A partir da cultura das mídias, de acordo com Santaella (2003), a cibercultura estava predestinada a acontecer. Interessante pontuar neste momento que cibercultura é o nome que
11 Referente àquele que recebe a informação.
a cultura digital passa a receber, designando a noção da cultura que se desenvolve e se prolifera no ciberespaço, ou seja, o espaço virtual das redes. Portanto, pode-se considerar o ciberespaço como uma espécie de sinônimo da internet e das possibilidades que com ela se descortinaram.
A internet, em uma definição de Derrick Kerckhove (2009), é uma rede de redes que permite a transmissão e coloca o controle nas mãos do internauta, os quais a procuram. Trata- se de um cérebro vivo, coletivo que vem do subconsciente da inteligência coletiva e é constituída por mais infinitas informações incalculáveis. Podemos navegar por ela e locomovermo-nos como se fosse uma autoestrada da informação (KERCKHOVE, Ibid.). Aqui, há uma associação conceitual ao corpo humano, em particular à nossa mente como parte dele. A difusão dessas ondas informacionais na atmosfera cria um ambiente suave, claro, com vibrações parecido com a mente humana e as sinapses neurônicas.
Até hoje, a internet continua a se ampliar tanto em número de usuários quanto nos seus tipos de aplicações. Ela é formada por redes locais, redes metropolitanas e redes mundiais, conectadas por telefones, satélites, microondas, cabos coaxiais e fibras óticas, permitindo a comunicação com os computadores que utilizam protocolos comuns, isto é, regras e acordos que possibilitam a conexão e comunicação entre máquinas diferentes (SANTAELLA, 2004, p. 88).
Lévy (2010, p. 128) classifica a internet como “um dos mais fantásticos exemplos de construção cooperativa internacional”, que se iniciou de baixo e cresceu por múltiplas iniciativas. Com isso, defende o ciberespaço como uma prática comunicacional de aspecto interativo, recíproco, comunitário e intercomunitário. “(...), o ciberespaço como horizonte de mundo virtual vivo, heterogêneo e intotalizável do qual cada ser humano pode participar e contribuir” (Ibid., p. 128). Em outras palavras:
A emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma revolução geral da civilização. Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas. (...). Não há uma “causa” identificável para um estado de fato social ou cultural, mas sim um conjunto infinitamente complexo e parcialmente indeterminado de processos em interação que se autosustentam e se inibem (Ibid., p. 25).
Para Lévy (2010), quando a técnica condiciona, significa que ela proporciona possibilidades impensáveis, porém algumas são aproveitadas e outras não. Todas essas possibilidades geram a caracterização da cibercultura, para ele, como sistema do caos. Essas constantes virtualidades de infindáveis interagentes gradativamente presentes e ativos no ciberespaço origina um campo de possibilidades recombináveis, ressignificáveis interminavelmente. Ainda de acordo com o autor, há o argumento de que a cibercultura é um universo indeterminado fadado a manter-se indeterminado, “pois cada novo nó da rede de redes em expansão constante pode tornar-se produtor ou emissor de novas informações, imprevisíveis, e reorganizar uma parte da conectividade global por sua própria conta” (Ibid., p. 113). Assim,
o ciberespaço se constrói em sistemas, mas, por esse mesmo fato, é também o sistema do caos. Encarnação máxima da transparência técnica, acolhe, por seu crescimento incontido, todas as opacidades do sentido. Desenha e redesenha várias vezes a figura de um labirinto móvel, em expansão, sem plano possível, universal, um labirinto com qual o próprio Dédalo não teria sonhado. Essa universalidade desprovida de significado central, esse sistema da desordem, essa transparência labiríntica, chamo-a de ‘universal sem totalidade’. Constitui-se a essência paradoxal da cibercultura (Ibid. p. 113). Esses nós, ligações, sinapses, as quais são pontes de transferência informacional constroem um emaranhado de recombinações sígnicas que se multiplicam por inúmeras outras recombinações e, assim, constituem um universo tecnológico do saber compartilhado e da produção de novos conhecimentos.
Interessante destacar que a cibercultura não deve ser definida apenas pela tecnologia que lhe dá suporte. Mas, na realidade, deve envolver, como toda forma de cultura, o uso social que é feito da tecnologia e as interações sociais que disso decorrem. Nessa perspectiva, Kerckove (2009) a define como ver através. Ou seja, através de suas técnicas de conquista da informação, ela nos permite ver através do espaço, do tempo e da matéria.
A cibercultura é o resultado da multiplicação da massa pela velocidade. Enquanto a televisão e o rádio nos trazem notícias e informação em massa de todo o mundo, as tecnologias sondadoras, como o telefone ou as redes de computadores, permitem-nos ir instantaneamente a qualquer ponto e interagir com esse ponto. Esta é a qualidade da “profundidade”, a possibilidade de “tocar” aquele ponto, a ter um efeito demonstrável sobre ele
através das nossas extensões eletrônicas. (...). Já não nos contentamos com superfícies. Estamos mesmo tentando penetrar o impenetrável, a tela de vídeo. Uma expressão literal da cibercultura é a florescente indústria de máquina de realidade virtual que nos permitem entrar no mundo da tela de vídeo e de computador e sondar a interminável profundidade da criatividade humana na ciência, na arte e na tecnologia (Ibid., p. 154).
Um dos traços mais marcantes da cibercultura, entretanto, encontra-se na transformação que enseja no papel desempenhado pelo receptor. A cultura digital é alimentada pela interatividade. Sem esta, a comunicação ser humano-máquina não se realiza. Visto isso,
uma das características principais da tecnologia criada e distribuída em forma digital, potencializada pela configuração informacional em rede, é permitir que os meios de comunicação possam atingir os usuários e obter um feedback imediato. Por isso mesmo, há algum tempo, um dos tópicos centrais da comunicação digital tem sido o da interatividade (SANTAELLA, 2004, p. 200).
Não é por acaso que a figura do receptor passou a ser substituída pela figura do usuário, ou seja, aquele que navega pelas redes digitais, não apenas buscando o seu caminho e escolhendo entre inúmeras opções que se apresentam, mas também conectando-se com quaisquer outros usuários em trocas e compartilhamentos.
De fato, os meios digitais abrem novas formas de comunicação e demandam a reconfiguração dos meios tradicionais ao mesmo tempo que amplificam potenciais pouco explorados. A instantaneidade dos intercâmbios mediados, as tecnologias de armazenamento e recuperação de informações e a escrita e leitura hipertextuais vêm também desafiar a estabilidade de alguns consensos teóricos (PRIMO, 2007, p. 9).