A sentença que abre a sessão dos mishpatim, Ex 21,2, prescreve a entrada de um homem para o trabalho escravo temporário. As pessoas empobrecidas, quando se endividavam, muitas vezes tinham que se vender para pagar a dívida.169 A sentença destaca o homem livre que está entrando para o trabalho escravo (Ex 21,2-3). A mulher aparece apenas como extensão do marido. O v.3b enfatiza este particular, afirmando que “se ele é dono de mulher, a mulher sairá com ele”. Nosso texto usa a palavra ba‘al170 para significar “dono”, “proprietário”, “marido”. É aquele que toma posse de uma mulher como noiva ou esposa.
Se ele, ao entrar para o trabalho escravo, for casado, quando sair, também sairá com ele sua mulher. Pode-se entender que a condição social das pequenas famílias camponesas israelitas estavam passando por um processo de empobrecimento crescente. De um lado, o homem é obrigado a se submeter ao trabalho escravo para saldar a dívida; do outro, a mulher como esposa também é submetida. A sentença bíblica não fala dos filhos. A preocupação é garantir ao homem o direito de trabalhar seis anos e no sétimo sair livre. A mulher é apenas um detalhe ao lado do marido. Evidencia-se o fortalecimento do poder patriarcal.
169A sociedade israelita pré-estatal fez a experiência da propriedade coletiva da terra. Com a expansão
da agricultura e o aumento da produção foi modificando o sistema de posse da terra. A mudança se dá com a transformação das parcelas sorteadas em posse particular e hereditária. Isso contribuiu para as transações de terras. Conjuntamente, desenvolveu-se um negócio de empréstimos que onerava as propriedades de agricultores em dificuldades. O sistema de empréstimos, comum na Palestina, tornava os cidadãos empobrecidos dependentes dos credores e podia levá-los inclusive à expulsão de suas próprias terras e à venda delas (escravidão por endividamento) (Winfried THIEL, A sociedade de
Israel na época pré-estatal, São Paulo/São Leopoldo: Paulinas/Sinodal, 1993, p.32).
170 O primeiro sentido da palavra ba‘al é “dono”, “proprietário”, mas também significa “marido”. A
concepção de marido, que o texto hebraico define, é de tomar posse de uma mulher como noiva ou esposa. Quem toma posse é o homem. Portanto, ba‘al/“marido” é o homem dono, proprietário de mulher (Ex 21,3.22). Veja Ludwig KOEHLER e Walter BAUMGARTNER, Lexicon in Veteri
De acordo com a pesquisa171, reconhece-se que a expressão “escravo hebreu”, quando fala do “hebreu”, não se refere, durante o segundo milênio a.C., a uma etnia, mas ao empobrecimento de uma classe social
“Se compras um escravo hebreu172 seis anos servirá e no sétimo173 sairá para a liberdade gratuitamente. Se ele entrou só, ele sozinho sairá. Se ele é dono de mulher, sairá a mulher com ele” (Ex 21,2-3).
A raiz verbal semítica qnh174 significa “adquirir”, “criar”. Na linguagem
comum, o significado principal é “adquirir” com o sentido de “comprar”. O verbo qnh é o oposto do mkr “vender” (Ex 21,2; Lv 25, 44; Ecl 2,7). A sentença está dirigida ao “senhor”, que compra a força de trabalho escravo em troca da dívida.
A mulher, entrando para o trabalho escravo, não é evidenciada, porque sua condição social é de casada (Ex 21,3). No casamento, a mulher é reconhecida como propriedade do homem. Na época pré-estatal, encontram-se tipos de casamento onde o poder patriarcal não estava tão estruturado. Uma filha que casasse podia permanecer no seu clã. Temos na Bíblia o exemplo de Sansão. Sua mulher fica na casa do pai e
171 Brevard CHILDS, The Book of Exodus: A Critical, Theological Commentary, Philadelphia:
Wistminster,1974, p.477.
172 A conceituação do termo ‘ibri é muito discutida. Há duas propostas básicas em debate. Uma, é a
que conceitua ‘ibri a partir dos textos vétero-orientais do 2o milênio, na perspectiva sociológica. A outra compreende o termo ‘ibri no sentido nacional-étnico, como em tempos posteriores. A escravidão por dívidas era uma prática muito comum na Antigüidade e no Antigo Oriente (Código de Hammurabi, art.117-119). Frank CRÜSEMANN afirma que possivelmente é um adjetivo usado posteriormente na época pré-monárquica, pelos redatores deuteronomistas para definir um grupo social, que possuía características de hapirus. Veja, A Torá: Teologia e história social da lei do Antigo
Testamento, Petrópolis: Vozes, 2002, p.221. O termo ‘ibri, caracteriza os antigos israelitas como
grupos estrangeiros de status legal inferior. Georg FOHRER, História da religião de Israel, São Paulo: Paulinas, 1982, p.26. Em 1Sm 14,21 são chamados “hebreus”, os israelitas que estavam a serviço dos filisteus.
173 Os escravos babilônicos, geralmente eram obtidos em campanhas militares, com a captura de
prisioneiros de guerra ou em “razias” realizadas nas regiões montanhosas. A partir da terceira dinastia de Ur (2111-2003 a.C.), aparece nos documentos da época um novo tipo de escravidão, quando da entrada em vigor do costume de homens livres venderem sua esposa, filhos ou a si mesmos para pagarem com o trabalho escravo suas dívidas, quando as tinham. O art. 117 do Código de Hammurabi aceita e introduz este costume, mas limita a três anos o tempo máximo permitido para este tipo de escravidão. Embora o escravo fosse considerado uma espécie de mercadoria que podia ser comprada e vendida, a lei de Hammurabi garantia a eles alguns direitos e privilégios. Conforme o art. 75, um escravo podia casar com a filha de um awilum (livre com todos os direitos de cidadão) e a lei determinava que os filhos deste casamento deveriam ser considerados como livres (Emanuel BOUZON, O Código de Hammurabi, Petrópolis: Vozes, 2000, p.33).
174 Conforme, W. H. SCHMIDT, Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol. II,
p.820-823, os objetos de compra estão no acusativo: casa (Lv 25,30), campo (Gn 33,19; Jr 32,7). Depois de qnh Nifal como sujeito: materiais de construção (2Rs 12,13; 22,6), jarra (Jr 19,1), cordeiro (2Sm 12,3), mas também pessoas (Gn 39,1; 47,19.23; Lv 22,11; Am 8,6). Este autor ainda afirma que existe uma vez em arameu zbn Qal, significando “comprar” (Dn 2,8), junto a zbn Pael, “vender”, e
Sansão a visita temporariamente (Jz 14,1-4; 15,1). No direito israelita, todavia, fica evidente que a estrutura famíliar é patriarcal. O casamento era compreendido como compromisso de o homem tomar posse da mulher. Depois que o noivo ou seus pais tivessem selado o “acordo” com o pai da virgem, o homem tornava-se “dono” da mulher. O corpo da mulher livre, enquanto filha, é propriedade do pai; e, quanto casada, é posse do marido.
No texto, Ex 21,3, mostra ainda que as mulheres casadas acompanhavam o homem no trabalho escravo temporário. A sentença não explicita qual era a contribuição de trabalho da mulher na redução da dívida. Apenas a sentença confirma a existência de mulheres como escravas temporárias. Quando o marido saísse do trabalho escravo, a mulher também o acompanharia.
Em Ex 21,22 temos um caso em que também se evidencia esta característica da mulher como propriedade do marido. A mulher grávida é machucada numa briga entre os homens e aborta. O marido é a autoridade que estabelece o valor da multa para os homens que machucaram sua mulher. A decisão do marido é reconhecida e respeitada na aldeia. O pagamento é feito publicamente perante as autoridades comunitárias.175
Através do casamento, nas famílias livres, justifica-se e institucionaliza-se a desigualdade sexual entre o marido e a esposa. O casamento garante ao homem um
status superior ao da mulher, porque a ele é atribuído o poder de proprietário dela.
Esta é uma forma de violência que se pode classificar como sistêmica, porque está estruturada na instituição da família patriarcal, base da organização social. Neste contexto situa-se Ex 21,3, onde se invisibiliza o trabalho da mulher e se enfatizam os seis anos de trabalho do marido.
Se Ex 21,3 não visibiliza as condições sociais da mulher casada, os textos de Ex 21,26-27 nos dão a possibilidade de conhecer alguns aspectos de como as freqüentemente está unido à indicação de “preço” (Gn 33,19; 47,19; 2Sm 24,24= 1Cr 21,24; Is 43,24; Jr 32,25.44, Am 8,6).
175 A expressão felilim que aparece no final de Ex 21,22 é definida como “juízes” pelo Lexicon in Veteri Testamenti libros, p.762-763. Encontra-se com este sentido em Dt 32,31 e Os 31,11. A
Septuaginta define felilim com o sentido de “valorização”. Targum Onkelos define como “juiz”. Confira Diccionario teológico manual del Antiguo Testamento, vol II, p.541. Na pesquisa, sigo os que definem a expressão como “juízes”, testemunha pública.
mulheres eram tratadas quando exerciam o trabalho escravo. A seguir desenvolvo esta análise.