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O artigo de opinião “Ensino e educação na escola” foi publicado na página seis do Folha 3,

tendo sido produzido por duas alunas da turma D, do segundo ano do ensino médio: Marielle Fernandes Rodrigues e Kênia da Silva Ramos. O texto fundamenta-se em dados colhidos pelas redatoras junto a 200 alunos do ensino médio. As autoras conseguem apresentar a controvérsia em torno do tema e traduzirem sua opinião. Para isso, comentam, interpretam, refutam teses opostas à sua, garantindo a tensão. O texto combina o tipo de discurso expositivo com o tipo predominante argumentativo, em que as ações para convencer são em maior número que as ações persuasivas, embora estas ocupem espaços bastante importantes. Ambos os recursos utilizados orientam uma linguagem que visa a provocar efeitos de sentido, reações para a transformação do mundo social, de seus valores, sobretudo.

FIGURA 5 – Texto Ensino e educação na escola

Fonte: Recorte do Folha 3.

As marcas de coesão nominal remetem a um leitor que já sabe sobre o assunto de que as redatoras vão tratar. Isso fica evidente em várias situações: pelo uso de artigos definidos

“Segundo 35% dos 200 alunos do ensino médio, isso acontece porque há falta de autoconsciência dos educandos que veem a escola como obrigação”, por exemplo, pela

ausência de especificações de aspectos fundamentais para se estabelecer o significado, caso o leitor não conheça o contexto de produção do texto.

A coesão verbal é garantida pelo uso do presente do indicativo e o uso discreto do pretérito perfeito. Mas a coesão nominal é perturbada pelo uso equivocado do pronome anafórico

afirmam que, após terminarem o ensino médio, não pretendem continuar os estudos em um curso superior, pois a conclusão deste grau é suficiente para ingressarem no mercado de trabalho, essa é para eles, a serventia mais imediata oferecida pela educação.”. Verifique-se

que o pronome “desse” remeteria o leitor ao referente anteposto mais próximo (“curso superior” que equivaleria ao terceiro grau) ao pronome e “aquele” ao referente anteposto mais distante (“ensino médio” que equivaleria ao segundo grau).

O título do artigo assim, sem subtítulo, sem olho ou lupa, “Ensino e educação na escola” é rígido demais, pouco criativo, delimita pouco o assunto, ou seja, é amplo demais visto que muitas informações poderem ser dadas dentro dele. Poderia ser inclusive título de seção, mas não de artigo.

O artigo de opinião inicia-se apresentando a metodologia empregada no processo de coleta de dados, mas sem dizer que processo, que coleta e em que situação.

O ponto de vista assumido pelas autoras é defendido com crítica aos comportamentos, o que se revela, na apresentação da tese, “alguns alunos não atingem o nível de aprendizagem

necessário, mesmo sendo oferecido bom ensino”, já nas primeiras linhas do parágrafo,pela conjunção concessiva “mesmo”: “Depois de entrevistas, pesquisas e enquetes sobre o ensino desenvolvido na Escola, constatou-se que alguns alunos não atingem o nível de aprendizagem

necessário, mesmo sendo oferecido bom ensino”. Portanto, a introdução é, neste artigo, o

momento da apresentação da problemática e da visão das redatoras a respeito do tema em questão.

A fase da argumentação inicia-se com a apresentação de argumentos racionais e críticas provindas da avaliação dos itens dos questionários semiestruturados, produzidos pelas alunas, na fase de coleta de dados. Para cada item e respectivo dado, Rodrigues e Ramos apresentam uma pequena crítica e novos dados de sustentação. Assim a tese vai-se sustentando com os argumentos: (i) de que há alunos que não conseguem se desenvolver sozinhos e culpam os professores; (ii) de que alunos acreditam que o seu desempenho não é necessário para o seu desenvolvimento e que esse é um papel somente do professor. Somam-se 33,5% os alunos que afirmam tais teses, e que, provavelmente, são os interactantes com quem as redatoras gostariam de dialogar.

Segundo 35% dos 200 alunos do ensino médio, isso acontece porque há falta de autoconsciência dos educandos que veem a escola como obrigação, não como uma

forma de capacitação. 20% deles acreditam que não são capazes de se desenvolverem sozinhos e, quando esse desenvolvimento não acontece, culpam o educador. Essa informação fica evidente quando 11,5% dos alunos entrevistados dizem acreditar que o seu desempenho não é necessário para o desenvolvimento da escola, e que esse é um papel somente do professor.

As teses defendidas por esses 33,5% representam a contraposição ou antítese que garante um momento de tensão no texto. Tensão essa reforçada por outra informação dada no segundo

parágrafo: “Apesar de 53,5% dos alunos entrevistados afirmarem que o ensino da Waldemar é

de qualidade, 23% declaram que, às vezes, alguns professores não exercem realmente o papel

de educadores”.

Rodrigues e Ramos preferem não confrontar diretamente esses 23%. Isso pode ocorrer porque concordam parcialmente com eles, mas não conviria frisar tal dado ou comentá-lo, pois isso poderia fragilizar a tese defendida.

No terceiro parágrafo, as autoras iniciam novo movimento de persuasão cuja estratégia é o ataque, visto que caracterizam os alunos, prováveis opositores de sua tese como

“expectadores” e, sublinearmente, classificarem-nos como aqueles que não são capazes de

pensar, analisar, criticar, interagir e refletir sobre o que é falado em sala de aula e que por isso são também aqueles que não aprendem o que é ensinado.

Os interactantes que conseguissem ler a mensagem sublinear, certamente, não gostariam de ver suas faces refletidas dessa forma e poderiam tentar provar que são capazes de fazer os movimentos que foram acusados de não saberem realizar. Nesse sentido, a estratégia de ataque pode ser considerada interessante para fazer o opositor reagir em conformidade com o que é proposto a ele.

Para que melhore o ensino, é preciso que os educandos não sejam apenas expectadores, mas pessoas capazes de pensar, analisar, criticar, interagir e refletir sobre o que é falado em sala de aula, pois, na maioria das vezes, os alunos escutam o professor, mas não aprendem o que é ensinado.

Para reafirmarem a tese de que há um bom ensino na escola e de que os alunos têm grande responsabilidade sobre o nível que atingem, Rodrigues e Ramos trazem um argumento de autoridade, no quarto parágrafo. Talvez seja importante destacar que a autoridade referida, Jacqueline Guimarães, a vice-diretora a quem fazem referência, é reconhecida, como uma pessoa de caráter ilibado e uma profissional competente, não só pelo corpo docente, pelo corpo discente, pelas comunidades que conformam a Escola, mas por grande parte da

população da cidade. É assim conhecida, devido à atuação em escolas públicas e particulares, além de ser membro atuante na igreja do bairro em que fica localizada a Escola.

Exercendo sua profissão de educadora, Jacqueline Guimarães, vice-diretora do turno vespertino, disse que o seu objetivo é poder contribuir de alguma forma para que crianças, jovens e adultos possam compreender melhor o mundo em que vivem, através do conhecimento dos conteúdos socialmente relevantes.

Nesse caso, Guimarães representaria o modelo de professor e de filosofia de ensino os quais as alunas querem sugerir que há na Escola. Além disso, querem reforçar o posicionamento que defendem sobre a educação para assim combaterem novamente a postura que 15% dos alunos que elas dizem acreditarem exclusivamente que a escola seja um trampolim para o

mundo do trabalho e não acreditarem no quanto a escola é um processo “importante para a evolução do ser humano e para o conhecimento da sociedade em que vivemos”. Nesse ponto

Rodrigues e Ramos equivocam-se. Vejamos o excerto:

O que ela disse é exatamente o item em que consiste a educação. A educação é o processo mais importante para a evolução do ser humano e para o conhecimento da sociedade em que vivemos. Mas não é o que pensam alguns alunos, pois segundo a pesquisa, 15% deles afirmam que, após a conclusão do ensino médio, não pretendem continuar os estudos em um curso superior, pois a conclusão deste grau é suficiente para ingressarem no mercado de trabalho, essa é, para eles, a serventia mais imediata oferecida pela educação.

Essa afirmação torna-se incoerente a partir do momento em que se lê a justificativa apresentada, ou seja, a explicação que elas apresentam para defenderem o seu ponto de “pois, segundo os dados da pesquisa, 15% deles afirmam que, após terminarem o ensino médio, não pretendem continuar os estudos em um curso superior, pois a conclusão deste grau é suficiente para ingressarem no mercado de trabalho, essa é para eles, a serventia mais

imediata oferecida pela educação.”. Verifique-se que essa justificativa não é suficiente para

que se afirme que os alunos não acreditam que a educação seja o processo mais importante para a evolução da humanidade e para o conhecimento da sociedade. A resposta dos 15% dos alunos garante apenas dizer que querem concluir o ensino médio para ingressar no mercado de trabalho. Assim sendo, a conclusão do parágrafo é precipitada e pode ser considerada incoerente.

O artigo encerra-se abruptamente, sem conclusão que apresente síntese, avaliação ou soluções para o problema que a tese traduz. Esse é um equívoco que consideramos muito marcado deste artigo de opinião.

Benzer Belgeler