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ŞİDDETLİ KAN ŞEKERİ DÜŞÜKLÜĞÜNÜN (HİPOGLİSEMİNİN) ÖNLENMESİ VE TEDAVİSİ İÇİN ÖNERİLER

Em estudo recente, o historiador Raphael Sanchez disserta sobre as representações do ioga no Brasil sob a figura de Hermógenes e DeRose. A dissertação de Sanchez em suas considerações finais demonstra como a mídia brasileira – a partir da análise de capas das duas maiores revistas direcionadas ao público ioguico no país - “demonizou” o tradicionalismo defendido por DeRose enquanto percebe em Hermógenes o “mais querido e referência espiritual” no país (SANCHEZ, 2014).

Durante os anos de 1900-1960, o ioga brasileiro permanecia circunscrito a meios esotéricos das grandes fraternidades ocultistas, predominantemente da elite brasileira e nada conhecido do público em geral. Era um ioga sem características próprias e fazendo parte de uma colcha de retalhos mística e mágica. A partir dos anos de 1960-1990, o ioga brasileiro foi construindo a sua própria identidade, aonde o aspecto terapêutico-cristão-espírita de Hermógenes sobressaiu-se ao ortodoxo- mágico-hinduísta de DeRose.

As trajetórias de Hermógenes e DeRose possuem similaridades. Ambos desenvolvem seus trabalhos com o ioga no Rio de Janeiro e, apenas da diferença de idade, são contemporâneos. Os dois também publicam muitos livros e se dedicam com afinco na divulgação do ioga com distintas particularidades e não possuem um guru ou mestre de referencia propriamente dito, que os indiquem a seguir uma “tradição” por assim dizer. A diferença mesmo reside na posição ideológica que adotam.

O Prof. Hermógenes foi um capitão da reserva do exército brasileiro que aos 35 anos de idade, em 1955, é diagnosticado com tuberculose. O ioga entra nesse período, como é descrito em bibliografia (CARUSO, 2012, p.18). Hermógenes dedica-se, durante o repouso obrigatório para o tratamento, lendo, relaxando, meditado, autossugestões e vivências espirituais. Em 1960, lança o seu primeiro livro,

Autoperfeição com Hatha Yoga e em 1962 abre a Academia Hermógenes. Como não

existia literatura sobre ioga e muito menos, como dissemos, líderes de ioga autorizados por qualquer tradição indiana, as primeiras leituras de Hermógenes foram

as obras Sport et Yoga, de Selvarajan Yesudian e Elisabeth Haich e The Yoga System

of Health and Relief from Tension, de Yogi Vithaldas (Ibid., p.35). A perspectiva

medicinal do ioga foi porta de entrada para Hermógenes que foi revelando a dialética cura-salvação até o final de sua vida.

Desejo tirar de você a ansiedade por curar-se depressa, mostrando o andamento da libertação. A cura demasiado rápida, em muitos casos, é ilusória. Não pretendo para você uma frustradora pseudocura. O que realmente lhe convém é cada vez uma dose maior de sattvidade [refere-se aqui ao conceito de sattva que já comentamos e associamos ao estado de homeostase], de paz, de integração de si mesmo e maior penetração nos planos mais divinos de seu ser (HERMÓGENES, 2011, p.81).

Outra forte aproximação para o ioga praticado e disseminado por Hermógenes é a do sincretismo com o cristianismo e espiritismo. Hermógenes é hábil em alinhavar os conceitos da teosofia com o ioga, budismo e Jesus. Seus livros como Yoga

caminho para Deus (1975), Superação (1975), Yoga, paz com a vida (1978), Convite a não-violência (1983), Deus investe em você (1985), O essencial da vida (1989) e Viver em Deus (1992), representam a tônica do hibridismo que queremos revelar

como diretriz do ioga que professa (SANCHEZ, 2014, p.51-53). Além do cristianismo, Hermógenes estabelece um vínculo de discípulo do guru indiano Sai Baba, tornando-se o principal difusor da mensagem do mestre no Brasil e Portugal. Em sua biografia, relata-se o aparecimento da silhueta de Sai Baba por trás do iogue brasileiro (CARUSO, 2012, p.95). Há o registro também de carta psicografada por intermédio de Chico Xavier, do espírito Bezerra de Menezes endereçada a Hermógenes, confirmando “que o seu trabalho tem a ajuda de uma elevada equipe espiritual de apoio” (Ibid., p.73).

Essas e outras referências de renome espiritual no Brasil e no mundo, vão gabaritando um iogue brasileiro, sem tradição legitimada no contexto ioguico, a justificar e autorizar o seu discurso iogaterapêutico:

Na pessoa nervosa, os “corpos” ou “planos de ser” se encontram em desarmonia. Seus nervos e glândulas estão em desarranjo. O estresse pode ter origem na perturbação da economia energético-vital. Pode ser gerado por emoções em conflito, bem como resultar de estarmos afastados dos níveis divinos do Espírito. Pode ser que tudo isso junto, interagindo, é que mantém o sofrimento. Yoga é a redenção desse sofrimento, mercê de seu poder hamonizador e reequilibrante. Onde reina o caos, o yoga leva o cosmo. Razão por que se constitui salvação contra o nervosismo. Se você não é nervoso, salva-o, preventivamente. Se já o é, salva-o curativamente. Nervosismo é desarmonia. Yoga é harmonia. Yoga e estresse não coexistem

(HERMÓGENES, 2011, p.45).

De um modo geral, como mesmo afirma Sanchez, são muitas as frentes que buscam construir a imagem de Hermógenes em torno de um líder ioguico legitimado (SANCHEZ, 2014, p.58).

O iogue DeRose, por outro lado, foge dos sincretismos religiosos, apesar das aproximações que desenvolveu no seu início com a sociedade Rosa Cruz e presença em uma sessão de umbanda, relatado em sua própria autobiografia (DEROSE, 2006, p.45-94). No entanto, o que fica presente é a sua ortodoxia com relação aos hibridismos de Hermógenes:

O Yôga (yoga) proporciona saúde e vitalidade, mas se pessoas enfermas ou idosas tentarem praticar, terão que satisfazer-se com uma interpretação tão extremamente simplificada e adaptada que termina comprometendo a autenticidade e transformando-se numa outra coisa que não pode mais chamar-se Yôga (yoga), nem tem a mesma proposta.47

O iogue DeRose busca fundamentação de sua tradição (hoje método) em estudos, segundo ele, de antigos textos (que ele nunca revela) que eles mesmo codifica e que afirma terem origem pré-védica. Com essa retórica, anula qualquer tipo de especulação de sua veracidade. De qualquer modo, DeRose toma um caminho totalmente oposto a que Hermógenes enveredou: em um modelo tipo “empresarial” aonde seus professores/discípulos se filiam a sua escola/tradição/método e são proibidos de ler livros não autorizados por ele e ameaçados de expulsos imediatamente caso infrinja qualquer regra. O seu discurso é altamente sectário portanto, ao contrário de Hermógenes que nem curso de formação desenvolveu formalmente, todos os seus professores foram formados pelo contato direto com as aulas dele. Segundo o próprio Sanchez:

Por meio de um discurso de autenticidade, DeRose criou elementos que lhe deram suporte para negar as outras modalidades, vistas como formas deturpadas de Yoga, cuja memória não merece ser acessada. Uma memória impedida que pode ser nociva e comprometedora dos estudos daqueles que a acessarem. Dessa forma, recomenda não frequentar outras escolas, outras

47

Disponível em: http://www.uni-yoga.org/cultura-e-entretenimento/tudo-sobre-yoga/#iten7. Acessando em 30/06/15.

egrégoras e não experimentar outros métodos. (SANCHEZ, 2014, p.64)

Dessa forma, DeRose deslegitima o iogaterapia de Hermógenes como “formas deturpadas de Yoga”, e considera o seu método (Swasthya Yôga) “pré-védico”, portanto, numa posição irrefutável, pois se trata de um conhecimento oral antes de qualquer escritura que a possa autorizar. No entanto, a partir do final de 1990 e início dos anos 2000, o Brasil recebe, com maior volume, institutos e organizações de ioga com base na Índia e outras denominações norte-americanas. Com a abertura de novos modelos de ioga, por assim dizer, a autoridade desses dois grandes líderes de ioga no país decresce, culminando com DeRose retirando em meados de 2004 o nome ioga de suas escolas e optando por “Método DeRose de qualidade de vida”. O ioga, como os próprios entrevistados no próximo capítulo revelarão, passa por uma transição no Brasil, pois o próprio DeRose agora, mais do que sair do microuniverso ioguico brasileiro, parece não mais acreditar no ioga como via salvífica. Seu método agora se utiliza também de outras técnicas para “o desenvolvimento pessoal”, como ele mesmo diz. Será o ioga híbrido e permissivo de Hermógenes vencendo a ortodoxia e elitismo de DeRose ou apenas a virada de mais uma fase nos ajustes e acomodações do ioga latino-americano?

Para compreender o sucesso de um e o fracasso de outro, é necessário antes partir de uma outra perspectiva que não revelamos: não há vencedores e perdedores. O ioga, como estrutura religiosa autônoma e ainda em processo, mantém a sua lógica a partir do jogo entre iogues híbridos e ortodoxos. Dito de outra forma, sem a permissividade sincrética dos híbridos, personalizado na figura do Prof. Hermógenes, o ioga não teria se popularizado e galgado os laboratórios de fisiologia científicos. Por outro lado, os sincretismos advindos dos iogues híbridos poderiam ter diluído os ensinamentos ioguicos em meio as mais diversas construções, se não existissem os iogues tradicionalistas que freiam aos avanços híbridos e promovem, através do sectarismo e mecanismos retóricos de deslegitimação de discursos, o resgate e manutenção de conceitos caros ao ioga. O contorno que desenha e determina certa estrutura do ioga brasileiro é assegurado pelos discursos contraditórios e ambivalentes de híbridos e tradicionais.

Enquanto DeRose deixa claro que ioga “é qualquer metodologia estritamente prática que conduza ao samádhi”. Hermógenes afirma que: “O verdadeiro religioso

faz do relaxamento um ato essencialmente místico. Para ele o relaxamento é um modo prático, concreto e vivencial de rezar. No relaxamento, confia-se em Deus”. Com isso em mente, no próximo capítulo, revelarei que a reforma na proposta salvífica do ioga brasileiro desenvolveu discursos díspares, mas inclusivos. Em outras palavras, o hibridismo de Hermógenes e o tradicionalismo do DeRose, diferentes no formato, são complementares no microuniverso ioguico brasileiro. Enquanto a ala híbrida vincula- se com o catolicismo popular brasileiro e biomedicina ocidental e pouco com os elementos hinduístas; os tradicionalistas estão em constante alerta a traduções do ioga sem o devido respaldo das suas escrituras.

Talvez a reforma soteriológica em processo no país se fez necessária - período este que os iogues entrevistados a seguir se reportarão como “fase de transição” - para desenvolver a versão iogaterapêutica de Hermógenes, hegemônica no país por mais de setenta anos, menos pragmática devido a sua aproximação e apropriação da ciência. Assim, hoje, a teoria dos klesas, a experiência mística do samadhi e o estado libertador de kaivalya não pareçam mais estar fundamentadas nas escrituras tradicionais hinduísta tão-somente, mas estabelecendo-se dialeticamente entre saúde- salvação. As entrevistas a seguir confirmarão aprofundarão essa discussão.