Com o processo de agravamento da crise estrutural do capital, as mudanças estratégicas do sistema capitalista referente à educação transformaram-se em pauta principal para o Banco Mundial. Em defesa de um discurso em que os investimentos em educação seriam capazes de resolver problemas como fome, pobreza e desigualdade, esse discurso converteu-se no slogan direcionador das políticas educacionais dos países periféricos. Sob esse discurso de uma educação redentora revela-se, no entanto, a necessidade sistêmica de adequar a educação ao viés neoliberal. A respeito da educação profissional, é evidente o objetivo em aumentar “[...] ainda mais, a dicotomia existente entre educação universal para a elite e a formação para o trabalho destinada às classes populares” (SANTOS, 2005, p. 68).
Os investimentos em políticas de formação profissional sempre foram vistos com “bons olhos” pelo Banco Mundial, embora a educação básica seja hoje, o principal reduto de investimentos e de orientações, a educação profissional também não tem sido deixada de lado pelo organismo; não à toa, a qualificação de mão-de-obra é tida como uma prerrogativa indispensável para o desenvolvimento das economias e da competitividade. Assim, é substancial que principalmente os países periféricos tenham uma formação de mão-de-obra voltada para a flexibilidade e para a adaptação. Esta, contudo, não deve ser uma obrigação apenas do Estado, para o Banco Mundial, a abertura para que a iniciativa privada tenha ampla participação nesse processo formativo é fator primordial, pois, em termos de eficiência, o setor privado poderia melhor preparar os trabalhadores, acompanhando o ritmo das mudanças no setor produtivo e adequando a formação às novas exigências do mercado.
Ao considerar que a qualificação dos trabalhadores deve, impreterivelmente, ser feita atrelada às reais demandas do mercado, as recomendações da instituição econômica assinalam para uma formação que de preferência seja de curta duração, tendo em vista a redução de custos e a maior eficiência para o mercado. Dentre suas recomendações, alerta Oliveira
(2001) que, para o banco, o estado é ineficiente na formação dos trabalhadores e deve deixar a cargo do setor privado o controle da educação profissional e que dentre as orientações para reformulação de suas estratégias, a melhor forma de atender plenamente as necessidades do mercado “[...] consiste em transferir o financiamento público daqueles que proporcionam treinamento para o lado da demanda do mercado, possibilitando à população-alvo de trabalhadores comprar treinamento num ambiente onde existe concorrência entre fornecedores alternativos”(BANCO MUNDIAL, 1995 apud OLIVEIRA, 2001, p. 1).
Como bem já constatamos, a agenda neoliberal foi aceita no país a partir de 1990 e houve, nesse sentido, não só a incorporação das recomendações do Banco Mundial nas políticas educacionais, mas a transformação dessas orientações no plano de ação dos governos, isso é, o que começou como uma concessão dada por imposição em troca de financiamento tornou-se numa agenda consentida, na medida em que os governos passam também a defender a agenda neoliberal. Nesse sentido, a partir dessa década houve experiências de programas que foram fidedigna expressão dessa agenda; dentre eles, o mais recente é o Pronatec, objeto de estudo do nosso próximo capitulo.
Seguindo o fio da meada para chegarmos finalmente ao Pronatec, as concepções e propostas transformadas em cursos para a qualificação das classes trabalhadoras permeou todos os governos a partir do governo FHC. Em 1995, foi implementado o Plano Nacional de Qualificação Profissional (PLANFOR), sob a coordenação do Ministério de Trabalho, que vigorou até 2002, sendo financiado pelo Fundo de Amparo do Trabalhador. O programa teve como objetivo a ampliação do acesso a qualificação e requalificação profissional, para inserção ou reinserção no mercado de trabalho para a população economicamente ativa, melhoria da produtividade, aumento da competitividade e metas ligadas a objetivos sociais como diminuir a desigualdade, o analfabetismo, aumentar a renda das famílias entre outros, sendo considerado um programa de grande abrangência nacional.
O Planfor tinha como orientação para sua atuação, o desenvolvimento de habilidades básicas que seriam competências e conhecimentos gerais, voltadas para o mercado e orientação profissional; habilidades específicas, que seriam as competências e técnicas próprias da ocupação e habilidades de gestão, isto é, as competências acerca da gestão e autogestão, com ênfase em cursos de curta duração. A execução desse programa ocorria por meio dos Planos Estaduais de Qualificação, no qual eram promovidos projetos e ações de educação profissional por meio da atuação da rede de ensino profissional e também pelas Parcerias Nacionais e Regionais, em que eram feitas parcerias com outras instituições, que desenvolveria em âmbito nacional as ações e projetos.
No processo de avaliação o programa mostrou-se ineficiente, pois “[...] além do mau uso dos recursos públicos, caracterizou-se pela baixa qualidade e baixa efetividade social, resultante da precária articulação com as políticas de geração de emprego e renda, desarticulação com as políticas de educação [...]” (MOLL, 2010, p. 256). De forma que, a partir do ano de 2003, já no mandato de Lula, foi apresentado um novo programa em substituição do Planfor, o Plano de Qualificação Nacional (PNQ), que teve vigência até o ano de 2007.
A articulação do PNQ buscava uma reformulação estratégica das estruturas que se mostraram ineficientes no Planfor, na medida de definir as novas bases da política de qualificação do país. Dessa maneira, o programa se consubstanciou como uma ação política a fim de transformar a qualificação do trabalhador em um direito e uma política pública. Pautado em seis dimensões, a saber: política, ética, conceitual, institucional, pedagógica e operacional, o PNQ, teve como pretensão a promoção de ações de qualificação que se articulassem com as políticas de emprego, renda e educação. De acordo com o Art. 2º da Resolução nº 333/2003, os objetivos do programa deveriam contribuir para: I- a formação integral dos trabalhadores; II- redução dos níveis de desemprego e subemprego; III- elevação da escolaridade dos trabalhadores; IV- inclusão social e redução da pobreza; V- aumento da probabilidade de permanência no mercado de trabalho; VI- elevação da produtividade e melhoria da competitividade; VII- consolidação do Sistema Nacional de Formação Profissional articulado ao Sistema Público de Emprego e ao Sistema Nacional de Educação (PNQ 2003/2007, 2003, p. 26).
Embora tenha se afirmado como um programa a ser garantido como um direito universal, ao mesmo tempo elegeu um público alvo constituído por trabalhadores em diversas condições, tais como: desempregados, rurais, autônomos domésticos, egressos do sistema penitenciário entre outros, estabelecendo dentre esses segmentos que a preferência de acesso estaria assegurada para a camada mais vulnerável da sociedade.
O financiamento do programa também era advindo dos recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador. Em termos de execução, o PNQ ocorria por meio dos Planos Territoriais de Qualificação e pelos Projetos Especiais de Qualificação. Em comparação ao Planfor, os cursos tinham carga horária maior, com média de 200h e no mínimo de 80h, com obrigatoriedade 20% da carga horária ser destinada a “[...] conhecimentos sobre saúde e segurança no trabalho, educação ambiental, direitos humanos, sociais e trabalhistas, informação e orientação profissional e gestão do trabalho, aplicados à realidade local, às necessidades do/a trabalhador/a e ao mercado de trabalho” (PNQ 2003/2007, p. 32). Todavia, em fins avaliativos, de acordo com Moll (2010, p. 258), dentre os vários fatores que contribuíram para a não
efetivação do programa, destacou-se a falta de interesses das próprias agencias formadores e do público alvo, enquanto o primeiro referiu-se ao desinteresse pelos investimentos para cursos de longa duração, o segundo ansiava por uma inserção no mercado de trabalho a curto prazo.
No mesmo governo, a articulação para uma política nacional destinada aos jovens em situação de menor escolaridade e desemprego corroborou com a regulamentação sob a Lei nº 11.129/2005 do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem). Alterado pela Lei nº 11. 692/2008, consoante com seu Art. 2º, o programa destina-se a jovens entre 15 e 29 anos, tendo como objetivo a promoção da reintegração ao processo educacional, a qualificação profissional e o desenvolvimento humano. No mesmo artigo são ainda estabelecidas as modalidades de desenvolvimento do programa, a saber: I- Projovem Adolescente/ Serviço Socioeducativo; II- Projovem Urbano; III- Projovem Campo/Saberes da Terra; e IV- Projovem Trabalhador.
O programa foi instituído perante uma pareceria entre a Secretaria Geral da Presidência da República, o Ministério da Educação, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, prevendo em sua execução a parceria com as prefeituras municipais por meio de convênios. A nortear-se pelos princípios de integração entre educação básica e a qualificação profissional, o Projovem busca a promoção da equidade social por meio de uma formação que alia teoria e prática, formação e ação. Dessa forma, os cursos oferecidos seguem a regulamentação do Parecer CNE/CEB nº 37/2006 que assim dispõe em seu terceiro capítulo, sobre a formação:
Artigo 9º - A formação integral propiciada pelo Programa, em período de doze meses, compreenderá, no mínimo, oitocentas horas destinadas à formação escolar, objetivando a conclusão do Ensino Fundamental; trezentas e cinqüenta horas destinadas à Qualificação Profissional inicial para o trabalho; e cinqüenta horas destinadas ao desenvolvimento de atividades de Ação Comunitária, totalizando 1.200 horas de atividades presenciais, às quais se acrescentam quatrocentas horas de atividades não presenciais, orientadas pelos educadores do ProJovem, totalizando 1.600 horas de efetivo trabalho escolar. Parágrafo Único - O percurso formativo do ProJovem será organizado em quatro unidades, com duração de três meses cada uma, nas quais os diferentes componentes curriculares se integram em eixos temáticos estruturantes que estabelecem, entre si, a progressão das aprendizagens, de forma contínua e articulada (MEC, 2006, p. 6).
Em análise conjectural, é pertinente avaliar que o Projovem como os outros programas aqui investigados deram de conta sempre de um público especifico, e o fato de colocarem os desvalidos da sorte como público prioritário, fato que se repete na história educacional, tem corroborado, contudo, com políticas que tenham como único objetivo formação de mão-de-obra para o mercado capitalista, isso indica em medidas paliativas, que
subentendidas nas entrelinhas dizem sempre sobre a subserviência aos imperativos do mercado e a reprodução da divisão das classes sociais.
De fato, ao fim desse capítulo, concluímos nosso trajeto que nos permitiu chegar ao nosso objeto de estudo, compreendendo todos os aspectos que o fundamentam ideologicamente, pelo entendimento das concepções e teorias da sociedade do conhecimento e pelas recomendações dos organismos multilaterais e estruturalmente, através do resgate histórico das políticas de educação profissional no país, que atualmente dão suporte legal para a regulamentação do Pronatec.
4 O PRONATEC EM DEBATE: O NOVO MODELO DE FORMAÇÃO