4. BÖLÜM GAYRİMENKULÜN ÇEVRESEL VE FİZİKİ BİLGİLERİ
4.2 GAYRİMENKUL KULLANIMI İLE İLGİLİ AÇIKLAMALAR
4.2.2 AÇIKLAMALAR
Pensar em um Estado ecologicamente orientado implica em uma necessária reflexão sobre os valores fundamentais que devem nortear a estruturação da organização político-social, entre os quais a justiça e a igualdade, que são sempre lembradas como seus vetores essenciais.
Mas, para além delas, Bosselmann propõe o resgate de outro importante elemento, de mesmo status dos anteriormente mencionados, e sem o qual não seria possível pressupor a pretensão de continuidade como decorrência esperada da vontade de constituição de uma sociedade política: trata-se da defesa da sustentabilidade171.
Segundo documenta o autor, a noção de sustentabilidade é bastante antiga e remonta à ideia de uma vida harmônica com o meio, preservando-se a dinamicidade dos ciclos naturais, e em decorrência disso, garantindo-se a sobrevivência humana.
Embora nunca deixado de ser, em sua essência, uma necessidade, a regra básica da existência e perpetuidade da espécie humana, rigorosamente, pode-se dizer que nunca existiu nenhuma sociedade plenamente sustentável, assim como também não houve na história sociedade perfeitamente justa ou igualitária. Nesse sentido, identifica-se um componente utópico inescapável em todos estes conceitos. E, diante do contexto da ascensão do individualismo, do capitalismo industrial e da globalização econômica, cada vez mais tem havido um distanciamento deste princípio de ação, a ponto de se vislumbrar vários riscos de um colapso civilizatório por razões ecológicas.
170 BOSSELMANN, Klaus, op.cit., 1995.
171 BOSSELMANN, Klaus. O princípio da sustentabilidade: transformando direito e governança. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
Em razão disso, as discussões sobre o assunto ganham cada vez mais espaço na comunidade científica, que tem analisado o fenômeno sob óticas [e éticas] variadas172.
Em breves linhas, pode-se dizer que as discussões acerca do conteúdo da sustentabilidade baseiam-se no nível de segurança que se atribui à necessidade de conservação de recursos naturais – o capital natural, conforme denominado pelos estudiosos da Economia Ecológica173.
Para alguns, o crescimento econômico pode acontecer de forma praticamente ilimitada. O acesso aos bens de consumo e serviços não ficaria prejudicado pela escassez e/ou o esgotamento de alguns recursos naturais, pois estes viriam a ser paulatinamente substituídos por outros bens e/ou recursos e/ou serviços produzidos, em decorrência da aplicabilidade de novas descobertas científicas.
Conforme explica Carlos Alberto de Brito, a inovação tecnológica vem a ser fundamental para o crescimento sempre ascendente de uma economia: “a tecnologia é a variável econômica responsável pela expansão da fronteira de possibilidade de produção. As inovações tecnológicas tornam a economia dinâmica”174.
De acordo com esta visão, indubitavelmente ainda predominante, o crescimento econômico é protagonista da noção de desenvolvimento e as preocupações com as variáveis social e ecológica devem estar subordinadas a ele. Esta é a denominada sustentabilidade fraca.
Os fundamentos desta concepção chegam a ser surpreendentes, pois não pressupõem um raciocínio, uma diretriz geral de precaução. Ao invés, diante das incertezas quanto a um futuro desconhecido, ou mesmo dos estudos que indicam que já se tenha ultrapassado a capacidade de suporte do planeta175, deposita-se a
172 Este tema foi enfrentado com maior detalhamento em nossa dissertação de mestrado. Cf. MENDES, Ana Stela Vieira. Princípios e diretrizes da ordem ambiental econômica no Estado de
Direito Ambiental Brasileiro. Dissertação (Mestrado em Direito). Fortaleza, Universidade Federal do
Ceará, 2010, p. 169; Conferir, também, MUELLER, Charles C. O debate dos economistas sobre a sustentabilidade – uma avaliação sob a ótica da análise do processo produtivo de Georgescu- Roegen. Est. Econ., São Paulo, v.35, n. 4, p. 687-713, out/dez 2005;
173 MERICO, Luiz Fernando Krieger. Introdução à economia ecológica. Blumenau: FURB, 1996.
174 BRITO, Carlos Alberto Gonçalves de. A inserção da dimensão ambiental na teoria econômica.
Revista da pós-graduação em ciências jurídicas. v. 4, n. 6, p. 108-130, 2005, p. 115.
175 Segundo o Relatório Planeta Vivo, publicado pela World Wide Fund for Nature – WWF, o atual estilo de vida já é insustentável, pois, para se manter, exigiria o equivalente a 1,5 planeta Terra.
fé na tecnologia, tal como quem professa uma religião, aproximando-se de uma postura dogmática, inapropriada para o conhecimento científico.
Ademais, quando seguramente se coloca o crescimento econômico como prioritário, ou até no mesmo patamar da preservação ecológica, subverte-se a lógica do sistema produtivo, que depende em primeiro plano da saúde dos processos ecológicos essenciais, e não o contrário.
Os críticos desta visão reducionista, por sua vez, defendem que a ideia de substitutabilidade entre o capital natural e os bens produzidos é limitada. Isso porque o crescimento econômico é acompanhado de uma escassez cada vez maior dos recursos naturais, o que, em médio ou longo prazo, ocasionará não somente o esgotamento da parcela da natureza ainda disponível para ser transformada em matéria-prima, mas também a perda de serviços naturais essenciais à existência da vida – tais como o equilíbrio da atmosfera, das condições climáticas, da fertilidade e saúde dos solos, da potabilidade da água, dentre outros.
Este segundo posicionamento, já adotado por nós em pesquisas anteriores176 e também por Klaus Bosselmann, envolve, portanto, uma ideia de sustentabilidade forte. Segundo este autor, o elemento ecológico não é um simples aspecto do conceito de desenvolvimento sustentável, mas sim, um pressuposto de sua existência177.
A partir disto, o autor argumenta que a sustentabilidade possui natureza de princípio jurídico fundamental e está implícita no Relatório Brundtland (1987) e na Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992).
As principais consequências da admissão princípio da sustentabilidade são, primeiramente, o já mencionado direcionamento na compreensão e aplicação do conteúdo do princípio do desenvolvimento sustentável, o qual deve, ainda, considerar as responsabilidades comuns, porém diferenciadas dos países, em razão do seu nível de desenvolvimento.
Estima-se que em 2050 seriam necessários 2,9 planetas para suprir as demandas de consumo atuais. PEGADA ECOLÓGICA: nosso estilo de vida deixa marcas. WWF-Brasil. Brasília, 2013. 176
MENDES, Ana Stela Vieira. Princípios e diretrizes da ordem ambiental econômica no Estado
de Direito Ambiental Brasileiro. Dissertação (Mestrado em Direito). Fortaleza, Universidade Federal
do Ceará, 2010.
Em segundo lugar, que tratados, leis e demais princípios jurídicos devem ser interpretados à luz do princípio da sustentabilidade. Trata-se, assim, de um metaprincípio, que “fornece orientações fundamentais para a interpretação das normas jurídicas e estabelece a referência para a compreensão da justiça, dos direitos humanos e da soberania do Estado” 178.
Como se percebe, esta visão da sustentabilidade considera a importância em si das bases naturais da vida, orienta-se eticamente pelo ecocentrismo e incorpora às preocupações sociais com as presentes e futuras gerações as relações entre os seres humanos e o mundo natural. Isto demanda uma ressignificação da própria ideia de justiça em direção a um novo patamar: a justiça ecológica.
A partir disso, Bosselmann indica o núcleo do conceito de justiça ecológica: erradicação da pobreza, preocupação com as gerações futuras e reconhecimento do valor intrínseco dos não humanos rumo à integridade ecológica, a uma visão não dicotômica e holística.
Sem a consideração em conjunto destes elementos, a própria noção de justiça estaria inviabilizada. Segundo o autor, “os únicos caminhos possíveis para o desenvolvimento são aqueles ecologicamente sustentáveis. Da mesma forma, os únicos caminhos possíveis à justiça são aqueles que reconhecem a sustentabilidade ecológica”179.
Assim, tem-se o início do delineamento do direito sustentável.