto nacional que seja baseado em um novo consenso. Um pacto nacional mais inclusivo, multiétnico e plurinacional, capaz de reconhecer as especificidades dos distintos grupos étnicos e culturais que compõem a sociedade boliviana e de, talvez, transformar em algo constitutivo do Estado o abigarramiento, que, segundo Zavaleta Mercado (1983), é característico da sociedade e do Estado boliviano. Em um trabalho de aproximação entre o Estado e a população que este representa, o governo Morales, assim como em outros momentos constitutivos, tem tentado se mover no sentido de fazer com que a maioria indígena, ao se identificar com o projeto de cambio defendido pelo governo, passe também a se identificar mais com o projeto nacional que o Estado representa e, também, com o próprio.
Recuperaremos brevemente a reflexão sobre nação e nacionalismo para refletir sobre o atual contexto boliviano, apontando as possibilidades e limites do debate corrente sobre nação e nacionalismo para análise do caso aqui em questão e nosso posicionamento frente a esse debate.
Desde sua origem, nos primórdios da modernidade, o discurso sobre a nação se dedicou à organização coletiva dos povos e construiu a teoria da legitimidade jurídica que estabelece que as fronteiras étnicas devem coincidir com as fronteiras políticas; o que conduziu à ideia de que toda nação deveria buscar a constituição de uma homogeneidade, preferencialmente, étnica, cultural e linguística. No entanto, temos que, ao que tudo indica, contemporaneamente, o eixo dos conflitos e controvérsias passou a ser as especificidades culturais, em especial quando transformadas em demandas pelo reconhecimento do direito
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à diferença. (Montero,1997b: 231) Tais reivindicações com base no “direito à diferença” são, em sua maioria, reivindicações por inclusão, seja ela política, econômica, cultural ou simbólica, ou uma combinação de mais de um desses aspectos. É fato que os Estado-nação, dada a sua perspectiva de que o mundo se divide “naturalmente” em nações, e que estas se caracterizam por certas especificidades locais que podem ser investigadas, baseia-se no princípio de que a única forma de governo legítimo é a que consiste em uma associação entre um Estado e uma nação. Portanto, não são pródigos em “conviver com a diferença”; mas em promover movimentos homogeneizantes, via integração, assimilação ou invisibilização (ou os três juntos) de certas parcelas da população. Algo que, justamente, a proposta do Estado Plurinacional busca contrariar.
A etnia, a identidade étnica, assim como a memória, desde o advento dos movimentos nacionalistas, sempre foi um fator fundamental na construção dos discursos que pautam os nacionalismos e funcionou, em boa parte dos casos, como a base da confiança dos grupos na sociedade e no Estado como instâncias integradoras e totalizadoras. Nesse contexto, a noção de identidade é utilizada como denominador comum de sentimentos subjetivos e das avaliações que qualquer população que tenha experiências comuns e uma ou mais características culturais compartilhadas (em geral, costumes, língua ou religião) é capaz de proferir conjuntamente (Smith, 1999). Sabemos que todo nacionalismo recorre à história e à antiguidade consistentemente forjadas pelos laços e sentimentos étnicos, pois estes proporcionam à história do grupo ampla repercussão entre diferentes camadas da população e podem promover uma grande adesão dos sujeitos ao discurso nacionalista.41
Uma das teorias mais debatidas nos círculos de discussão sobre nacionalismo é aquela apresentada por Bendict Anderson em Comunidades imaginadas (2008). De acordo com Anderson, nacionalidade e nacionalismo são produtos culturais de um tipo peculiar e, para compreendê-los, devemos nos preocupar em saber como se tornaram “entidades históricas”, como seus significados se alteraram ao longo do tempo e por que “inspiram uma legitimidade emocional tão profunda” (2008: 30) entre as pessoas que com ele se identificam. Seguindo o argumento do autor, temos que a nação também é imaginada como soberana, pois as nações se pretendem livres, e o maior símbolo dessa liberdade é o Estado soberano, que a representa frente à pluralidade das nações. Por fim, para Anderson (2008)
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a nação é imaginada como comunidade, pois nela todos são iguais e envoltos por uma fraternidade que os une. Anderson (2008) também baseia sua explicação na capacidade do nacionalismo de fazer com que os sujeitos se sacrifiquem por ele, morrendo em nome da nação.
Assim, da perspectiva de Anderson (2008), a base do processo de formação da “comunidade imaginada”, que vem a ser a nação, é fruto da criação de um espaço de intercâmbio e comunicação a partir do uso de uma língua comum, que permite sua diferenciação em relação às demais nações e indica sua unidade. No entanto, é preciso salientar desde já que, no caso boliviano, a homogeneidade linguística nunca foi consolidada, e que, desde a Nova Constituição Política do Estado de 2009, são reconhecidos como línguas oficiais do país, além do espanhol, 36 idiomas originários. O reconhecimento das línguas indígenas como oficiais e o esforço para incluí-las nos livros escolares e no cotidiano das agências e departamentos de serviço público governamental se deve à constatação de que a maioria da população fala essas línguas e, portanto, deve poder utilizá-las em todas as esferas de suas vidas, não somente em âmbitos domésticos. Para além, é claro, de ser uma tentativa de combater o “colonialismo interno”, uma vez que na Bolívia tais línguas indígenas foram sempre um signo de desprestígio social e alvo de preconceito.
A ideia é de que a legitimidade conferida à “imaginação” nacional se dá graças ao estabelecimento de símbolos determinados com base em escolhas arbitrárias, porém não aleatórias. Existe um caráter criativo das “comunidades imaginadas”, e essa criação se baseia em elementos reais. Interessa saber como esses elementos são continuamente reatualizados e reelaborados no intuito de legitimar a ideia de nação, nacionalismo e nacionalidade. Essa ideia de contínua atualização e reelaboração aproxima a noção de criação das “comunidades imaginadas” de Anderson (2008) à ideia de “tradições inventadas” desenvolvida por Hobsbawm (1997). Uma vez que ambos tratam de analisar o modo como se constituem e atualizam os vínculos entre as pessoas que passam a se identificar naquilo que Hobsbawm chama de “religião cívica alternativa” (1997: 277) e Anderson como “comunidade imaginada”. Isto é, um discurso totalizante, sobre origem e destino, com o qual todos os membros de uma nação se identificam, independentemente da classe social.
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ideológicos, entenderam ser necessária a “invenção de uma continuidade histórica” (1997:15) que garantisse legitimidade à nação, bem como ao grupo nacional enquanto unidade cultural pretensamente homogênea. Ocorre que a imaginação, a criação e a divulgação de ideias e ideais nacionalistas são também o que garante longevidade à identificação de todos com a nação. A identificação coletiva com símbolos, rituais coletivos e ideias referentes à nação garante a coesão da sociedade, representada por estes (Hobsbawm, 1997).
No entanto, temos que Anderson (2008), ao entender a origem da nação como ligada a um desenvolvimento da empresa capitalista de imprensa, proveniente da esfera da “alta cultura” letrada, não trata as questões étnicas e minimiza a dimensão do conflito social e disputa que é constitutiva de toda sociedade. Mais do que isso, para Anderson (2008) o discurso nacionalista é um discurso produzido em um dado momento e que, quando muito, é atualizado conforme certas circunstâncias, não havendo grandes transformações ou alterações no mesmo. Hobsbawm propõe algo semelhante (1997, 2000), ambos entendendo que o nacionalismo é uma forma de reivindicar direitos e demandas. No entanto, se, como afirma Sanjinés, “o nacionalismo se tornou a forma discursiva por excelência das demandas sociais que pretendem conquistar a autonomia política e a autodeterminação, aquele que não conseguiu seu objetivo com facilidade, com efeito, teve que renegociar constantemente seu significado. Prova disso é que, hoje em dia, novos nacionalismos proliferam no Ocidente, do mesmo modo como se dão também novos esforços nacionalistas de descolonizar o Estado. Isso é particularmente evidente naquelas sociedades pós-coloniais onde existem fortes movimentos sociais de natureza étnica. Se pode ver, então, que o nacionalismo, sempre variante, não é uma coisa do passado, mas algo vigente que incorpora em sua retórica as etnicidades preexistentes.” (Sanjinés, 2009: 51) Ou seja, todos aqueles que não se reconheceram ou reconhecem no discurso nacionalista “original” se viram pressionados a reivindicar espaços políticos e direitos ao longo do tempo. O que acabou por redundar, no final do século XX e início do século XXI, na eclosão de toda uma gama de conflitos em vários cantos do globo, inclusive em países em que se imaginava o nacionalismo e a identidade nacional como consolidados. Nesse novo contexto, as teorias sobre nação e nacionalismo apresentadas por Anderson (2008) e Hobsbawm (1997, 1998 (a), 1998 (b) e 2000) não permitem uma análise das novas “variações” do nacionalismo, isto é, uma análise que dê conta dos fenômenos, discursos e processos vividos contemporaneamente, como os de constituição do Estado Plurinacional
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na Bolívia.
Uma importante crítica à teoria de Anderson (2008) é apresentada pelo mexicano Claudio Lomnitz (2001), e ela se torna mais importante, pois se trata de uma crítica baseada nas contingências do surgimento do nacionalismo na América hispânica, que depois redundou nos processos de independência nesse território. Lomnitz questiona a explicação dada por Anderson (2008) aos nacionalismos hispano-americanos, que teriam servido de modelos para outras nações. Para Lomnitz (2001), a descrição de comunidade feita por Anderson oculta a experiência concreta na América Latina, uma vez que no subcontinente, os laços entre os distintos setores sociais e étnicos foram sempre de “dependência” e não de “camaradagem”. Se o nacionalismo é uma linguagem que articula os cidadãos diante de várias comunidades, desde a família, grupos corporativos, vilas e cidades até o Estado nacional, e as conexões entre essas inúmeras comunidades são a substância do discurso e da luta nacionalistas, temos que na América Latina, segundo Lomnitz (2001), sempre existiu uma distinção entre os cidadãos plenos e os cidadãos parciais (crianças, mulheres, indígenas, analfabetos etc.) e não a formação de uma única comunidade fraterna. Aos cidadãos parciais, grupo composto fundamentalmente pelas maiorias étnicas, historicamente, coube a submissão e a dependência. Assim, uma vez que a “diferença cultural” marcou profundamente a natureza heterogênea da realidade latino- americana, torna-se difícil afirmar que o poder do nacionalismo se originou em laços de fraternidade que até os dias de hoje seriam inculcados nos futuros cidadãos graças às escolas. Nessa perspectiva, a nação, na maioria dos países latino-americanos, estaria ligada a um sentimento intersubjetivo, relativo a uma vivência ligada a premissas materiais e a outras experiências coletivas, como mobilizações sociais, festas populares, relações de parentesco (consanguíneas ou sociais) e experiências de violência.
Segundo Sanjinés (2009: 57), o maior problema da teoria proposta por Anderson (2008) é não ter incorporado à “comunidade imaginada” a perspectiva de interação entre as díspares comunidades interpretativas que povoam as nações. Isto é, a ideia de “comunidade imaginada” configura como uma construção utópica, que não dá espaço para a multiculturalidade fática que caracteriza todas as sociedades, ou seja, ignora as disputas por poder interpretativo que são promovidas pelas distintas subjetividades que compõem as múltiplas culturas. Ora, é justamente a existência de múltiplas culturas e diferentes intensidades nos laços que unem o Estado às lealdades familiares e comunitárias, em geral,
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que são variáveis na Bolívia, se a entendemos como uma sociedade abigarrada. E é por isso que a teoria proposta por Anderson (2008) pouco contribui para a análise do caso que analisamos neste trabalho.
Num contexto como o boliviano, em que a marca do abigarramiento (Zavaleta, 1983) se encontra em todas as partes, o debate, por exemplo, sobre a necessidade de garantir igualdade de oportunidades para todas as mulheres, usem elas polleras42 ou não, não é algo banal. Discute-se o direito de usar polleras e realizar qualquer ofício, discute-se o fim das limitações de ascensão social e de reconhecimento às especificidades impostas à maioria da população por suas maneiras de falar, de vestir, de se manifestar religiosamente, de entender o mundo, de se organizar, pela sua cor de pele, sotaque ou sobrenome. Debate- se o direito de alargar os caminhos que permitem chegar ao poder, às esferas de tomada de decisão, enquanto se discute também o direito de ser e viver em acordo a seus costumes e maneiras originárias, sejam elas originárias ou não.
Entendemos que construir um Estado Plurinacional é uma tentativa de, ao mesmo tempo, transformar uma das mais fortes marcas da matriz civilizatória ocidental, o Estado nacional, de maneira a tornar as instituições centrais representativas do conjunto de grupos que compõem a sociedade boliviana; e superar os limites impostos pela dita matriz no sentido de garantir o reconhecimento de que as distintas identidades étnicas e culturais conformam, igualmente, parte do que é a Bolívia e a nação boliviana. Sendo assim, seguindo a perspectiva de Sanjinés (2009), temos aqui uma situação tal em que o que se observa é uma renegociação do significado da ideia de nação boliviana, e uma nova tentativa de descolonizar o Estado, com a determinação legal e o esforço em garantir o reconhecimento de diversas formas de ser e de existir no seio do Estado Plurinacional. A existência de fortes movimentos sociais de base étnica, bastante articulados, reivindicativos e questionadores da narrativa nacional, em especial a produzida no bojo da Revolução Nacional de 1952, indica um esforço tanto de renegociação do sentido do que é “ser boliviano” quanto o esforço em incorporar ao discurso nacionalista a retórica das etnicidades preexistentes como algo que não só é inexoravelmente parte da nação, mas como algo que a torna única e fortalece.
42 Saia identificada com a vestimenta “tradicional” das mulheres de origem indígena na Bolívia, tanto no
campo quanto nas cidades. As polleras, como usadas na Bolívia, são compostas de no mínimo três saias. São mais longas na região do Altiplano, como em La Paz, e mais curtas, pelo joelho, nas regiões dos Vales, como Cochabamba. As mulheres que usam polleras são identificadas como cholitas, maneira como se chamam as mulheres de origem indígena que usam a vestimenta “tradicional” nas lides da vida cotidiana.
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