7.4. Aşınma Deneyleri Sonuçları
7.4.3. Aşınma izi SEM görüntüleri
Foi o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra que assumiu o comando do DOI de São Paulo.140 Preenchia os requisitos para exercer a função. Era oficial de nível superior e possuía experiência na área de informações, pois acompanhara, a título de representante da 2ª Seção do II Exército, o trabalho da Operação Bandeirante nas reuniões semanais da comunidade de informações, durante as quais se avaliavam os avanços e recuos das ações de guerrilha.141 O DOI passou da 2ª Divisão de Infantaria, à qual se vinculava a Coordenação de Execução da Operação Bandeirante, ao controle operacional do chefe da 2ª Seção do II Exército, ao qual se reportava preferencialmente.142
138
FICO, Carlos. Como eles agiam, p. 140 e 198.
139
USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A verdade sufocada, p. 319.
140
O Setor de Operações de Informações – que compreendia o cerne do DOI: a Seção de Investigações, a Seção de Informações e Análise e a Seção de Busca e Apreensão – era chefiada pelo capitão de artilharia Dalmo Lúcio Muniz Cyrillo. A Seção de Informações e Análise era chefiada pelo capitão de Infantaria André Leite Pereira Filho. A Seção de Investigações era chefiada pelo capitão do Exército, da arma e da Artilharia, Ênio Pimentel da Silveira, secundado pelo capitão do Exército, da arma de Cavalaria, Freddie Perdigão Pereira. A única seção a ser chefiada por um oficial da Polícia Militar ou um delegado de Polícia – e, portanto, não por um militar – era a Seção de Busca e Apreensão, a mais sujeita a sofrer baixas, por ter como missão a captura de militantes políticos que poderiam estar armados e reagir à prisão. O nome de seu chefe não é mencionado. USTRA, Calos Alberto Brilhante. A verdade sufocada, p. 299-306.
141
USTRA, Carlos Alberto Brilhante. Rompendo o silêncio, p. 73. Curiosamente, segundo Elio Gaspari, Ustra havia coberto 30 dias de férias de Waldyr Coelho, no primeiro semestre de 1970, e foi devolvido ao quartel general com a qualificação de “oficial incompetente”. GASPARI, Elio. A ditadura escancarada, p. 187.
142
A subversão e o terrorismo em São Paulo. 10/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 84, 15602, fl. 32.
A institucionalização deu-se em grande estilo. O efetivo elevou-se de 116 para 300 homens.143 Materiais de toda a ordem, incluindo um moderno sistema de comunicação de rádio, armamentos, munições e viaturas foram fornecidos pelo Ministério do Exército. Metade das instalações da 36ª DP foi cedida ao órgão, incluindo a carceragem. Um prédio de dois andares foi construído, e o que já existia foi reformado: alojamentos para os funcionários de serviço, salas de interrogatório adaptadas, garagens e oficina mecânica.144 As dependências estenderam-se até a rua Thomaz Carvalhal, cuja frente passou a ser identificada pelo número 1.030, entrada oficial do órgão. Guaritas foram montadas tanto na rua Tutóia quanto na rua Thomaz Carvalhal.145 Matéria publicada no Jornal do Brasil assim descrevia o interior do órgão:
Ao se transpor o portão cinza, de duas folhas, imediatamente após o corpo- da-guarda, integrado por soldados do Exército e da Polícia Militar, tem-se à direita uma sala de espera e à esquerda um amplo estacionamento com os mais diversos tipos de viaturas. Já dentro do prédio cinza, à direita se encontra o refeitório dos funcionários e, à esquerda, dependências em ampla área edificada. Uma porta de ferro impede o acesso a estranhos. Vêem-se uma mesa, com cadeira, e uma saleta destinada à identificação dos presos. No extenso corredor, à direita, há quatro celas de cada lado, com portas gradeadas, podendo ver-se seu interior. Apenas uma cela, no fundo do corredor, possui chuveiro de água quente. Ainda no mesmo corredor, uma solitária, onde permanece o preso incomunicável.
No sentido, ainda, dos grandes portões de entrada, tem-se à frente uma escada de dois lances. Chega-se à parte assobradada onde se localizam as salas de interrogatório. No seu interior, uma mesa simples, tendo de cada lado duas cadeiras de plástico. Na parte de cima, também, instalam-se o comando do DOI-CODI e as equipes de análise que interpretam os depoimentos feitos pelos presos. Além dessas dependências, mais três celas estão ali instaladas.146
O trabalho foi reorganizado, centralizado e compartimentado, de modo que cada agente realizasse tarefas específicas.147 Do ponto de vista da produção de interrogatórios preliminares, no entanto, não houve mudanças significativas, embora, com o tempo, a institucionalização tenha se revelado, por exemplo, na apresentação formal das transcrições,
143
O general Adyr Fiúza de Castro, ao referir-se ao contingente do DOI do Rio de Janeiro, fala em 180 homens. Depoimento do general Adyr Fiúza de Castro, publicado em D’ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon; CASTRO, Celso. Os anos de chumbo, p. 243.
144
USTRA, Carlos Alberto Brilhante. A verdade sufocada, p. 292.
145
JORDÃO, Fernando Pacheco. Dossiê Herzog: prisão, tortura e morte no Brasil. 6. ed., São Paulo: Global, 2005, p.167.
146
O prédio cinza do Bairro Paraíso. Jornal do Brasil. 23 jan. 1976. Apud JORDÃO, Fernando Pacheco. Dossiê
Herzog, p. 167-168.
147
que, antes despojadas, passaram a contar com uma folha de rosto em papel timbrado. O DOI manteria as práticas extralegais de apreensão e tortura de suspeitos, o funcionamento contínuo (24 horas por dia) e a convivência dos estilos militar e policial.
A missão do DOI não se diferenciava daquela da Operação Bandeirante: tratava-se de “desmontar toda a estrutura de pessoal e de material dessas organizações [subversivas], bem como impedir a sua reorganização”.148 Sua organização deveria ser suficientemente flexível para adaptar-se às modificações da dinâmica assumida pelo combate, ao passo que os postos- chave e as funções de chefia eram invariavelmente ocupados por membros das Forças Armadas. A coabitação entre representantes de diversas corporações policiais e militares visava a dois alvos distintos: o primeiro, contar com o auxílio de cada força militar ou policial em determinadas ações, que exigissem uma logística particular, o que permitia ao DOI desdobrar-se e multiplicar-se sem precisar manter um efetivo muito elevado e custoso; o segundo, implicar os mais diversos órgãos repressivos, de modo a impedir o isolamento político do DOI, evitando que se constituísse como corpo estranho em relação aos órgãos policiais e militares:
Essa constituição mista além de traduzir uma demonstração nítida da reunião dos esforços de todos os órgãos responsáveis pela Segurança Interna, apresenta inúmeras outras vantagens, tais como: a compreensão, o apoio e a consideração que os vários órgãos do Governo prestam ao DOI, principalmente através do apoio aéreo, do transporte de presos, do acesso a serviços de identificação e às delegacias de polícia, do apoio do serviço de rádio-patrulha, do Instituto Médico Legal e de instalações. Esse apoio é consciente e contínuo, pois os chefes destes serviços vêem nos DOI uma comunidade que trabalha irmanada para alcançar um objetivo comum: o de manter a paz e a tranquilidade social para que o governo possa, sem riscos e sem pressões, continuar o seu trabalho em benefício do povo brasileiro.149
Ocorria, por exemplo, aos agentes do DOI pedir auxílio aos pára-quedistas, mas essa assistência nunca ultrapassava limites muito bem estabelecidos: tratava-se de travar o combate, efetuar a prisão e entregar o indivíduo ao DOI, sem interrogá-lo ou mantê-lo prisioneiro em outra instituição.150 Em muitos casos, porém, a relação com os colegas que serviam em outras áreas tinha sua carga de conflitos. Davi dos Santos Araújo – o “capitão Lisboa” – chefe de uma equipe de busca e apreensão, comenta como essa tensão era vivida no quotidiano:
148
Apostila Sistema de Segurança Interna. SISSEGIN. [1974?], cap. 2, p. 27.
149
Apostila Sistema de Segurança Interna. SISSEGIN. [1974?], cap. 2, p. 28-29.
150
Eu estou aqui numa perua, um camarada barbudo, outro camarada barbudo e atrás outro camarada barbudo. A Rota vê e começa a cercar. Era tudo civil e tudo frio. Barba, carro, tudo. Você já imaginou o dia-a-dia com a própria polícia como é que era? [...] Você não sabe como é o pessoal da PM? Já chega pra valer. Chegava em cima de nós pra valer e nós tendo que sair daquela situação. Não é difícil? E então você precisava avisar, que tinha alguém em assim em algum lugar e que eles precisavam sair da área. [...] [Houve] Vários incidentes. Troca de insultos, empurra-empurra, arma engatilhada. Morte, não.151
Era difícil também acolher favoravelmente, no seio de uma instituição tão disciplinada e hierarquizada como o Exército, agentes que se vestiam à paisana, com cortes de cabelo que não condiziam com os códigos da instituição e barba por fazer, assim como aceitar a quebra de hierarquia na execução de operações de combate. Diante do mal-estar gerado, o comandante do II Exército, o general Humberto de Sousa Melo152 – grande defensor do DOI – acorreu em auxílio ao órgão, enviando um ofício circular a todas as organizações militares de sua área de jurisdição:
Tendo chegado ao conhecimento deste Comando que em algumas OM deste Exército, há uma certa incompreensão relacionada com seus próprios elementos que integram o Destacamento de Operações de Informações do CODI/II Ex, face à apresentação pessoal dos mesmos, impostas pelas circunstâncias que tipificam a natureza da luta em que estão empenhados, resultando mesmo em atitudes de má vontade para aqueles que, com bravura, denodo e coragem estão na 1ª linha de combate ao terrorismo, dou por muito bem recomendado que todos os Cmt e Chefes de OM dêem o máximo de apreço e prestígio àqueles que pertencem a este Destacamento.153
O cerne das operações era executado pelos seguintes compartimentos: a) Setor de Investigações, incumbido de seguir suspeitos e observar aparelhos, no intuito de identificar e localizar indivíduos procurados; b) Seção de Busca e Apreensão, responsável pela captura de suspeitos, pelo desmonte dos “aparelhos”, pela cobertura de “pontos”, pela apreensão de documentos e condução dos presos ao DOPS, auditorias, hospitais, etc.; c) Subseção de Interrogatório – à qual cabia realizar os interrogatórios preliminares –, ajudada pela Turma Auxiliar, encarregada da carceragem e da datilografia dos interrogatórios; e d) Subseção de Análise, que mantinha um arquivo sobre os prisioneiros e as organizações de esquerda,
151
Entrevista de Davi dos Santos Araújo. CARVALHO, Luiz Maklouf. Mulheres que foram à luta armada. São Paulo: Globo, 1998, p. 311.
152
O general Humberto de Sousa Melo sucedeu o general José Canavarro Pereira no comando do II Exército, no qual permaneceu de janeiro de 1971 a janeiro de 1974. ABREU, Alzira Alves de; BELOCH, Israel; LATTMAN- WELTMAN, Fernando; LAMARÃO, Sérgio Tadeu de Niemeyer (Org.). Dicionário histórico-biográfico
brasileiro pós 1930, p. 3719.
153
analisava os documentos apreendidos, estudava os depoimentos dos presos, fazia pesquisas para elucidar dúvidas, fornecia subsídios ao trabalho dos interrogadores e elaborava as informações encaminhadas à 2ª Seção do II Exército.154 Assim, esse destacamento “formava uma unidade policial autárquica, concebida de forma a preencher todas as necessidades da ação repressiva sem depender de outros serviços públicos”.155
No centro da engrenagem encontravam-se a extração (interrogatório) e a análise de informações: “Quando um terrorista era preso, a fase crucial da prisão, tanto para ele como para nós, era a do interrogatório”.156 As equipes de interrogatório e de análise trabalhavam de maneira concertada: a primeira fornecia dados para a segunda, que, por sua vez, orientava os rumos das questões a serem formuladas para completar o quadro do que já se sabia.