Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem,
estão é em quem faz; não é no efeito que dão. (Grande Sertão: Veredas)
Todavia, Miguilim não completará sua estória, já que um novo problema das pessoas grandes se interpõe entre ele e sua fantasia. Tio Terêz o incube de uma missão inglória: entregar um bilhete dele para sua Mãe. Como um ser da floresta, que Miguilim não reconhece de pronto como um homem, o Tio sai “detrás das árvores” e, invocando a amizade e a honra que deveria haver entre os dois, o elege como mensageiro daquele segredo. “Tio Terêz tinha falado feito numa estória: – ‘... amigos de todo guerrear, Miguilim, e de não sujeitar as armas?!...’ ” (CG: 84). Tio Terêz incube Miguilim dessa missão recorrendo a valores medievais de honra e amizade entre cavaleiros, como os de Carlos Magno e os Doze Pares de França, estória amplamente conhecida e divulgada pela Literatura Oral.
Miguilim bota o bilhete (o fetiche da palavra escrita) na algibeira, corre pra casa, e lá chegando não o entrega, mas tenta fugir daquele fardo. “Miguilim todo o tempo quase não pensava no bilhete, resolvia deixar para pensar no outro dia, manhã cedo” (CG: 85). No dia seguinte, em dúvida sobre o que deveria fazer, Miguilim questiona os outros sobre o que é malfeito e o que é bem-feito, sobre o certo e o errado. Como os heróis dos Contos de Fada, Miguilim, apesar de todas as agruras por que passa, preocupa-se em fazer o
que é certo. Essa atitude mostra como o menino estava impregnado pelo caráter moralizante das estórias que costumava ouvir, pois a “coisa mais difícil que tinha era a gente poder saber fazer tudo certo, para os outros não ralharem, não quererem castigar” (CG: 88). Miguilim ouve várias pessoas da casa, mas até o irmão Dito não oferece solução, se mostrando relativista: “ – Olha: pois agora que eu sei, Miguilim. Tudo quanto há, antes de se fazer, às vezes é malfeito, mas depois que está feito e a gente fez, aí tudo é bem-feito...” (CG: 87). No dia seguinte, a caminho da roça, ainda tenta achar uma solução, já que não tivera coragem de entregar o bilhete à mãe.
(...) Tinha pensado tudo que podia dizer e não fazer? Não tinha. – “Tio Terêz, eu entreguei o bilhete a Mãe, mas Mãe duvidou de me dar a resposta...” Ah, de jeito nenhum, podia não, era levantar falso à Mãe, não podia. Mas então não achava escape, prosseguia sem auxílio de desculpa, remissão nenhuma por suprir. Sem tempo mais, sem o solto do tempo, e o tamanho de tantas coisas não cabia em cabeça da gente... Ah, meu-deus, mas, e fosse em estória, numa estória contada, estoriazinha assim ele inventado estivesse – um menino – um menino indo levando o tabuleirinho com o almoço – e então era que o Menino do Tabuleirinho decifrava de fazer? Que palavras certas de falar?! – “Tio Terêz, Vovó Izidra vinha, raivava, eu rasguei o bilhete com medo d’ela tomar, rasguei miudinhos, tive de jogar os pedacinhos no rego, foi de manhãzinha cedo, a Rosa estava dando comida às galinhas...” – “Tio Terêz, a gente foi a cavalo, costear o gado nesses pastos, passarinhos do campo muito cantavam, o Dito aboiava feito vaqueiro grande de toda-a-idade, um boi rajado de pretos e de verdes investiu para bater, de debaixo do jacarandá- violeta, ái, o bilhetezinho de se ter e não perder eu perdi...” Mas, aí, Tio Terêz não era da estória, aí ele pega escrevia outro bilhete, dava a ele outra vez; tudo pior de novo, recomeçava. (CG: 93-4)
Quando Miguilim volta da sua viagem ao Sucurijú, onde fora receber o sacramento da Crisma, seus irmãos, Tomezinho e Dito, indagam se ele havia trazido presente para eles, como fizera para Chica. Como nada trouxera, Miguilim tenta inventar uma mentira que era uma estória: “– Estava tudo num
embrulho, muitas coisas... Caíu dentro do corgo, a água fundou... Dentro do corgo tinha um jacaré, grande...” (CG: 32). Como muitos contadores que terminam as suas estórias dizendo que derrubaram a prova da veracidade do que contaram (um objeto, como uma cesta de doces) no rio, Miguilim usa desse subterfúgio para escapar do julgamento dos irmãos41. Com tio Terêz, ele pensa em fazer a mesma coisa. Retoma o personagem do Menino que nada mais é do que uma representação dele mesmo. Mas o ardil não funciona porque “Tio Terêz não era da estória”. O bilhete continha uma informação real e poderosa o suficiente para invalidar quaisquer estórias que pudesse criar para negá-la. Sem mais alternativas, conta-lhe a verdade. Aquela que parecia ser a opção mais remota se torna a mais acertada. Tio Terêz compreende a afliçãozinha de Miguilim. “Tio Terêz beijava Miguilim, de despedida, daí sumia por entre o escuro das árvores, conforme que mesmo tinha vindo” (CG: 95). Mesmo tendo bebido “um golinho de velhice” (CG: 89), Miguilim aceita a verdade como parte essencial de tudo o que é bem-feito.
41 Muitos contos fazem uso desse truque para assegurar alguma veracidade ao conto ou só
para fazer graça com o ouvinte/leitor. Monteiro Lobato já diz em Histórias de Tia Nastácia: “E tia Nastácia rematou a história repetindo o mesmo finzinho de sempre: ‘E eu lá estive e trouxe um prato de doces, que caiu na ladeira.’ (1960:29). Câmara Cascudo ainda enumera outros exemplos do motivo: “Foram três dias de festas e danças e até eu me meti no meio, trazendo uma latinha de doce, mas, na ladeira do Encontrão, dei uma queda e ela, pafo! – no chão!...” (2000:82) e “Foi uma festa que durou três dias e eu estive lá, comendo do bom e do melhor e não arranjei nada pra vocês porque vim comendo no caminho...” (2000:113).