A contradição do tempo foi, na mesma medida, a contradição do corpo, cabendo pensarmos também que, foi porque a Ciência e seus procedimentos instrumentais tornaram-se o referencial de validade de um fenômeno – ao mesmo tempo que o conhecimento metódico
deste lhe confere caráter menos abstrato –, que as realidades material e espiritual e a interação entre elas puderam ser compreendidas, desmistificando este evento que sempre foi envolto em mistérios e tabus.
Graças ao olhar científico, precipitado pela formação intelectual, Hipollyte Léon Denizard Rivail pôde conferir validade à uma complexa dinâmica das relações corpórea e extracorpórea, entre os chamados encarnados e os desencarnados, desenvolvendo, assim, uma doutrina que cumpre um tríplice aspecto, de ordem científica, filosófica e, no trato extensivo à religião, de consequência moral.
Dessa forma, dotando a Doutrina Espírita das características acima mencionadas,
fica patente que “[...] o professor Rivail colaborou para a estruturação de uma visão científica
do mundo espiritual, atenuando as divisas tradicionalmente estabelecidas entre Filosofia,
Ciência e Religião” (VIANA; RODRIGUES, 2015, p. 95).
É um período de paradoxos em que homens de formação científica começam a especular a realidade fora do corpo com os instrumentais que, anteriormente, só lhes autorizavam a investida em fenômenos de ordem eminentemente concreta, desconsiderando que pudesse existir alguma realidade que não a puramente controlada nos laboratórios, ou que a explicação para tais estaria no psiquismo daqueles que as produziam.
Vemos exemplos de mudança de opinião – que notadamente podemos inferir, caso nos seja permitido –, talvez um amadurecimento científico, em certas personalidades expressivas da época, tal como o italiano Cesare Lombroso (1835-1909), chegando este mesmo a afirmar:
Se existiu no mundo um homem, por educação científica e quase por instinto, contrário ao Espiritismo, esse fui eu, que, da tese: Ser toda força uma propriedade da Matéria e a Alma emanação do cérebro –, havia feito a preocupação mais tenaz da vida, eu, que havia zombado por muito tempos dos Espíritos das mesinhas... e das cadeiras! Mas se sempre nutri grande paixão pelo meu lábaro científico, tive outra ainda mais fervorosa: a adoração da verdade, a constatação do fato. Ora, eu que era assim hostil ao Espiritismo, a ponto de não aquiescer por largo tempo em ao menos assistir a uma experiência, deveria, em 1882, presenciar, na qualidade de neuropatólogo, fenômenos psíquicos singulares, que não encontravam nenhuma explicação na Ciência, salvo a de ocorrerem em indivíduos histéricos ou hipnotizados. (LOMBROSO, 1990, p. 59).
Só para que conheçamos um pouco do homem questão, sua tese sobre a relação entre estruturação biológica e os caracteres de delinquência e formação de personalidade, ou a chamada teoria do delinquente nato (1856) influenciou gerações de juristas, criminólogos e/ou criminologistas e profissionais de áreas afins à Criminologia.
Representante e fundador da etapa científica da Criminologia, com a Escola (Scuola)
Positiva, a contribuição de Lombroso é assim exposta por Molina e Gomes (2002, p. 191):
Sua obra Tratado Antropológico Experimental do Homem Delinquente, publicada em 1876, marca as origens da Criminologia científica, e ele é considerado o seu fundador. Médico, psiquiatra, antropólogo, político, foi um homem polifacético e genial, como demonstra sua extensa obra que marca temas médicos (v.g., Medicina legal), psiquiátricos (Os avanços da Psiquiatria), psicológicos (O gênio e a loucura), demográficos (Geografia médica), criminológicos (L’uomo delincuente), políticos (os dois volumes aparecidos em Avanti, órgão de divulgação do Partido Socialista italiano dos trabalhadores, ao qual pertenceu), assim como outros históricos, astrológicos e espíritas. No total, mais de seiscentas publicações. A contribuição principal de Lombroso para a Criminologia não reside tanto em sua famosa tipologia (onde destaca a categoria do ‘delinquente nato’) ou em sua teoria criminológica, senão no método que utilizou em suas investigações: o método empírico.
Assim, a mesma inclinação para a observação e delimitação científica dos fenômenos foi transposta para a defesa dos fenômenos de natureza espiritual, mas, não sem antes a resistência peculiar à necessária prudência, pois, este foi um momento da história que, apesar de fértil do ponto de vista da amplitude de pensamento por parte dos homens, ensejou, na mesma medida, a proliferação de práticas repletas dos sempre recorrentes misticismos e mistificações, bem como de charlatanismos e leviandades33.
Vemos, também, aqueles que, dedicados a estudar verdadeiramente os fenômenos
em voga, rebatiam acusações aparentemente infundadas fruto de “achismos” e opiniões, com
comprovações seguindo um método e uma abordagem, mas, que sabiam ainda não bastar aos que se regozijavam e intencionavam tão somente criticar.
Alexandre Aksakof, filósofo russo, autor da obra Animismo e Espiritismo, publicada originalmente em 1890, foi uma dessas personalidades interessada em compreender os mecanismos envolvidos nas comunicações dos espíritos com os homens, mas, do ponto de vista da Ciência.
Conhecedor que era dos preconceitos que suscitavam o Espiritismo, alvo de crítica exatamente pela imperícia dos praticantes, ou pela leviandade dos aproveitadores, este
33 Quando já amadurecido no processo e firme no propósito de codificar os pressupostos doutrinários que serviriam de baliza aos circunstantes e interessados pela Doutrina narrada pelos Espíritos, Allan Kardec utilizou-se da Revista Espírita para veicular suas respostas aos ataques fundados e infundados dos que, sem o saberem, através de periódicos, oportunizavam a que o codificar esclarecesse publicamente conceitos importantes. Sugerimos consulta, por exemplo, ao último volume sob responsabilidade direta de Kardec, da referida revista, no ano de 1869 (KARDEC, 2009), quando este inicia o artigo “Ligeira Resposta aos Detratores do Espiritismo” afirmando que, se a doutrina em voga não almejava atender a todas as pessoas, nem tampouco furtar-se às críticas, mas, também não poderia prescindir do direito de responder e esclarecer através dos ataques que recebia. Como ele mesmo asseverou: “O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito natural; reclama-a para os seus adeptos, do mesmo modo que para toda a gente. Respeita todas as convicções sinceras e faz questão da reciprocidade” (KARDEC, 2009, p. 360). Sobre misticismos, mistificações, sátiras e charlatanices no campo da Ciência e da Religião e no Espiritismo à brasileira, encontramos vasta e interessante gama de exemplos em Machado (1996).
propôs-se a pesquisar o tema do animismo, tentando circunscrever o que, dentro do universo dos fenômenos produzidos pela psique do homem, poderia ser identificado como de caráter personalista, anímico ou espirítico, mas valendo-se de uma método para o cumprimento do intento.
Ele faz a defesa de sua intenção em estudar os fenômenos, tanto do ponto de vista da novidade que este configurava, ainda em fase inicial – embora, na história da humanidade este seja, como já citamos anteriormente, muito recorrente, ao que Allan Kardec apenas estabeleceu a lei que o compete – quanto do que, na ausência de conhecimento sobre uma realidade natural e passível de leis próprias, pode desencadear o trato e a difusão distorcidos, ou a completa negação de sua existência:
O que proporcionou ao Espiritismo um acolhimento tão pouco razoável e tão pouco tolerante, foi que, desde a sua invasão na Europa debaixo da sua forma mais elementar, as mesas girantes e falantes, o conjunto de todos os seus fenômenos foi imediatamente atribuído, pela massa, aos ‘espíritos’. Esse erro era, entretanto, inevitável, e, por conseguinte, desculpável, em presença de fatos sempre mais numerosos, tão novos quão misteriosos e de natureza a encher de admiração as testemunhas entregues às suas próprias conjecturas. Por sua vez, os adversários do espiritismo caíam no extremo oposto, nada querendo saber dos ‘espíritos’ e negando tudo. Aqui, como sempre, a verdade se encontra entre os dois. (AKSAKOF, 1956, p. 11).
Assim apresenta Incontri (2001, p. 20) o vulto em questão que protagonizou – com a publicação do livro acima citado, considerado uma obra referência sobre o assunto para os interessados, na qualidade de médiuns, espíritas ou simplesmente curiosos, conhecer os intervenientes fugidios, mas não impossíveis de serem delimitados, da mediunidade – uma das grandes defesas do Espiritismo em época que, como estamos vendo, eram normais embates dessa natureza:
Aleksander Aksakof (1832-1903), médico russo, doutor em filosofia, conselheiro de Estado do Czar e professor da Universidade de Leipizig, redator-chefe da revista Psychische Studien, autor de Animismo e Espiritismo e Um caso de desmaterialização. Polemizou, junto a outros cientistas e filósofos, com o célebre filósofo alemão, Eduard von Hartmann, discípulo de Schopenhauer.
E eles tinham razão em cultivar ceticismo e trabalhar com o dado de realidade que
expunha as incongruências veiculadas no “nascedouro” e efervescência da doutrina na Europa
e países outros de então, pois, o misticismo sempre esteve à frente do fenômeno, tomando espaço, óbvio, num momento em que a razão ainda não estava sedimentada, pois que ainda nascente, desde a revolução que as ideias iluministas proporcionaram.
Assim, vemos a fé cega como um atributo do dogmatismo, enquanto que a fé raciocinada, aquela que avalia, perscruta, observa, interpela os acontecimentos supostamente
divinos, não mais os situando numa causalidade misteriosa e inacessível, pode caminhar pari
passu com a razão, encontrando nessa faculdade um instrumento de alicerce da sua
espiritualidade, e não de fragilidade desta.
As grandes religiões existentes no mundo cultivam uma fé raciocinada, ou promovem o afastamento entre fé e razão?
H. L. D. Rivail compunha também esse séquito de seguidores da realidade estritamente observável, apenas concordando em conhecer aqueles eventos intrigantes das mesas girantes, muito comuns na Europa de então, após encontrar correspondência significativa com as recentes descobertas do Magnetismo, por Franz Anton Mesmer, ao que se dedicou durante alguns anos ao conhecimento dos pressupostos, após chegar em Paris, jovem ainda, depois de anos de estudo no Instituto de Yverdon, instituição educacional do pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi (WANTUIL; THIESEN, 2004).
Assim, num panorama de hegemonia do corpo, do materialismo, experimentado por aqueles que o alimentam, como pelos que o combatem, como poderá nascer o espírito e, consequentemente, uma Educação que se debruce sobre essas dimensão humana?
E, mais uma pergunta se impõe nesse instante: quando nos tornamos educadores? Será quando nadamos a favor da maré e continuamos a conceber educando e Educação sob ordens que em si não produzem transformação, ou será quando passamos a considerar uma porção historicamente desconsiderada – admitamos que com razão – e, somado aos aspectos biopsicossociais acrescentamos o móvel espiritual que, inclusive, responde à quase totalidade do anseio dos seres que transitam nas mais variadas culturas do nosso orbe?
A Educação, portanto, deve ser um campo vasto que congrega todas as disciplinas, a pedagógica, a histórica, a sociológica, a psicológica, a antropológica, dentre tantas outras, que tentam responder, cada uma a seu modo, e de acordo com suas competências, pelas necessidades e potencialidades do homem, adquirindo especial relevo quando se articulam e dialogam umas com as outras, pois sozinhas são retalhos sem importância, compondo um todo, revela-se tecido harmonioso e coeso, em especial quando iluminadas pela ligação com o sagrado, na dimensão espiritual.
Assim, além do domínio e da desenvoltura cognitiva, e nem de perto ou de longe uma proposta que configure formação religiosa, o que se busca neste trabalho de doutoramento é que pensemos em alternativas práticas, a partir de uma organização metodológica, que abarque e desenvolva em plenitude a dimensão ética nas sociabilidades cotidianas, superando o passado, que impôs ao conhecimento a mesma fragmentação imposta
aos corpos devassados, transplantando o método e a definição destes em sistemas que, em desdobramento, provocaram uma lesão na integralidade do homem.
Por fim, partindo destas considerações, a Educação que tratamos a partir das transformações experimentadas pelas vidas que são a razão do nosso trabalho, é a de caráter mais amplo, cuja essência do homem ela possa lapidar e que encontramos ressonância nas proposições de Jan Amos Comenius34, bem como nas reflexões que abrigam o ideal educacional que Carlos Roberto Campetti se dedica a divulgar.
Na sua magistral obra Pampaedia (Educação Universal), um dos sete livros que compõem a De Rerum Humanarum Emendatione Consultatio Catholica35 (Deliberação universal acerca da reforma das coisas humanas), temos o objetivo da Educação proposta por Comenius (2014, p. 39-40):
Este desejo ou aspiração [de uma educação universal] resume-se nas três coisas seguintes: em primeiro lugar, o que se deseja é que assim se consiga educar plenamente para a plenitude humana, não apenas um só homem, ou alguns, ou muitos, mas todos (omnes) e cada um dos homens, jovens e velhos, ricos e pobres, nobres e plebeus, homens e mulheres, numa palavra, todo aquele que nasceu homem, para que, enfim, todo o gênero humano venha a ser educado, seja qual for a sua idade, o seu estado, o seu sexo e a sua nacionalidade. Em segundo lugar, deseja- se que cada homem seja retamente formado e integralmente educado, não apenas em uma coisa, ou em poucas, ou em muitas, mas em todas as coisas (omnibus) que aperfeiçoam a natureza humana: a conhecer a verdade e a não se deixar iludir pelo erro; a amar o bem e a não se deixar seduzir pelo mal; a fazer o que deve fazer e a preservar-se do que deve evitar; a falar sabiamente acerca de todas as coisas, com todos, quando é necessário, e a nunca se ver obrigado a calar-se; enfim, a agir, em todas as circunstâncias, com as coisas, com os homens e com Deus, não levianamente, mas prudentemente, e, assim, a nunca se afastar do objetivo da sua felicidade. E que isso seja feito universalmente (omnino). Não para pompa e brilho exterior, mas para a verdade. Ou seja, para tornar todos os homens o mais possível semelhantes à imagem de Deus (segundo o qual foram criados), isto é, verdadeiramente racionais e sábios, verdadeiramente ativos e ágeis, verdadeiramente íntegros e honestos, verdadeiramente piedosos e santos, e, desse modo, verdadeiramente felizes e bem aventurados, neste mundo por toda a eternidade.
Apesar da distância que o tempo e a cultura nos impõem, vemos que a comunhão de desejos em torno de uma Educação emancipatória, crítica e universal extrapola os impeditivos citados, constituindo-se um anseio comum observado entre o grande pai da Didática Moderna e o personagens que ilustraram nossa tese.
34 A título de informação, pelas concepções universalistas à frente de seu tempo, Comenius é considerado. 35
“As sete obras que compõem a Consultatio Catholica – que começou a ser escrita por Comenius em 1644 e só chegando ao seu têrmo, e ainda assim inacabada por ocasião da morte do seu autor, em 1657 – são: 1. a Panegersia ou Excitatorium Universale, 2. a Panaugia ou Lucis Universalis Via (participação da Luz Divina), 3. a Pansophia ou Universalis Sapientia (sabedoria universal), 4. a Pampaedia ou Cultura Universalis Mentium (Cultivo universal das mentes), 5. a Panglottia ou Cultura Universalis Linguarum (Cultivo Universal das Línguas), 6. a Panorthosia ou Reformatio Universalis (Reforma Universal) e, por último, 7. a Pannuthesia ou Exhortatorium Universale (Exortação Universal)” (GOMES, 2014, p. 15-19).
Para que admitamos uma Educação que contemple a parcela espiritual do homem, e por isso possa ser atrevidamente nomeada de Espiritual, antes necessário se faz que o homem se formule uma questão de ordem filosófica, que é a da própria pertinência de Deus.
Deus existe, ou serei eu o deus da especulação corpórea, da fragmentação do conhecimento em disciplinas à maneira dos corpos, anunciado pela Modernidade? Não seria o corpo – e aí é a matéria – começo, meio e fim de uma jornada que se extingue na fria lápide tumular? Admitindo-se que Deus existe, assim o seria partindo de que fundamentos, religiosos, filosóficos ou científicos? Terreno fértil que acolheu a carne exposta para a dedução das leis, cabe que indaguemos: todas as leis? Não teria a Modernidade assassinado Deus após embriagar-se com o instrumental que serviria para apreendê-lo?
Mesmo muitos já sabendo as respostas para tais interrogações, não caberia ao sábio especular da mesma forma, apesar de correr o risco de cometer grande heresia, desta feita acadêmico-científica?
Assim, o pensamento espírita sobre a Educação, que é o que fundamenta a nossa percepção sobre o que deveria ser uma Educação Espiritual36.
A dificuldade de tratarmos da aproximação entre Educação e Espiritualidade está na apropriação indevida das mentes tendentes a uma espiritualidade por uma dada concepção religiosa, calcada em princípios dogmáticos, obscuros e catequéticos, em que Deus foi apresentado sob roupagem inglória e pouco amorosa, com vistas a uma doutrinação específica e alheia à doação de um sentido no mundo e na vida, em que as consciências pudessem se apoiar sem medo ou através da barganha.
Portanto, reportamo-nos a uma espiritualidade que é anterior ao fato religioso, pois que o fundamenta, reside no individual, na esfera mais íntima do ser e que pensamos ser importante para as relações humanas em sociedade, oferecendo a estas uma opção ética, um referencial a partir da conexão com o sagrado, pois, é urgente que nos interroguemos sobre a qualidade da sociedade que vivemos, reflexo da complexidade social e educacional que tivemos até hoje.
36 Insistimos que, em nossa tese utilizamos este saber, mas, consideramos que, seja qual for a concepção que desloque a Educação de um eixo materialista, redutor do homem a aspectos biológicos, psíquicos e sociais, acolhendo neste conceito a dimensão espiritual, será por nós respeitado; principalmente se, também, for considerado que não se trata de religião – filha malsã da Razão, apesar de caminho muitas vezes oportuno para o cultivo da Espiritualidade –, mas, de transcendência e imortalidade do ser, em jornada evolutiva.
4 EDUCAÇÃO E DOUTRINA ESPÍRITA – UM ENCONTRO SEM FRONTEIRAS