• Sonuç bulunamadı

BÖLÜM II - İLGİLİ LİTERATÜR

2.4. ŞİDDET

2.4.3. Şiddet Türleri

A Casa dos Estudantes do Império foi consti- tuída a partir de 1945 e na sequência da Casa de

Angola, tendo esta sido formada em 1944, após

dois anos de preparação. A CEI assumiu então uma actividade regular, interrompida no entanto por comissões administrativas (de 1952 a 1957 e entre Janeiro e Julho de 1961).

54

A partir de Janeiro de 63, o governo português cortou subsídios e passou a impor a este organis- mo a presença de um professor com direito de ve- to nas assembleias (esta situação veio a culminar no encerramento da CEI em 1964). Desta breve História, que podemos encontrar no número 2 de Junho de 1963 da Mensagem, fácil é deduzir que progressivamente a CEI se tornou incómoda e, du- rante os anos 60, por exemplo, constata-se com ni- tidez um posicionamento cada vez mais crítico da CEI em relação ao movimento colonial português a par de formas de expressão literária empenhadas e claramente radicadas na experiência africana.

Este facto não é tão visível no início de exis- tência do Boletim. Assim, quando em finais de 40 surge o seu primeiro número, vamos dar-nos conta da presença de alguns escritores que vinham fa- zendo a sua estreia literária, o que acentua a natu- reza formativa da colaboração nesta fase, bem co- mo o eclectismo das participações. Tais dados são visíveis nas influências mútuas entre os vários es- critores e na diversidade das referências estéticas, desde o recurso à tradição portuguesa, muitas ve- zes epigonal, até à mimetização frequente dos

clássicos angolanos (como Ayres de Almeida San-

tos ou Viriato da Cruz), passando pela experiência neo-realista.

Se tomarmos como exemplo o 1.o número, de

Julho de 1948, verificamos a participação poética de Alexandre Dáskalos, António Neto, Jorge Pinto Furtado e Alda Lara. A todos estes poetas, Mário António reconhece uma angolanidade que tem co- mo pano de fundo princípios de fraternidade e uma expressão de base neo-realista (1990-89).

Quanto a nós tal facto é sobretudo evidente pa- ra o caso dos dois primeiros escritores, já que Al- da Lara assume aquilo que podíamos designar por postura neo-romântica, pela procura de um equilí- brio formal que faz emergir a sua individualidade gritante (aquilo que em nota da secção cultural se designa por feminilidade do seu contributo e se confunde com excesso de optimismo, como pode ler-se a páginas 21 do noticiário dos serviços cul- turais).

Ao proferir a palestra “Os colonizadores do séc.XX”, que vem reproduzida no Boletim, não

problematiza o termo colonial, partindo desde logo para a definição do regresso em sentido conciliató- rio e gregário. Este dado é de algum modo genera- lizável, já que o colonialismo se apresentava por essa altura como fenómeno gerador de imagens de desenvolvimento aproximáveis às da Europa.

“Regressemos, pois!... É necessário que com-

preendamos, e principalmente façamos compreen- der a segundos, quão importante é o desenvolvi- mento de Angola, (...)”.

O entusiasmo da poetisa parece dever-se aqui mais à certeza absoluta da sua nacionalidade ango- lana, mesmo se definida como ultramarina, que a uma leitura acrítica das formas de expansão co- lonial.

A marca de individualidade quase autobiográ- fica da sua poética é ainda confirmada em “Re- gresso” “Sim, eu hei-de voltar,/ tenho de voltar...,

/Não há nada que me impeça!... /(...) que em fren- te, /está a terra angolana, /a prometer o mundo a quem regressa!... /Oh! quando eu voltar!... /Hão-de as acácias, rubras, /a sangrar, /numa verbena sem fim, /florir só para mim...”.

No número triplo de Abril de 1949, vamos en- contrar o seu poema “Rumo” (datado de Fevereiro desse ano e dedicado a João Dias) e uma vez mais se confirma a imagem possível de uma terra que tem todo um caminho por cumprir e que só o po- derá realizar pela aceitação da sua natureza solidá- ria: “Que as minhas mãos brancas/se estendam,

para acariciar as faces negras/dos teus filhos.../e o meu suor/se junte ao teu suor,/quando rasgar- mos os trilhos/de um mundo melhor/...”.

Para Alda Lara, a visão de um mundo de fixa- ção utópica é situável no próprio espaço angolano tal como o conhece e recorda, e isso é talvez o que a faz distinguir-se mais claramente dos poetas Alexandre Dáskalos e António Neto. Identifica- mos nestes um tratamento da questão angolana menos centrado na sua própria experiência, e defi- nindo, por vezes em sentido épico, o retrato da condição do negro, através de um discurso mais interessado na reivindicação e na denúncia por via de transformações visíveis. “Exortação” (”A Amé-

rica é bem teu filho/arrancado à força do teu ven- tre (...)” e ”Canção de embalar meninos pretos”,

respectivamente de cada um daqueles autores, são disso exemplo. Assim, há uma leitura que pode- mos designar por masculina (por diferenciação com o mencionado para Alda Lara), da situação do homem africano negro, patente também no in- teresse pelos fenómenos de desagregação cultural e social, pelos problemas da propriedade (como em “O que é S. Tomé” de A. Dáskalos, incluído no número triplo de Out-Nov-Dez de 1948).

Embora estes pressupostos se nos afigurem dominantes, podem apontar-se naturalmente exemplos de natureza menos reivindicativa como

em “Buscando o rumo, I e II, poema sobre a pro- cura de um caminho de renovação e nascimento (Jan de 1949), de Dáskalos ou em “Poema” de António Neto (Maio-Dez de 1949).

Deve merecer aqui destaque o poema “Pulso”, deste último autor, já que coloca a possibilidade de um programa para Angola, na assunção de um projecto amplamente participado e interventivo (“(...) nós somos a terra, irmão/de que brotará

o pão/para matar as fomes do futuro”).

De um quadro de valores afim vive também a poesia de Amílcar Cabral, tanto com “Rosa Ne- gra”, em que faz dos estereótipos da mulher afri- cana argumento de uma África liberta (do mesmo modo Alda do Espírito Santo, em “Luares de Áfri- ca” — Jan de 1949 — considerando que a situa- ção da mulher africana não pode ser a das lendas, aventuras e romances, devendo antes ver-se sobre um plano real estabelecido).

Complementar a esta ideia, ocorre o sentido da revolta explicitamente invocada por Amílcar Ca- bral em “Poema” (escrito em Lisboa em 1946 e incluído no número 11 de 1949).

Tais imagens do despertar de África, do seu renascimento, hão-de encontrar, pelo menos par- cialmente, filiação nos movimentos pan-africanos e terão consequências no debate que ao longo das décadas de 50 e 60 se irá travar em torno da defi- nição de negritude e da sua aplicabilidade ao caso africano lusógrafo.

Ao longo dos vários números da Mensagem, de 1948 e de 1949, devem mencionar-se ainda ou- tros autores pela diversidade das suas escolhas formais, sendo menos clara a opção por uma te- mática de base africana ou de algum modo dela dependente. Assim, há a considerar, e de Jorge Pinto Furtado, o recurso em “Meio-dia em Luan- da” ao verso regular de 5 sílabas métricas, com ri- ma. Por outro lado, António Navarro revela a sua formação presencista. Joaquim Pegado Cardoso, Heliodoro Guitana, Vítor Hugo e Marilisa (esta numa imitação clara de Florbela) optam pelo re- curso ao soneto sobre motivos diversos e não ati- nentes a África em particular.

Sendo sobretudo notória a participação de poe- tas angolanos nestes números, não podemos deixar de referir as representações moçambicana e cabo- -verdiana. No primeiro caso, lembramos as parti- cipações de Fernando Bettencourt, Orlando de Al- buquerque, António Navarro, Vítor Evaristo, Vítor Matos. Almeida Santos, em “Afonso, o quioco” recorre à mimetização do falar indígena, por meio

do verso em redondilha maior, a conferir uma re- gularidade métrica e um tom popular à composi- ção.

Estes autores, do mesmo modo que os angola- nos, revelam uma grande diversidade de posições estéticas, que podemos ilustrar entre a postura eu- rocêntrica de António Navarro, ilusoriamente pou- co marcada por África como em “Poema VI” (“Deveis ter uma poesia qualquer,/Mas eu apenas

sinto a poesia aqui/No homem branco que a não sente,/No afeiçoar a natureza a si. (...) e a minha casa/Gosto-a mais asa,/caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.”) e o poema exortativo de

Orlando de Albuquerque “Surge et Ambula” Áfri- ca.

Luís Ribeiro, no domínio da prosa de ficção, escreve “Sonata”, conto publicado em 1944 em Lourenço Marques no jornal “Agora”, uma narra- tiva sobre a morte e o seu conhecimento.

Deve mencionar-se que a prosa de ficção é menos divulgada que a poesia neste Boletim, o que aliás mereceu da parte de Rui Nazaré, no número de Fev-Abr de 49, o comentário à neces- sidade de rectificar essa situação. Na verdade, tal fenómeno manter-se-á nos anos seguintes e só na década de 60 iremos assistir a uma mais profusa ocorrência de textos ensaísticos e de contos.

Considerando a colaboração de Cabo Verde, há a referir Baltazar Lopes e Aguinaldo Fonseca. Nestes autores é muito clara a natureza particular do discurso que vai manter-se sempre à parte do que ocorre nos restantes universos literários. Com um excerto de “Chiquinho”, do primeiro, e “Estia- gem”, do segundo, revelam-se as persistentes for- mas de representação das carências e dos fenóme- nos humanos e sociais ligados à sua superação, dadas por uma linguagem que incorpora sem con- flito ou redundância os próprios ambientes para que remete.

Voltando ao que inicialmente afirmávamos, o que mais salta à vista ao longo destes dois anos de edição, é a natureza simultaneamente homogé- nea e divergente do discurso poético. Marcado por um acentuado sincretismo, dá a demonstrar, não a existência de uma escola ou de um método, mas a hesitação perante os contornos da relação entre os mundos culturais português e africanos particu- lares. Por outro lado, não deixa de revelar um es- forço de conciliação de leituras e de discursos, su- gerindo um caminho que se pretende convergente e gregário.

56

Benzer Belgeler