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Na proposta inicial para denominar os CES, havia uma tendência de identificar essas escolas como Centros de Ensino. Mas o termo ensino foi suprimido, segundo Mafra (1979/80), de forma acertada, pois a perspectiva era de que os CES se tornassem estabelecimentos que pudessem atender a todas as funções estabelecidas no Parecer 699/72, do Conselho Federal de Educação: suplência, qualificação, suprimento e aprendizagem. Portanto, adotou-se o termo Estudos. O referido autor alertou ainda para outro ponto importante. Dentro da previsão de atendimento às quatro funções do supletivo nos CES, seria incoerência tentar adjetivá-los como espaços onde só se ensinava, uma vez que, como enfatizamos, ficariam condicionados a uma única função.

A priori os CES deveriam contribuir de forma mais incisiva com a escolarização de um grande contingente de pessoas, apesar de não ser essa a sua única atribuição. A ideia era de que com o passar dos anos e o sucesso das reformas na estrutura de funcionamento da educação no país, todos alcançariam a conclusão do 1º e 2º graus nas idades ditas corretas, e, garantiriam também uma formação técnica ao final do processo. Assim, as funções de suplência e aprendizagem dos CES perderiam gradativamente o espaço para as funções de suprimento e qualificação, dentro da filosofia da educação permanente. Portanto, os CES se transformariam, ao longo do tempo, em escolas onde se poderia

[...] buscar ensino, educação permanente, onde se encontrará difusão cultural, seja pelos meios convencionais, seja pela utilização de tecnologias que permitam a utilização de multimeios diretos e indiretos, [...] pode voltar-se para o desenvolvimento comunitário, pode conveniar com entidades públicas e privadas para encaminhamento dos seus alunos, pode propiciar atividades ligadas ao artesanato, à preservação do folclore ou ao desenvolvimento das artes plásticas, à habilitação profissional a nível de 2º grau ou à profissionalização sem grau ou nível de escolaridade. (MAFRA, 1979/80, p. 15)

Tomando as palavras de Mafra como parte do discurso oficial, percebemos que concepção dos CES estava alinhada com as discussões realizadas em âmbito internacional, principalmente a partir da II CONFINTEA16 ocorrida em 1960, na cidade de Montreal no Canadá. As discussões à época eram marcadas pelo aumento da produção, da guerra-fria, da expansão das multinacionais, dos investimentos das nações ricas em setores como educação e saúde. O mundo estava em transformação. Portanto, mais uma vez, era preciso preparar a população para as demandas que se apresentariam num futuro já facilmente vislumbrado e pautado principalmente nas revoluções científicas e tecnológicas. Nesse sentido, a Conferência apresenta-nos o conceito que marcaria a Educação de Jovens e Adultos até os dias atuais, a educação permanente.

O conceito de educação permanente passa a ter, no seu mais profundo sentido, uma linha de totalidade que significa não apenas aproveitar o indivíduo para desempenhos econômicos e sociais, mas procurar que este desenvolva solidariedade humana em empreendimentos comuns, solidariedade com estruturas sociais e mudança de mentalidade para o mundo também em mudança. A educação permanente é muito mais do que uma noção, é uma linha integrativa de ação que inclui todos os homens sem exceção, dentro de um processo de aprendizagem e reformação contínua na capacidade do homem entender a vida. Com a educação permanente se tenta que a educação volte a ser realmente um aprendizado ao longo da vida e não simplesmente, um simulacro de aprendizado. (MOSQUERA, 1980, p. 146)

O autor compreende o conceito de educação permanente de forma muito positiva, ao considerá-la como uma necessidade do próprio homem no desafio para compreender toda a dinâmica da vida. Seria uma tentativa de resgate aos primórdios da sociedade humana em que a educação acontecia naturalmente e ao longo do tempo para garantir a sobrevivência. Na concepção de mundo que se apresentava após a década de

16 Conferência Internacional de Educação de Adultos, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

1960, a educação deveria acontecer nos espaços formais e não-formais, no intuito de garantir habilidades e competências para o ser humano se adaptar às novas perspectivas, possibilidades e desafios que se apresentarão para ele de forma permanente. Werthein (1985) acredita que essa concepção é resultado das mudanças tecnológicas enfrentadas pelas sociedades dos países ricos e industrializados, ou seja, seria uma maneira encontrada para ajustar a sociedade a permanentes mudanças causadas pelo desenvolvimento econômico e tecnológico. Por isso, o autor faz uma crítica à tentativa de impor essa concepção de educação permanente também aos países pobres, onde o desenvolvimento já é tardio ou não tem perspectiva de acontecer em longo prazo. Pensamento também compartilhado por Gadotti (1982), que acredita que o modelo de educação permanente valoriza as possibilidades do homem em relação a uma realidade pautada no progresso, na inovação tecnológica, no lucro e no modelo industrial enraizado para a vida social.

A CONFINTEA seguinte, realizada no ano de 1972, em Tóquio, apresentou elementos importantes para a compreensão da dimensão pretendida para a educação de adultos naquele momento histórico.

A educação deve combinar teoria e prática, trabalho e aprendizagem. O vínculo entre desenvolvimento econômico e educação tem sido particularmente forte nos anos sessenta. O aumento do desemprego e deslocamento de mão de obra em vários países, devido às mudanças tecnológicas foi compensado, entre outras coisas, com a aplicação de sistemas de requalificação, aumentando formação no local de trabalho nas atividades da indústria e de extensão cooperativas de ensino e centros de formação rural. Através de escolas noturnas, ensino por correspondência e outros meios, os adultos terão a oportunidade de estudar sem desistir de seu trabalho. (RELATÓRIO DA CONFINTEA III, 2014, p. 154, tradução nossa)

Percebemos que a proposta é de incentivar a capacitação técnica para atender ao mercado de trabalho, vinculada às perspectivas de manutenção e entrada no mercado de trabalho, imposta pelo grande fluxo imigratório para as grandes cidades e principalmente pelos avanços tecnológicos. Mas também é importante perceber, na transcrição do trecho do relatório, a ênfase dada à ocupação de espaços informais, como também formas para avançar do modelo tradicionalmente estabelecido de aprendizagem para um modelo mais flexível. A partir do novo contexto de sociedade, havia uma “[...] necessidade de tornar o homem mais flexível e adaptável ao meio cambiante o que exige uma educação que mude suas estruturas externas” (RAMÍREZ, 1975, p. 37).

Por ser constatada a procura, cada vez maior, dos adultos pela educação escolar, o relatório final menciona que “[...] devem se levar em conta as necessidades específicas da educação de adultos na hora de planejar novas escolas ou outras instituições educativas” (RELATÓRIO DA CONFINTEA III, 2014, p.163, tradução nossa). Alertando ainda que o espaço escolar muitas vezes é o único em que o adulto pode receber um apoio adequado.

Podemos concluir, a partir do exposto, que os CES eram estratégicos para o governo brasileiro. Com esses estabelecimentos de ensino funcionando em todo o território nacional, diminuiriam as tensões sociais por meio da oferta da educação a toda a demanda potencial do Ensino Supletivo, sem gastar vultosos recursos. E, além disso, essa modalidade de ensino serviria como uma ótima propaganda, mostrando que o Brasil procurou atender às orientações internacionais construídas nas últimas CONFINTEAS, com sua nova escola, específica, para atender a jovens e adultos, aberta para a promoção de inúmeras possibilidades de educação permanente, preparando a população para os desafios futuros na grande nação que estava se construindo, formando sujeitos entendedores da necessidade de se aprender durante toda a vida, para garantir o emprego, conquistar novas possibilidades e ser produtivo para sua nação. Portanto, o sucesso dos CES colocaria o Brasil na vanguarda da promoção da educação para todos, transmitindo a impressão de que estava se construindo uma nação democrática e popular.

Benzer Belgeler