1.7. Yeşil
1.7.1. Ağaç/ Yaprak/ Çimen
Ao longo da tese, foi possível observar questões pertinentes aos internamentos no Hospício São Pedro, tanto de homens quanto de mulheres em comparação a homens e mulheres de etnia italiana. Esta forma de apresentação é tributária a Joan Scott, que sugeriu o emprego do conceito de “gênero relacional”. Para Scott, o termo gênero teria “feito sua aparição inicial entre as feministas americanas, que queriam enfatizar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo”, rejeitando o determinismo biológico observado em terminologias como “sexo e diferença sexual”. Mas não apenas questões ligadas ao determinismo biológico estavam implícitas neste conceito que surgia. Havia também a preocupação de que os “estudos sobre as mulheres se centrava nas mulheres de maneira demasiado estreita”, e ao utilizar o termo “relacional”, optava-se encaminhar futuras pesquisas no sentido de que “mulheres e homens [seriam] definidos em termos recíprocos e não se poderia compreender qualquer um dos sexos por meio de um estudo inteiramente separado”415.
Natalie Davis informa “que deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens como das mulheres, e que não deveríamos tratar somente do sexo sujeitado, assim como um historiador de classe não pode fixar seu olhar apenas sobre os camponeses”416. Claro que esta é uma visão limitante, pois esquece que o historiador tem direito a escolhas, no entanto, propicia o entendimento de que homens e mulheres não podem ser entendidos em separado, como no caso dos internamentos no HSP: a comparação propicia a legitimação de que não somente homens eram alcoólicos ou que a melancolia não era típica apenas às mulheres.
415 DAVIS, Natalie Zemon. Women‟s History in Transition, 1975-76. Apud: SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de
análise histórica. Educação & Realidade, 20 (2), jul/dez, 1995/A, p. 72.
Em Escritos da História, Scott reitera que o aspecto relacionado do gênero significa que “não se pode conceber mulheres, exceto se elas forem definidas em relação aos homens, nem homens, exceto quando eles forem diferenciados das mulheres”, e estando o gênero indissociável ao contexto sócio cultural, estas relações devem ser estendidas no que concerne à raça (etnia) e classe417.
Para esta pesquisa, “gênero relacional” é a apresentação de mulheres internadas em um hospício em comparação com homens igualmente internados, agregando-se questões de etnia, com a diferenciação dos outros em relação aos italianos, e condição econômica quando adentravam o HSP (se era pensionista ou pobre). O sentido, portanto, de utilizar este conceito de relação entre gêneros está atrelado à mesma lógica do uso do quantitativo: evitar distorções e empobrecimentos no que se refere ao empírico. Vendo-se apenas um aspecto, criam-se distorções e perpetuam-se erros418.
Em História não existem conceitos melhores nem piores, existem respaldos teóricos que procuram responder a questionamentos. Neste sentido, este último capítulo da tese se apropria do que foi pensado na origem como uma história que falasse exclusivamente das mulheres, isto é, uma
História de Mulheres. Plurais, elas são distintas na origem (de onde procedem), na condição social,
na etnia. A grafia está propositalmente distinta da original, História das Mulheres, isto para enfatizar que serão abordadas histórias de mulheres em específico, enclausuradas em um hospício, por questões que dizem respeito somente ao sexo feminino. A fundação do gênero e seus consequentes estudos não invalidam uma perspectiva limitada ao gênero feminino, mas quando se fala de História
das Mulheres, o entendimento é de que todas estão sendo contempladas, ou, no mínimo, o texto
escrito é representativo de uma categoria unívoca chamada mulheres.
Seguindo o raciocínio de Scott, Joana Pedro afirma que a categoria gênero permitiu que “pesquisadoras e pesquisadores na área da história focalizassem as relações entre homens e mulheres”, bem como as relações entre homens e entre mulheres419. Na verdade, quando se escreve uma história onde só se relacionam mulheres, é uma História de Mulheres. E o conceito gênero não inventou isto. Este re-nomear a História das(de) Mulheres como História de Gênero, foi elucidada
417 SCOTT, Joan. História das Mulheres. In: BURKE, Peter (org.). A Escrita da História: novas perspectivas. São Paulo:
UNESP, 1995/B, p. 87.
418 Dois artigos de Cunha demonstram bem esta situação. Em ambos a historiadora insiste em relatar apenas
internamentos de mulheres, e sem uma comparação com internamentos masculinos, ela acaba distorcendo o real: os diagnósticos e atendimentos dos alienistas imputados às suas protagonistas, parece serem exclusivos à esfera feminina. Embora a opção de Cunha seja válida, ela acaba, talvez involuntariamente, perpetuando a preconceituosa noção de que loucura é sinônimo de feminino. CUNHA, Maria Clementina Pereira. Loucura, Gênero Feminino: as Mulheres do Juquery na São Paulo do início do século XX. Revista Brasileira de História. v. 9, n. 18, Ago./Set.1989; e CUNHA, Maria Clementina Pereira. De historiadoras brasileiras e escandinavas: loucuras, folias e relações de gêneros no Brasil (século XIX e início do XX). Tempo. n. 5, Jan. 1998.
419 PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História. São Paulo, v.
pela própria Scott, que alegou “que o uso do termo „gênero‟ visa sugerir a erudição e a seriedade de um trabalho, pois „gênero‟ tem uma conotação mais objetiva e neutra do que „mulheres‟”, além de conferir legitimidade acadêmica para os estudos feministas vistos com desconfiança420.
A História das Mulheres surgiu de uma reviravolta no seio da própria escrita da História, quando passou a focar com mais acuidade grupos até então excluídos, “as mulheres são então alçadas à condição de objeto e sujeito da História”421 e nas histórias que passam a ser narradas. Duas correntes historiográficas em voga deixaram de lado esta temática, por longo tempo: positivista e marxista. A primeira, privilegiando422 fontes administrativas, políticas, militares, nas quais as mulheres são uma ausência constante. Por outro lado, para os marxistas, esta é uma problemática secundária, que encontrará solução quando for instalada uma sociedade sem classes423.
Na França, berço de transformações significativas na escrita da História, até o século XIX, não se fazia questão da presença das mulheres na narrativa histórica. Mesmo quando esta visão era vencida, “associava-se as mulheres à natureza e os homens à cultura”424, numa reprodução ideológica. Nos anos 30 do século XX, o movimento conhecido por Annales, romperia com a forma positivista de fazer história, mas seu desvio se dirige ao econômico e social. Nem com a Nova História da década de 70, as mulheres tornaram-se visíveis para os historiadores. A transformação teria origem nas disciplinas de Sociologia e Antropologia. Na História, a temática da vida privada dará o primeiro impulso a uma escrita sobre mulheres, pois seria falho abordar esta temática ignorando o papel feminino. A pesquisa sobre mulheres na França, ganha força nas décadas de 70 e 80425.
É inevitável citar as primeiras historiadoras que trabalharam com mulheres no Brasil, num momento em que ainda se discutia sobre o assunto fora do país: elas realmente foram mais que pioneiras, foram desbravadoras de novos caminhos. A extensa produção historiográfica voltada para o estudo das mulheres, com obras de Silva Dias, Rago e Moreira Leite426, dentre outras, culminando
420 SCOTT, Joan, 1995/A, op. cit., p. 72.
421 SOIHET, Raquel. História das Mulheres. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo Domínios da
História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, 275.
422 Que seja feita justiça, os positivistas não rejeitavam a temática sobre as mulheres. Em Introdução aos estudos
Históricos, dentre as muitas temáticas sugeridas, que vão da vida privada à alimentação, do vestuário à família, há também a sugestão de uma história pela “condição da mulher e dos filhos”. SEIGNOBOS, Charles; LANGLOIS, Charles. Introdução aos Estudos Históricos. São Paulo: Editora Renascença, 1946, p. 163 e 164.
423 SOIHET, Raquel, op. cit., p. 276.
424 PERROT, Michelle. Escrever uma história das mulheres. Cadernos Pagu, n. 4, Campinas, 1995/B, p. 14 425 PERROT, Michelle, 1995/B, op. cit., p. 13-17.
426 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1984;
RAGO, Luzia Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar, Brasil 1890-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985; LEITE, Miriam Moreira. A condição feminina no Rio de Janeiro, século XIX: antologia de textos de viajantes estrangeiros. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Fundação Nacional Pró-Memória, 1984.
com a publicação de revista com número dedicado inteiramente à temática, intitulado A mulher no
espaço público427, inaugura então a temática de forma definitiva na historiografia brasileira. No entanto,
a fragmentação de uma idéia universal de „mulheres‟ por classe, raça, etnia, geração e sexualidade associava-se a diferenças políticas sérias no seio do movimento feminista. Assim, de uma postura inicial em que se acreditava na possível identidade única entre as mulheres, passou-se a outra, em que se firmou a certeza na existência de múltiplas428.
A partir deste movimento, será criado o conceito gênero, e esta criação está associada aos estudos sobre mulheres nos EUA429. Esta brevíssima explanação tem o sentido de enfatizar que a
História das Mulheres não é uma categoria errônea de ser usada na academia. Surgiu para contrapor
algumas formas de escritas históricas que já não respondiam a determinados questionamentos, mas em determinado momento ela própria não mais atendia aos interesses de quem a havia criado, e por conta disto, foi relegada ao ostracismo.
Mas por que insistir em dizer História de Mulheres? Para responder a isto, parte-se de um texto de Judith Butler, filósofa estadunidense. A autora escreve que, “se alguém „é‟ uma mulher, isso certamente não é tudo o que esse alguém é”430, pois há intersecções com raça e classe, mas também, e este é o diferencial de sua escrita, há a identidade sexual, isto é, não mais pode ser vislumbrado o sexo (feminino ou masculino) como um dado natural, ele é construído. Então, se comparar homens e mulheres como pretende o gênero, é partir de uma matriz heterossexual limitante, e se a mulher é um indivíduo que se constrói, inclusive na esfera sexual, ela independe do homem para comparação. Se sexo é um construto, já que é culturalmente construído, e “se o sexo é, ele próprio, uma categoria tomada em seu gênero não faz sentido definir gênero como interpretação cultural do sexo”, neste caso “o gênero não está para cultura como o sexo para natureza, ele também é uma construção cultural”431.
Deve-se então desnaturalizar o gênero. Ele não pode ficar limitado a uma relação binária entre homens e mulheres (nascidas assim biologicamente). Ora, se é possível desnaturalizar o sexo, se é possivel pensar um construto cultural do sexo, porque não pensar uma categoria que tem História e historicidade, como é a História das muitas mulheres ao longo dos séculos? Legitimando o conceito, pensa-se que ele não deve ficar limitado, engessado a uma história que evite na sua
427 SOIHET, Rachel; PEDRO, Joana Maria. A emergência da pesquisa da história das mulheres e das relações de gênero.
Revista Brasileira de História, v. 27, n. 54, Dec., 2007, p. 281 e 282.
428 SOIHET, Rachel; PEDRO, Joana Maria, op. cit., p. 287. 429 PERROT, Michelle, 1995/B, op. cit., p. 21.
430 BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 20. 431 BUTLER, Judith, op. cit., p. 25.
formulação a multiplicidade de indivíduos sob o denominador chamado mulheres. A ruptura que desembocou na criação do termo gênero, já indicava que as muitas mulheres queriam um construto conceitual que previlegiasse a todas. Reafirma-se: neste capítulo tratar-se-á de uma História de
Mulheres432.