A escravidão, também chamada de escravismo e escravatura, apresentou-se na historia humana como uma das formas de exploração do homem pelo homem, consistiu na prática social em que um ser humano adquire direito de propriedade sobre outro denominado por escravo, ferindo a liberdade natural do homem como observa John Locke:
“A liberdade natural do homem consiste em estar livre de qualquer poder superior sobre a Terra e em não estar submetido à vontade ou à autoridade legislativa do homem, mas ter por regra apenas a lei da natureza.” 35
O direito de um homem sobre um escravo é exercido por meio da força, no qual o trabalho do escravo é realizado sem qualquer contraprestação ou remuneração.
A força de trabalho dos escravos é propriedade de seus donos, assim como seu corpo, descendentes, enfim o escravo é considerado um bem e pode ser trocado, vendido e usado da forma determinada por seu senhor.
35 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Tradução Julio Fischer. 2. ed. São Paulo: Martins
A forma mais primária de escravatura teve origem nas guerras entre povos, dos quais os prisioneiros de guerra eram submetidos ao regime de escravidão pelos possuidores, sem que, no entanto, fossem considerados mercadorias, situação alterada com a posterior apreensão e comercialização de escravos.
Esta modalidade de exploração humana foi conhecida na história da humanidade por longos períodos. Na Grécia, as fábricas de flautas, facas e ferramentas agrícolas, assim como de móveis, eram todas compostas de escravos. Em Roma, os senhores possuíam escravos de classes distintas, tais como: pastores, gladiadores, músicos, filósofos e poetas; sendo certas que, mais tarde, esses escravos eram libertados, algumas vezes por gratidão aos serviços relevantes e em dias de grande festividade, outras junto à cabeceira do leito de morte, como dádiva trazida por seus senhores. Na Roma Antiga, após a conquista da liberdade, os antigos escravos acabavam por se dedicar a atividades de oficio que conheciam, “alugando” seus trabalhos para terceiros. Talvez tenha sido aí a origem do trabalho remunerado de que se tem noticia, a qual gerou a chamada locação de serviços, que culminaria, em futuro remoto, na tão desejada e conhecida relação de emprego. 36
Entretanto, foi na era moderna que a escravidão alcançou seu ápice através dos portugueses e espanhóis, que escravizaram negros africanos e os traziam para suas colônias na América, nos porões dos navios negreiros em condições desumanas, bem como índios que aqui se encontravam. A escravidão nesta época baseou-se no preconceito racial, apoiado pela Igreja Católica, segundo o qual os índios e negros por sua origem e cor eram considerados inferiores e passiveis de citada exploração.
A utilização de escravos na colonização da América criou um comércio intercontinental, no qual governos árabes e africanos passaram a aprisionar cidadãos de seus países para comercializar com os europeus, cuja quantidade estimada ultrapassa entre 1450 e 1900 cerca de 11.313.000 indivíduos.
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Como eram consideradas mercadorias ou até mesmo animais, os escravos eram avaliados fisicamente, analisados os dentes, canelas, calcanhares, sendo que os melhores eram rapidamente comercializados, enquanto os demais morriam nos galpões por desinteresse dos compradores.
O preço de cada escravo alcançava valores muitas vezes superiores ao valor das terras, já que estas existiam em abundância e como eram considerados mercadorias, constavam nos inventários de seus senhores, juntamente com ouro, animais, terras e demais bens materiais.
Os escravos eram submetidos ao tratamento e trabalho determinados por seus proprietários e tinham direitos básicos negados, estando ainda, impedidos de se opor as condições impostas.
Com o surgimento do ideal liberal a escravidão passou a ser considerada pouco produtiva e moralmente incorreta, o que levou a sua gradual extinção, tanto que, no Brasil houve mutação no status de escravo para elemento servil; e, após isso: homem livre.
No Brasil em 1850 foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós, que impunha punição aos traficantes de escravos, proibindo a entrada de novos escravos no país; em 1871 a Lei do Ventre Livre que declarava livre os filhos de escravos nascidos a partir daquele ano; em 1885 a Lei dos Sexagenários, que concedia liberdade aos escravos maiores de 60 anos; e em 1888 a escravidão foi abolida no Brasil, único país ocidental que ainda mantinha a escravidão, pela Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel.
Apesar da existência da escravidão em alguns lugares do mundo, referida prática é mundialmente considerada ilegal, sendo que a Mauritânia em 1981 foi o último país a abolir a escravidão por lei.
A escravidão foi à forma mais cruel de exploração do homem pelo homem, na medida em que retirou de cada escravo seu direito à liberdade, bem
como demais direitos naturais, contrariando a premissa de que todos os homens nascem iguais.37
A apropriação foi completa, física, mental, trabalho, família, costumes, religião, cultura, submentendo-os aos costumes dos proprietários através do uso da força. Eram forçados a trabalhar sem qualquer remuneração, em condições desumanas, jornada acima de 16 horas, ausência de descanso, castigos físicos, alimentavam-se de restos, vestiam trapos, dormiam em senzalas e viviam acorrentados para evitar fugas.
Saliente-se que a escravidão também correspondeu a uma dominação do forte sobre o fraco, superior pelo inferior, segundo o qual aos seres inferiores (escravos) cabia a atividade de menor relevância na relação de produção e multiplicação de riquezas, enquanto aos fortes cabia a arte de governar e de pensar sobre como deveria ser controlada a ordem geral.
A escravidão era considerada coisa justa e necessária, nas palavras do filósofo grego Aristóteles, que afirmou que para conseguir-se cultura era necessário ser rico e ocioso e que isso seria impossível sem a escravidão.
Contudo, foi à relação com a economia o fator determinante da abolição da escravatura, pois os escravos tornaram-se pouco produtivos, cresciam as uniões de escravos na luta pela liberdade e o fato de não possuírem propriedade desestimulava a produção, já que a força de seu trabalho não contribuía para o incremento e melhoria das condições de vida. 38
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“A escravidão foi sempre vista como meio de produção de trabalho sem maior exigência técnica e, como conseqüência, sem maior custo ao tomador deste trabalho. Ficando este, com o dever de manter o escravo em condições mínimas para que ele pudesse continuar a produzir trabalho e lucro sem maiores encargos e que dessa atividade resultasse um melhor resultado.” NORONHA, João Walge da Silveira. A valorização do trabalho como condição de dignidade humana. In: Direito e Justiça: Revista da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 21, n. 22, p. 157-66, 2000. p. 158.
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“Essa escravidão atribuída a seres humanos de origem inferior, seja proveniente de sua própria origem, seja ela atribuída aos vencidos na guerra de conquista, onde o vencido passava à condição de escravo do vencedor, começou a desaparecer, na medida em que o próprio homem, entendo ser ele, o titular de sua própria vontade, não mais admite a diminuição de sua própria personalidade e sai a luta para conquistar a sua liberdade.” NORONHA, João Walge da Silveira. A valorização do trabalho como condição de dignidade humana. In: Direito e Justiça: Revista da Faculdade de Direito da