Conheço pessoas respeitaveis e catholicas que acompanham os vestuários da moda actual. Ai! Quantas Filhas de Maria tenho topado de pernas á mostra, por essas avenidas...
Jornal O Nordeste
Michelle Perrot afirma que “a memória feminina é vestida. A roupa é a sua segunda pele, a única de que se ousa falar ou ao menos sonhar”54. A vestimenta bem comportada, de acordo com as orientações da igreja, era o primeiro compromisso público assumido pelas Filhas de Maria. A indumentária era o primeiro fator a ser atentamente vigiado, principalmente por ser a roupa uma espécie de casca entre o corpo e o mundo. Na memória das Filhas de
54 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Trad.: Viviane Ribeiro. Bauru:
Maria, as normas da indumentária são as primeiras reminiscências que afloram.
Tudo de branco, nesse tempo se usava véu, mantilha, a fita azul [...] todo mundo ia de branco, Filhas de Maria era de branco, fita azul e seu véu branco, depois deixaram de usar, né, véu, mantilha. Tinha que andar de meia [...] por que era o regime daqui, tudo de meia. 55
Era também a roupa bem comportada e os adereços de uma filha de Maria que deviam comunicar sua identidade, o seu grau de respeitabilidade e pureza. O corpo, veículo de pecado, portador de sentidos e instintos, deveria ser zelosamente coberto. A exposição do corpo, de partes dele, era uma abertura à tentação e ao pecado. O corpo bem vestido era o símbolo do recato e da pureza de uma jovem donzela zelosa da moral e dos bons costumes, seguindo os preceitos católicos.
Tinha que renunciar a muita coisa... não podia andar de vestido de alça, né? De roupas assim como hoje, semi-nua [...] Não podia calça comprida! Ave Maria! Nessa época nem existia mulher andar de calça comprida, né? [Risos]56
A vestimenta tem um caráter ostensivo, por isso era difícil disfarçar, diante da sociedade limoeirense, quando o padrão recatado de vestimenta de uma Filha de Maria era desrespeitado. No entanto, o medo de serem apanhadas usando roupas mais ousadas, decotadas ou transparentes não impedia algumas associadas da Pia União de desrespeitar o regulamento.
[O Revmo. Diretor] Chamou-nos ainda atenção sobre a modéstia no trajar, pelo fato de ter notado algumas infracções neste ponto, às regras dos Estatutos.57
Essas infrações podem ser vistas como tentativas, por parte dessas mulheres, de adotar lentamente novos hábitos no trajar. Entretanto, essas tentativas eram combatidas pelos sacerdotes, que temiam o afrouxamento das regras e a conseqüente “desmoralização” da Congregação criada para ser modelo de moral e bons costumes.
55 Nôzinha Conrado de Souza. 82 anos. Entrevista gravada em 16/06/2005, em Limoeiro do
Norte-Ce. A fita azul era o indicativo da Filha de Maria. A aspirante usava uma fita verde. Estas fitas, com medalhas presas à elas, eram usadas de forma ostensiva em todos os rituais da Igreja.
56 Maria Menas da Silva, 70 anos. Entrevista realizada em 08/01/2004.
O vestido branco com mangas longas, acompanhado de meias grossas e a cabeça coberta pela mantilha apontam para o quão pecaminoso, na visão da Igreja, era a simples visão da pele. Por isso, não só os padres em suas paróquias, mas os órgãos da imprensa católica debatiam, constantemente, a indumentária feminina. No Ceará, a discussão prescritiva do traje feminino ficou principalmente a cargo do Jornal O Nordeste.
As modas, cada vez mais ousadas, e indecentes na visão dos conservadores, eram alvos de constantes debates no jornal católico, bem como em outros jornais da capital cearense, onde apareciam como responsáveis por uma projeção negativa de memória, para o historiador do futuro.
Que dirá, por exemplo, o historiador futuro, das mulheres deste século XX, possuídas da estranha mania de exhibir publicamente toda sua plastica, das pernas até os hombros, do seio aos braços, como nunca se viu em outras eras menos civilizadas? A crise se tornou de tal forma aguda que os príncipes e outros maiores da Egreja se empenharam em por um paradeiro a falta de pudor de certas elegantes.58
Assim, o comprimento das saias, os decotes dos vestidos, as calças compridas femininas, ocupam constantemente as páginas dos jornais, figurando nos artigos, nas cartas de leitores e nos editoriais dos matutinos da capital cearense. Com veiculação também nas cidades interioranas, esses jornais tinham um discurso conservador e austero acerca dos novos hábitos de vestimenta feminina. Atacando as conquistas das “Filhas de Eva” no campo profissional, acusavam-nas de tentarem igualar-se aos homens na vestimenta.
[...] No Brasil, tambem, as mulheres já estão querendo igualar-se, na indumentaria, aos homens. Já são eleitoras, medicas, advogadas, “chauffeurs”, empregadas públicas, guarda-livros, fumantes. Agora desejam mais: querem andar, tambem, de calças de casemira e paletot, á la homme. Os representantes do sexo forte se tomam de alarme. É o cumulo! Dizem. Mas as Filhas de Eva não recuam. [...].59
Tida como símbolo da degradação social, e como elemento corruptor da moral, dos bons costumes e da família, a moda era apontada como sinal de degradação da sociedade. Era a roupa que diferenciava as “mulheres respeitáveis” das “audaciosas mulheres perdidas”.
58 Jornal O Ceará, Fortaleza, 29 out. 1926. p. 05. Em todas as citações do Jornal O Ceará,
manteve-se a grafia do documento original.
A moda tem dessas perversidades nas suas seducções. Obrigada a gente do tom a portar-se, em seus gestos e vestidos, de tal maneira que, quando a policia quer defender a honestidade das familias, prendendo as mulheres que se portam inconvenientemente, ou por actos ou por trajos, vem a offender a dignidade das mesmas familias, por recair em elementos femininos do seu gremio a punição que se desejava impor a audaciosas mulheres perdidas... Que triste philosophia impõe as nossas reflexões [...] Pois então o desbragamento de costumes chegou a tal ponto que não se distinguem as senhoras das que profissionalmente o não são? [...].60
Diante de tantos impasses em torno da forma de trajar feminina, os anúncios dos jornais, jogavam com as inovações da moda, ora exaltando as novidades da moda, ora criticando-as. Estando suscetíveis tanto aos ensinamentos católicos quanto às estratégias de propaganda das novas modas, as Filhas de Maria se viam em meio a um campo de tensão, onde o desejo de seguir a moda e a proibição imposta pela Igreja mediam forças.
Esse conflito de valores e costumes estava presente nos anúncios veiculados pelos jornais. Os anúncios colocavam, por vezes, o jornal católico, que também dependia de anunciantes, em uma situação paradoxal. Nos anúncios, era comum a veiculação de textos e imagens contrários ao discurso editorial.
Figura 01 – Anúncios publicitários veiculados no Jornal O Nordeste.
Por isso, é contraditório que, embora combatesse ferrenhamente as “modas indecentes”, O Nordeste trouxesse em suas páginas anúncios de vestidos e roupas da moda, bem como de outros artigos que povoavam o universo da vaidade feminina, sempre tão condenada pela Igreja e por esse jornal.
Os anúncios, não ficavam restritos à textos escritos, e constantemente se apresentavam em versões ilustradas, onde apareciam imagens de mulheres modernas, trajes decotados, rostos maquiados e cabelos à la garçone, outro modismo combatido com veemência pelos meios de comunicação católicos.
Mulheres sensuais, em decotes arrojados e vestidos sem mangas podiam ser vistas figurando nos anúncios veiculados pelo periódico católico. Mas essa imagem de mulher e essas modas não eram admitidas às Filhas de Maria. Os decotes, os vestidos sem mangas, as poses sensuais, a maquiagem e a vaidade, eram veementemente combatidos pela Igreja.
Objetos do desejo feminino, os artigos da moda não condiziam com os valores morais exigidos das Filhas de Maria. O fato de serem proibidas de adotarem os modismos da suposta vaidade feminina influenciava na forma como essas jovens eram vistas; colaborando para o estereótipo de “vitalinas” feias e fora de moda, que os opositores da Igreja atribuíam à elas.
Sabbado passado, em certo estabelecimento de modas [...] defrontei- me com um bando de vitalinas que se inculcavam de “Filhas de Maria”. [...] O grupo de vitalinas entrou no estabelecimento referido, e a mais velha falou para o chefe da casa nestes termos: “Vimos, aqui, para o sr. Não publicar annuncios no “O Ceará”.
- Porque, minha senhora?
- Porque é um jornal ex-commungado. - E se eu continuar a publicar?
- Neste caso, nós, em número de mais de 50 trincas, fazemos boycottage. Não compraremos mais, aqui.
- Muito obrigado, respondeu gravemente o commerciante. Não perco nada com isto. A minha Loja é de modas, as senhorinhas são prohibidas de comprar, de usar modas. Temos conversado.
Logo, depois, as vitalinas sahiam puxadas pela vitalina-mór que tinha o corpo do Mainha e a cara do Agostinho. Era um caso teratológico.61
Rotuladas de “beatas” e “vitalinas”, associadas à feiúra, a imagem das Filhas de Maria começava a ser negativada, especialmente pelo sexo oposto.
Na década de 1930, iniciam, com estardalhaço, os concursos de “misses”. Esses concursos, combatidos com veemência pela Igreja, contrapunham as orientações católicas no que se refere ao pudor e recato femininos.
Vem despertando vivo interesse, nas rodas mundanas, o concurso de belleza que se promove na cidade americana de Galveston. É lamentável que se dê tanta attenção a um acontecimento sem importancia e, infelizmente, tão explorado já. Para chegar á meta desejada, os promotores do concurso, [...] incitam a vaidade da mulher, procurando faze-la entender que a verdadeira belleza reside, não na pureza se sentimentos, no recato inherente aa sua condição, mas na ostentação despudorada dos seus ephemeros attractivos. [...]62
Desfilando com vestidos justos, decotados e por vezes até de maiôs, as misses, passavam a povoar o imaginário masculino, que se deslumbrava com o novo modelo de mulher representado pela figura da Miss. Esse novo ideal de beleza que se estabelecia, representava o contra-ideal das Filhas de Maria.
A Igreja, vendo seu modelo ameaçado pelos ideais de beleza dos concursos de Miss, empreendeu uma campanha de valorização da imagem da Filha de Maria como o tipo de mulher ideal, não só do ponto de vista religioso, mas também social. Vários são os artigos veiculados n’O Nordeste, atribuindo às Filhas de Maria mais do que “pureza espiritual”, conferindo-lhes também valores como beleza, juventude e bons modos. É neste sentido, e comparando- a com um concurso de Miss, que o jornal relata uma solenidade de entrega de fitas às Filhas de Maria, usando do artifício da escrita para descrever as moças lindas e o “excelso” espetáculo da entrega do diploma de “miss Filha de Maria”.
Dahi a pouco entravamos no grande templo catholico, que estava literalmente cheio. Não havia em todo elle logar para uma cabeça. O calor era insupportavel. Mas ninguem arredava pé. Ninguém se queixava. Todos, attentos, contemplavam o bello, o estranho, o excelso espectaculo de centenas de moças lindas, jovens, umas com velas accesas nas mãos, outras com fitas azues no pescoço [...] Uma a uma, aos pares, as moças se approximavam do arcebispo, todo paramentado e recebiam a fita verde ou azul, um manual e um diploma – o diploma de miss Filha de Maria. [...] Miss Filha de Maria é um título que pode ser alcançado por todas as moças cearenses. Não dá renome nem faz reclamo [como nos concursos mundanos]. Mas
demonstra pureza, virtude, modéstia, sem que deixe de haver graça, encantos e belleza.63
A “miss Filha de Maria” era, na realidade, a mulher com quem se devia casar. Longe de representar a feiúra, elas representavam a segurança de um lar ajustado, com valores cristãos sólidos. Contrastando a frivolidade das “melindrosas” (para o flirt) e a seriedade das Filhas de Maria, bem compostas em seu papel de guardiãs do lar, o jornal comparava estereótipos de mulher, reforçando o imaginário da mulher para casar e da mulher para “passatempo”.
[...] E agora dize com franqueza. Entre a melindrosa que veste maillot para todo um populacho contemplar e uma donzella que põe o véo de Filha de Maria e usa mangas compridas, vestidos sérios, tem modos comedidos, qual dellas merecia a tua escolha para companheira, ao lar que sonhas constituir?
-Ah! Nem se discute. Digam o que disser, façam o que fizer, ninguém pode tirar da cabeça do homem que a verdadeira, a boa a digna esposa não pode sair desse meio de frivolidades em que desejam sacudir a mulher. Não, meu amigo, as melindrosas são muito boas para o flirt, para o passatempo. Mas quando se trata de dar o nó serio do casamento ah! Tem paciência, eu prefiro uma miss Filha de Maria. Pelo menos há mais probabilidades de acertar.64
O Jornal o Nordeste, diante as mudanças do trajar feminino, trata de empreender também uma campanha acerca do uso do véu, símbolo de recato feminino nos templos católicos. O véu era um adereço simbólico, não um simples enfeite. Seu simbolismo era representado pela cor branca (evocativa da pureza), pelo seu tecido leve e pelo uso exclusivo nos ritos religiosos, o que lhe conferia uma mística própria. Em contraposição ao véu estava o lenço, trazido pela moda, colorido e prático, podia ser usado tanto na Igreja como na praia. A alegria colorida dos lenços, associada aos outros usos que deles se fazia, tornava-os símbolos do mundano e do pagão.
É costume atualmente, entre nós, vindo do sul o uso, pelo elemento feminino, de um grande lenço tricolor, na recepção dos sacramentos. Ou por ser novidade, ou por ser cômodo, a nova moda tomou raízes e é o que vemos agora: meninas, mocinhas, senhoras, modernamente, a carioca, aproximarem-se de Nosso Senhor Jesus Cristo, de lenço à cabeça...
[...]
O véu é caro, só serve a Igreja. O lencinho bonito, e bizarro, é barato.
63 Jornal O Nordeste, Fortaleza, 25 abr. 1929. p. 04 64 Idem. Ibdem.
Tanto se presta para o uso a mesa da comunhão, como ao sol vivo das praias de banho...
Nas praias, cobre-se a cabeça por causa do sol da natureza, na comunhão, por causa do sol da justiça.
Acolá, é o mundano, aqui o místico. Lá é o profano, aqui a sacralidade.
Confundir esses dois pólos é confundir-se a si mesmo.
Não! Minhas prezadas irmãs cearenses! Não tragam para a Igreja o perfume das praias mas o perfume da prece e do reconhecimento. [...]
O Véu branco: é a pureza. O véu é diáfano é a graça. O véu é leve: é a mística. O lenço é policrônico: é a leviandade. O lenço é moderno: é a dissipação. O lenço é prático: é o paganismo.
...Abençoado seja o véu! O véu branco da primeira comunhão! O véu branco da noiva!
O véu branco da donzela–flor perfumosa dos jardins da Igreja! Minhas senhoras! Usem o véu!”65
O abandono do véu, durante as celebrações religiosas em Limoeiro, também começava a ser verificado pelos sacerdotes. Por isso, na Pia União das Filhas de Maria de Limoeiro, antes mesmo da campanha empreendida pel’O Nordeste em prol do uso do véu, as associadas já eram orientadas a continuar usando esta peça da indumentária feminina, que dava ares de pureza às jovens católicas,
À seguir, [o diretor] fêz-nos um apelo, a que conservássemos na Igreja, as cabeças cobertas, pelo menos emquanto (sic!) estivesse o Ssmo. Sacramento exposto.66
O véu é uma peça emblemática do ocultamento das mulheres. Símbolo do pudor, da pureza e da submissão, seu uso assumiu significações múltiplas. Sob ele escondia-se a sensualidade e seus símbolos de sedução, como os cabelos, que atribuem à mulher uma sensualidade particular. Para Michelle Perrot, os cabelos das mulheres “são o símbolo da feminilidade, condensando sensualidade e sedução e atiçando desejo”67
Com a cabeça coberta por seus brancos e diáfanos véus, as Filhas de Maria tomavam feições angelicais. Sob o véu, a imagem da obediência e da conformação da condição submissa da mulher religiosa. Entretanto, essa
65 Jornal O Nordeste, Fortaleza, 21 out. 1943. p. 03.
66 Ata de Reunião mensal da Pia União das Filhas de Maria de Limoeiro. 04 de dezembro de
1932.
submissão mostrava-se, por vezes, tão frágil quanto o finíssimo filó de seus véus.
Mas o controle que a Igreja buscava manter em torno das mulheres, especialmente das Filhas de Maria, seu modelo mais caro, numa sociedade em mudança, não se restringia às roupas. A rigidez das normas da Pia União espalhava-se pelas múltiplas práticas sociais do seu cotidiano, por isso era importante cuidar de suas formas de diversão. Os bailes e as danças “modernas” estavam em evidência neste período, e por isso tornaram-se alvo das críticas da Igreja, que via neles uma ameaça à pureza, principalmente pelo contato dos corpos.