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Nos dias atuais o computador tornou-se peça indispensável à sobrevivência da humanidade. Em qualquer situação o computador tem seu papel de imprescindibilidade desde a segurança de um usuário à própria segurança de uma Nação.

Os crimes informáticos ameaçam esta relação existente entre o homem e o computador, surgida a partir da revolução informática do século XX.

Nos crimes informáticos próprios a informática serve como meio e fim almejado pelo agente. Neste prisma, se não criarmos legislação específica, pelo princípio da anterioridade da lei penal, não haverá como punir o responsável pelas condutas ilícitas praticadas pelo computador.

A respeito, Rita de Cassia Lopes140 alerta que nos dias atuais várias ações são praticadas com o uso do computador e a dúvida surge no instante de se saber se essas ações estão ou não tipificadas na legislação penal, quando prejudiciais ao convívio social.

139SILVA, Rita de Cássia Lopes da. op. cit., p. 95. 140Id. Ibid., p. 49-50.

Aduz ainda a autora que, em respeito ao princípio constitucional da legalidade, ações mesmo que prejudiciais não poderão ser punidas se não previstas previamente em lei.

Assim, para enfrentar a questão da tipicidade ou atipicidade das condutas praticadas na informática é necessário definir se determinados bens informáticos se encontram na categoria dos bens já tutelados pela norma penal para, posteriormente, verificar se podem ser tutelados por normas já existentes ou se necessitam de novas normas.

Dos crimes informáticos próprios, ofensivos contra o computador ou dados nele contidos ou por ele fabricado, podem-se destacar aqueles que atentam contra a inviolabilidade dos dados, das telecomunicações, do hardware, do software, das correspondências eletrônicas conhecidas como e-mail, do bom funcionamento dos sistemas operados por computador, da segurança nacional, dentre tantos outros.

A proliferação de vírus na internet é, cada dia, mais comum. No instante em que se cria um anti-vírus, os hackers, pessoas com expertise em computação, já criaram novos vírus acarretando novos ilícitos, que muitas vezes geram prejuízos irreparáveis e incalculáveis. Aqui não se trata de um crime comum de dano, mas muitas vezes traz ainda risco à segurança nacional, à atividade de uma empresa, ao transporte aéreo, dentre outros.

Não comungamos em parte com posicionamento pela atipicidade; há situações em que mesmo se tratando de crimes informáticos próprios o direito penal já tipifica aquela conduta.

O ponto que merece reflexão está ligado à correta adequação da figura típica existente com o mundo informático. Se um agente envia um vírus em um computador destruindo os sistemas, os dados e as informações podemos estar diante de um crime de dano, de concorrência desleal etc.

Temos com a era digital um novo meio utilizado para se alcançar o resultado, um aparelho ligado em rede, não sendo este o ponto da discórdia, mas a lesão aqui verificada não está exclusivamente ligada ao patrimônio computador, mas a todo o conteúdo nele existente com dados, informações, software e os dados dos recursos disponíveis, bens muitas vezes imateriais e intangíveis.

A informação141 no mundo globalizado passou a ser um dos bens mais valiosos da humanidade, quer pelo valor patrimonial, quer pelo valor intelectual. Quando de um banco de dados ela é subtraída, copiada, divulgada ou destruída, temos possíveis bens lesados tais como patrimônio, intimidade, honra, imagem, propriedade imaterial, segurança nacional. Estariam eles adequados à figura da informação? A princípio pensamos que não.

Este é um dos casos em que se sustenta pela necessidade de o direito penal se adequar à nova realidade.142

Alguns vírus ganharam notoriedade pela sua alta proliferação, como o vírus Madonna, que ao final de um strip-tease da cantora avisava que o disco rígido do computador estava sendo apagado.

O vírus Melissa143 foi o primeiro capaz de se multiplicar na internet, em grande escala, causando prejuízo estimado de oitenta milhões de dólares americanos, só no ano de 1999144. Este vírus infectava os computadores fazendo-os disparar grande quantidade de e- mails, causando congestionamento na rede.

Temos a data diddling, consubstanciada na alteração dos comandos existentes por outros com o fim de permitir o acesso ao banco de dados, registros e codificação.

Superzapping, que paralisa a memória do processador central, vetando a utilização das atividades com o acesso ao banco de dados e memória.

O trojan horse inclui, em programa existente, outras instruções que passam a coexistir com o programa já existente.145.

É certo que não é só a ausência de legislação adequada a única causadora do aumento da criminalidade informática; temos ainda a falta de investimentos na segurança digital e o número reduzido de pessoas que utilizam o computador e a internet

141O Código de Defesa do Consumidor, Lei 8.078 de 1990, em seus artigos 72 e 73, respectivamente,

criminaliza a ação de impedir ou dificultar o acesso do consumidor às informações em cadastros, bancos de dados, fichas e registros de pessoas e da conduta omissiva de não corrigir imediatamente informação sobre consumidor constante de cadastro, banco de dados, fichas ou registros que sabe ou deveria saber ser incorreta. BRASIL. Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 set. 1990.

142SILVA, Rita de Cássia Lopes da. op. cit., p. 65.

143DE LUCCA, Newton; SIMÃO FILHO, Adalberto (Coords.). op. cit., v. 2, p. 218.

144INELLAS, Gabriel Cesar Zaccaria de. Crimes na internet. 2. ed. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2009. p. 16. 145SZNICK, Valdir. Novos Crimes e novas penas no direito penal. São Paulo: Livr. e Ed. Universitária de

corretamente. Todavia, uma legislação inadequada e inaplicável certamente estão entre os principais motivos que justificam este exacerbado aumento da criminalidade informática.

A sociedade tenta se defender. São inúmeros os alertas, normalmente enviados por e-mails, de vírus ou golpes de crimes cibernéticos. Em atenção às diretrizes da Convenção de Budapeste, falta legislação a respeito, muitas vezes limitada ainda pela pouca atenção que se dá ao tema.

Neste diapasão, há quem sustente que qualquer lesão a estes bens informáticos como pichação de uma homepage é ainda atípica; trata-se de crime informático próprio ou puro, que necessita de legislação específica. Neste sentido, sustenta-se ainda pela atipicidade das condutas de vandalismo na rede, dano em arquivos provocado por vírus, pirataria de software, violação de e-mail.146

Outro ponto que merece reflexão está ligado ao conteúdo deste bem e a finalidade delitiva. A destruição de informações contidas em um banco de dados, visando prejudicar um concorrente, deixa de ser crime de dano para crime contra propriedade industrial.

Benzer Belgeler