2.2. Yöntem
2.2.14. Aşıların Laboratuar Kontrolü
Pensando sobre essa situação de cegueira proporcionada pelo uso do divã, falemos agora sobre um fenômeno cuja ocorrência é vinculada à privação do ver e que tangencia nosso tema: a figura na análise.3 Em seu livro A figura na clínica
psicanalítica, Eliana Borges (2001) reflete sobre a presença de imagens visuais no
funcionamento psíquico do analista. Ela investiga o freqüente surgimento de figuras, imagens visuais sucessivas que são como álbuns de fotografias, como filmes, no pensamento do analista, enquanto ele está na posição de escuta, em sua clínica. Não se trata, afirma ela,
...de que o analista se ponha a “ver coisas”, no sentido comum da expressão, deslizando para traduções simplistas ou selvagens daquilo que vê. Nem é o caso tampouco de buscar extrair das abstrações da teoria as legendas que, como num filme, preencheriam o intervalo entre a imagem e o entendimento.4
1 NASIO, 1995, p. 15. 2 NASIO, 1995, p. 16.
3 NASIO em seu livro O olhar em Psicanálise traz elaborações sobre esse fenômeno. Ele descreve essas
figuras como uma formação psíquica, escópica, visual que “ocorre no analista quando ele escuta.” (NASIO, 1995, p. 17). Motiva-lhe mais, nesse livro, e instiga sua análise, essa situação que se dá quando, ao ouvir as palavras do analisando, ou seu silêncio, surpreende-se “representando mentalmente... , com uma nitidez muito particular, uma imagem que condensa de maneira muito compacta a significação inconsciente”3 do que escuta. NASIO alerta que não se trata de uma imagem que represente as palavras
ou o sentido do que se escuta. É uma imagem que não tem nada a ver com o que é dito, é uma imagem surpreendente, quase anômala em relação ao sentido do que se escuta.
O surgimento dessas imagens é favorecido pelo dispositivo analítico que cria uma situação assimétrica tanto corporal quanto perceptiva, ao suspender a reciprocidade do olhar face a face com suas referências visuais, que organizariam a sucessão de falas e silêncios. O uso do divã faz com que a escuta do analista seja como uma superfície em que a fala ressoa, permitindo que se rompa a lógica discursiva e possam surgir, com as imagens, as tonalidades afetivas. Temos, então, mais uma função do divã.
É com a ruptura desta condição que pode surgir na análise o pensamento visual próximo do sonho. A assimetria corporal e perceptiva presente no dispositivo analítico permite que o olhar do analista seja flutuante, como sua escuta, de modo a dispor de seus próprios restos mnêmicos visuais de forma fragmentada e associativa.1
Eliana Borges fala sobre uma modalidade de escuta, a escuta figural, que acolhe a função imaginativa “do analista, na qual o pensamento por imagem toma como referência o trabalho do sonho”.2 Ou seja, trata-se de uma modalidade de escuta que mais coloca o ouvido na posição de um olho capaz de acompanhar o curso de uma fala, aproximando-se da disposição inconsciente.
A escuta figural estaria intimamente vinculada à própria escuta flutuante. Os momentos em que as imagens param de surgir num vazio figural ou a paralisação de seu movimento podem ser momentos em que certas resistências, inclusive do analista, se manifestam.
É com destino à linguagem, nos processos que a tornam possível ou naqueles a que ela retorna, dos quais se sustenta e se renova, que se formam as imagens visuais, as figuras, que se apresentam na escuta do analista. A escuta figural opera neste intervalo entre a imagem e a palavra.3
O sonho e a sessão analítica se aproximam principalmente pela visualidade presente em ambos. Leite demonstra como é possível formular, assim como fizeram outros autores, tal relação de correspondência, quando mostra como uma transformação das imagens visuais em elementos oníricos e figurais também se dá como parte do processo pelo qual se instala cada análise.
1 LEITE, 2001, p. 18. 2 LEITE, 2001, p. 15. 3 LEITE, 2001, p. 41.
De início, as palavras do analisando falam do que lhe ocorre, do que ele conhece ou supõe conhecer a seu próprio respeito, destinam-se a compor um relato do visível. Acolhidas pela escuta flutuante, entretanto, despertam no analista imagens que passam a mover-se num espaço de natureza virtual, como do sonho, e, assim, emprestam forma ao desconhecido, ao que permanecia, até então, invisível e suspenso entre as palavras. Assim como a passagem do visível ao virtual é a transformação pela qual o processo de Freud chega à concepção de espaço psíquico, no dispositivo analítico. É a escuta flutuante que, ao acolher a fala do analisando e as imagens que ela suscita, opera a passagem deste limiar e transforma a situação analítica em espaço propício ao surgimento das figuras.1
Essas figuras que surgem podem ser tanto a expressão do recalcado quanto a inscrição do inédito. Elas participam juntas da criação ou da transformação na realidade psíquica que a análise visa a promover. Percebemos que aqui a autora nos fala sobre o olhar inconsciente e as formações psíquicas dele decorrentes.
Em sua condição de figura, as imagens visuais que surgem na escuta flutuante são precursoras ou, antes são matéria-prima da qual irão se constituir as metáforas que conferem à fala do analista sua potência de interpretação e são também, por vezes, elementos de uma construção que irá cerzir uma lacuna psíquica.2
Na análise a escuta figural acolhe e presentifica as figuras reveladoras dessa história e possibilita novas figurações. A figurabilidade na análise dá forma e expressa os arranjos da realidade psíquica, fazendo com que esses sejam reconhecidos e se movimentem, o que permite que surjam “novas vivências, seu ingresso nos processos psíquicos e seu encadeamento na produção de novos sentidos”.3 As figuras que surgem na escuta do analista a partir das produções do analisante são os efeitos do acolhimento e do investimento da análise.
Como ocorreria a escuta figural na escuta de um analista cego? Apesar de Leite tratar o fenômeno da figura da análise somente em sua configuração visual, arriscaríamos dizer que também seria possível ocorrer essa escuta figural em um analista cego, mas em outros moldes. Haveria em sua mente a presença de imagens, mas, assim como em seus sonhos, de nenhuma imagem visual. Esse fenômeno seria ilustrado pela ocorrência em seu pensamento de sensações e situações, da recordação de uma música ou de um cheiro. A escuta figural continuaria associada à escuta flutuante. Os movimentos dessas figuras continuariam apontando os movimentos da própria
1 LEITE, 2001, p. 71. 2 LEITE, 2001, p. 72-73. 3
análise, das resistências e avanços no tratamento. Seriam a manifestação do recalcado ou do inédito e incitariam, por seu caráter metafórico, as interpretações necessárias. Elas continuariam dando forma à realidade psíquica, mas não mais haveria uma forma em figuras visuais.
O sonho e a sessão analítica são, como mencionamos acima, recorrentemente aproximados. De acordo com Leite, tal aproximação se dá pela visualidade presente em ambos. Um sonho não-visual se aproximaria da sessão analítica? E, mais ainda: um sonho não-visual se aproximaria da sessão analítica em que o analista ou o analisante fossem cegos? O analisante, cego ou vidente, traz para o analista o modo como “vê”, percebe seu mundo, acolhidas suas palavras pela escuta1 flutuante do analista. Surgem,
para o analista, imagens num espaço virtual, não necessariamente um espaço visual, assim como é o espaço dos sonhos. Dessa forma,, mesmo sem a visualidade mencionada por Leite, consideramos que a proximidade entre o sonho e a sessão analítica deve ser mantida porque ambos são espaços de elaboração psíquica, de manifestação do inconsciente.
Para estabelecer a diferença entre ver, olhar e olhar inconsciente na análise, de acordo com as contribuições de Nasio e de Leite, associadas com o que propomos no capítulo 2, podemos sugerir idealmente as seguintes distinções que, na prática, não se separam: o olhar, como somatório das percepções, apareceria no ver e nas demais imagens perceptivas que o analista tiver de seu paciente, por exemplo, quando o analista recebe seu paciente na sala de espera e quando se despede dele. O olhar inconsciente, ao passo que se mantém, em parte, dependente da percepção, surgiria nas manifestações do inconsciente, quando a visão, a concretude perceptiva sair de cena dando espaço para as representações; na cegueira provocada pelo divã; para o analista, quando surge em sua mente uma figura, visual ou não, que represente de maneira compacta a significação inconsciente do que é ouvido, pela escuta figural; na fantasia, na lembrança encobridora, no já visto (déjà vu), na cegueira histérica, nos atos perversos e na alucinação visual. E, a essa lista, acrescentaríamos: nos sonhos, nas ilusões e nas manifestações da pulsão escópica.
1 Teríamos, aqui, a oportunidade para discutirmos sobre como se daria a escuta e todos os temas que
abordamos neste trabalho para o caso de um surdo-mudo. Porém, tal empreendimento significaria um desvio inadequado para esse trabalho.