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ǾÜNVĀN-I ESǾAD-I BAĠDĀDĪ RAĤİMEHU’LLĀHU TEǾĀLǾĀ

DÎVÂNIN TRANSKRİPSİYONLU METNİ

ǾÜNVĀN-I ESǾAD-I BAĠDĀDĪ RAĤİMEHU’LLĀHU TEǾĀLǾĀ

Há no Brasil, atualmente, três projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional e que preveem a facilitação do acesso, pelos transexuais, a direitos identitários que, atualmente, somente são obtidos pela via judicial: o PL 70/1995, da autoria de José Coimbra; o PL nº 658/2011, de Marta Suplicy; e o PL nº 5002/2013, elaborado por Jean Wylys e Érika Kokay.

O primeiro dos projetos de lei, qual seja, o nº 75/1990, visa a explicitamente fazer constar, no art. 129 do Código Penal Brasileiro, exclusão do crime de lesão corporal grave nos casos em que haja intervenção cirúrgica para alteração de sexo, desde que o indivíduo seja maior de idade, que a cirurgia tenha sido realizada a pedido deste, e que tenha sido precedida de parecer unânime de uma junta médica e dos exames necessários.

O projeto prevê, ademais, a possibilidade de alteração do prenome, desde que a pessoa tenha se submetido à cirurgia de transgenitalização e mediante autorização judicial. Em caso de modificação no prenome, no registro, deverá ser averbado, tanto a este documento quanto à cédula de identidade, ser a pessoa transexual.

Como se pode constatar, o idealizador dessas propostas pautou-se na ideia patologizante da transexualidade, porquanto deixa claro que não basta a vontade livre e consciente do interessado em se submeter à cirurgia de transgenitalização, sendo essencial que seja diagnosticado por uma junta médica e por diversos exames, para que tal procedimento não seja considerado crime de lesão corporal. Vale ressaltar, a respeito disso, que a jurisprudência atual tem afastado a condenação de médicos que realizam tais cirurgias, visto que se tem considerado que elas têm caráter terapêutico, sendo possível, inclusive, que sejam realizadas por meio do Sistema Único de Saúde, conforme anteriormente explanado.

Além disso, não só condiciona a alteração registral do nome à realização da cirurgia de resignação dos órgãos sexuais, nada dispondo acerca da modificação do gênero no registro, como também exige a averbação explícita do status de transexual no registro civil e na carteira de identidade.

Concorda-se com Rocha e Sá (2013), as quais são da opinião de que o Projeto de Lei nº 70/1995, apesar de bem-intencionado, “acaba por ter caráter discriminatório, na medida em que obriga exposição do gênero transexual no assentamento, violando o direito à privacidade”.

Na justificação do projeto, seu autor consigna: “A referência na carteira de identidade sobre ser a pessoa transexual é necessária para que terceiros não aleguem, posteriormente, terem sido lesados pelo próprio Estado quando verificarem que o sexo daquela pessoa não é ‘original’” (DIÁRIO DO CONGRESSO NACIONAL, 1995, p. 4218). Contudo, isso acarretaria, certamente, em discriminação e constrangimento, desafiando o propósito do reconhecimento pleno da identidade daquele que solicitou a alteração registral, porquanto, na esteira do que expressou Sanches (2011, p. 429), esse indivíduo “[...] não seria mulher e também não seria homem, mas sim uma pessoa om o sexo alterado, um terceiro tipo sexual, um transexual – o que atingiria o direito fundamental à dignidade”.

A esse projeto foram apensados diversos outros, tais como o PL nº 3.727/1997, de autoria de Wigberto Tartuce, por meio do qual também é proposta a possibilidade de modificação do nome, mediante autorização judicial, caso o indivíduo transexual haja realizado a cirurgia de transgenitalização. O PL nº 1.281/2011, proposto por João Paulo Lima, igualmente sugere a faculdade de modificação do prenome caso o transexual haja realizado a operação, mas dispensa a necessidade de decisão judicial, dispondo que a alteração pode ser realizada diretamente no Registro Civil. Este projeto tem o claro objetivo de facilitar o acesso à mudança de nome, de forma que seja mais célere e menos penosa.

Elimar Máximo Damasceno, igualmente apensado ao PL nº 70/1995, o qual visa proibir a mudança do prenome aos transexuais. Na justificativa, o autor do projeto discorre acerca da imutabilidade do nome, e enfatiza que “O transexual, em retirando os caracteres sexuais com os quais a natureza o contemplou, atira em Deus a sua revolta”. Vê-se, pois, que o referido projeto é motivado não por apego à letra da lei, mas por razões religiosas, tendo o criador do documento declarado que não se poderia “compactuar com esses descalabros”, urgindo que a lei impeça o Judiciário de permitir “esses desatinos”, ou seja, com bases opostas ao Estado Laico consagrado pela Constituição Federal de 1988.

Também apensado ao projeto inicialmente exposto foi o PL nº 2976/2008, da autoria de Cida Diogo, no qual propõe a adição do art. 58-A, ao texto da Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, possibilitando a utilização, por travestis, de um nome social.

Tem-se em apenso, ainda, o PL nº 4241/2012, da autoria de Erika Kokay, em que a deputada, de forma bastante progressista, procura tutelar o direito à identidade de gênero. Posteriormente, a mesma deputada criou, juntamente com o deputado Jean Wylys, um outro projeto de lei, mais extenso e detalhista, acerca da mesma temática, razão pela qual não se dedicará a sua análise pormenorizada. A este foi apensado o PL nº 1.475/2015, da autoria de Carlos Bezerra e que propõe a permissão ao não preenchimento do sexo do registrando nascido com características intersexuais. Tal projeto parece seguir o exemplo da Alemanha, que oferece a oportunidade, aos pais, de registrar seus filhos recém-nascidos como de sexo indefinido.

O segundo projeto de lei atualmente em trâmite é o nº 658/2011, da autoria de Marta Suplicy, e que possui suas bases na lei de identidade de gênero uruguaia27. Por meio

desse documento, procura-se disciplinar os direitos à identidade de gênero e à troca de nome e sexo nos documentos de identidade de transexuais. Em seu art. 1º, lê-se:

Art. 1º Toda pessoa tem direito ao livre desenvolvimento de sua personalidade, conforme sua própria identidade de gênero, com independência de qual seja seu sexo biológico, anatômico, morfológico, hormonal, de atribuição ou outro.

Parágrafo único. O direito de que trata este artigo inclui o de pleno reconhecimento

da identidade de gênero da pessoa, bem como o direito à consonância entre essa identidade e o nome e o sexo assinalados no respectivo documento de identidade, eleitoral, Registro Civil, passaporte ou qualquer outro.

Um avanço em relação ao PL nº 70/1995 se percebe, especialmente, no que tange à expressa não obrigatoriedade de realização da cirurgia transgenitalizadora para que

27 Lei nº 18.620/2009 – Derecho a la Identidad de Género y al Cambio de Nombre y Sexo em Documentos Identificatorios.

haja a modificação do nome e do gênero no assento civil, conforme consta no art. 3º, § 1º, do referido projeto de lei.

Apesar de louvável o reconhecimento, no documento, de que o gênero de uma pessoa não se limita à sua genitália, em um ensaio de reconhecimento ao direito à identidade de gênero, Bento (2014) critica o fato de a importância do projeto encontrar justificativa na recognição da transexualidade como uma enfermidade, muito embora diversos pesquisadores e ativistas aleguem a ausência de cientificidade de tal enquadramento. De fato, no PL nº 658/2011, tal qual no PL nº 70/1995, confere-se legitimidade ao diagnóstico oferecido pela seara médica:

Art. 3º A adequação documental da menção ao sexo e ao nome poderá ser feita, desde que atendidos os seguintes requisitos:

[...]

II – essa discordância deve ser atestada por laudo técnico fornecido por profissional de qualquer das áreas médica, da psicologia ou da psiquiatria, nos termos dos procedimentos estabelecidos na presente lei.

Em seu art. 4º, § 3º, outrossim, determina que a petição inicial a ser endereçada ao juiz da Vara de Registros Públicos deverá ser instruída com os laudos médico e psicológico28

que atestem a condição de transexual do requerente, “[...]sem prejuízo dos demais meios de prova, tais como depoimentos de testemunhas que conheçam sua vida cotidiana e de profissionais que o tenham atendido em seus aspectos social, mental ou físico”.

Para Bento (2014), a judicialização do procedimento de alteração registral do nome e do sexo, bem como o seu condicionamento à um diagnóstico médico e psicológico, faz com que o projeto de lei em tela perca seu mérito, porquanto os interessados na modificação do registro, atualmente, já precisam recorrer a processos judiciais para ver suas demandas reconhecidas, bem como já dependem da apreciação de laudos e da oitiva de testemunhas pelo juiz, para que este dê seu parecer final. No presente momento, o projeto de Lei nº 658/2011 encontra-se aguardando designação do relator, na Comissão de Constituição Justiça e Cidadania (SENADO FEDERAL, 2015).

O projeto de lei mais recentemente acerca do assunto é o nº 5.002/2013, da autoria de Erika Kokay e Jean Wylys, e que foi apelidado de Lei João Nery, em homenagem ao homem transexual que renunciou a toda a sua história para contornar os entraves legais à

28 Percebe-se que há uma contradição entre este dispositivo e o do art. 3º, II, do PL 658/2011. Enquanto este faculta, ao interessado, obter um laudo psiquiátrico ou psicológico, aquele exige que a petição inicial seja acompanhada de ambos os laudos.

concretização de sua real identidade. Diz a justificativa do projeto que “Foi só dessa maneira, com documentos falsos, analfabeto nos registros apesar de ter sido professor universitário, que ele conseguiu ser João”. É inspirado na trajetória dele que se materializou o referido projeto de lei, que se propõe a garantir que as pessoas que se identificam como trans não tenham que passar pelas dificuldades vividas por João Nery.

O presente PL tem como base a Lei nº 26.743/12, da Argentina, bem como se guia pelos Princípios de Yogyakarta, porquanto propõe o reconhecimento e o respeito plenos à identidade de gênero. Diferentemente das outras duas propostas de lei expostas, busca abrigar, em seu seio, não só os indivíduos transexuais, mas todas identidades transgênero de uma forma geral. Exemplo disso é que o parágrafo único do art. 2º do PL 5.002/2003 preleciona que o exercício do direito à identidade de gênero (grife-se) “[...] pode envolver a modificação da aparência ou da função corporal através de meios farmacológicos, cirúrgicos ou de outra índole, desde que isso seja livremente escolhido, e outras expressões de gênero, inclusive

vestimenta, modo de fala e maneirismos”.

O projeto também dispensa a necessidade de diagnósticos médicos ou psicológicos para classificar um indivíduo como apto a realizar cirurgias de transexualização e para modificar seu nome e seu gênero no registro. Em seu art. 4º, parágrafo único, disciplina que em nenhum caso serão exigidos, para a alteração do prenome: “I - intervenção cirúrgica de transexualização total ou parcial; II - terapias hormonais; III - qualquer outro tipo de tratamento ou diagnóstico psicológico ou médico; IV - autorização judicial”.

A alteração do campo correspondente ao sexo, no assento civil, prescinde da necessidade de trâmites judiciais ou administrativos, sendo apenas necessário que a pessoa interessada, tendo cumprido todos os requisitos dispostos no documento ora em estudo, compareça ao cartório para que seja registrada a mudança, com a nova emissão de uma certidão de nascimento e de uma carteira de identidade, e a comunicação imediata aos responsáveis pela atualização de dados eleitorais, de antecedentes criminais e peças judiciais.

Dentre todos os projetos de lei ora analisados, é o nº 5.002/2013 o mais arrojado. Segundo Andrade (2015, p. 45):

[...] a lei, se aprovada, reposicionará o poder constituinte do discurso médico- jurídico que, durante muito tempo, trabalhou na construção de situações de vulnerabilidade para as identidades e subjetividades, mediante a facilitação ou o retraimento referente ao reconhecimento do direito à identidade de gênero e, portanto, dos princípios constitucionais da igualdade, liberdade e dignidade humana.

O referido PL, na data de 10 de novembro de 2015, recebeu parecer favorável do relator, o deputado Luiz Albuquerque Couto, da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), que votou pela sua aprovação. Em seu voto, ressaltou que a Constituição Federal de 1988 preconiza, como seus fundamentos, a dignidade da pessoa humana, a igualdade de todos perante a lei e a proteção à discriminação por motivo de sexo ou identidade de gênero, a qual, por sua vez, ampara não só os heterossexuais, como as demais formas de viver a sexualidade e o gênero, razão pela qual considera que o Projeto de Lei nº 5.002/2013 supre a lacuna legislativa no que concerne ao direito à identidade de gênero.

Diante da análise dos diversos projetos de lei aqui esposados, vê-se que são inúmeras as propostas que buscam dar cognoscibilidade legal às questões identitárias das comunidades trans. Não obstante a abundância de propostas, até hoje nada foi efetivamente decidido (veja-se que o primeiro projeto data do ano de 1995), razão pela qual, em face do fato de o Legislativo não acompanhar as demandas dessa parcela da sociedade, ganhou relevo uma “solução à brasileira” (BENTO, 2014, p. 175), o nome social.

Benzer Belgeler