3.3. ARAŞTIRMA-İNCELEME ESERLERİ
3.3.1 Şeyhülislam Ebussuud Efendi Fetvaları, Kanuni Devrinde Osmanlı
Conforme foi discutido no capitulo anterior, as opiniões circulantes no espaço de visibilidade dos media confere uma chance significativamente maior de exercício de influência política do que aquelas que não estão visíveis em tal espaço. Essa é, aliás, uma compreensão fortemente compartilhada pelos teóricos deliberacionistas. Ao perceberem que os media acabam se mostrando como arenas discursivas privilegiadas em exercício de influência política, então, em coerência com as expectativas normativas da esfera pública - que espera alcançar uma interação dialógica entre esfera civil e esfera política (Habermas, 1989, 1997, 1999) - eles irão, a partir daí, mostrar-se bastante preocupados com os padrões de participação discursiva promovidos pela indústria da comunicação de massa. Trata-se, nesse caso, daquela preocupação relacionada aos ―impedimentos informais à uma participação paritária que podem persistir mesmo depois que todos tenham sido formalmente e legalmente
37 licenciados a participar‖ (FRASER, 1992, p. 119)22.
Impedimentos informais esses que, ao serem pensados em relação aos media, foi traduzido por Wessler (2007) como ―input dimenssion‖ da arena discursiva da comunicação de massa. O que se deve esperar, então, dessa dimensão?
Se o que está em questão é uma das arenas discursivas com maior peso na sociedade contemporânea, o princípio da justiça política que esteve sempre ao lado da noção de publicidade parece se mostrar, nessa ocasião, especialmente imprescindível:
A liberdade de acesso e a participação paritária (direito igual de emitir opinião) são o ideal de regulação de todos os arranjos institucionais que reivindicam uma legitimidade democrática; todos os cidadãos sujeitos à lei deveriam ter o direito de participar e de expressar suas opiniões, de tentar exercer influência, e todos os participantes deveriam ser capazes de fazê-lo em igualdade de condições. (COHEN, 2003, p.426).
De acordo, então, com esse princípio central à idéia mesma de democracia, o que se espera e se defende é ―a necessidade de garantir uma competição justa entre os grupos, a fim de que todos tenham chances iguais de expressar seus interesses e se fazer representar.‖ (MAIA, 2004, p.19). Um senso de justiça que, diante de um contexto social marcado por profundas desigualdades econômicas, precisaria, ao menos garantir, condições de fazer com que perspectivas e grupos inseridos nessas desvantagens possam ser tratados em condições de paridade participativa na formação da opinião e da vontade públicas. Isso porque, só a partir dessas condições é que se garantiria a impossibilidade da locução despótica, assim como se forneceria a possibilidade de iguais chances de influência ―a todos os participantes da discussão, sobretudo àqueles mais fracos que não podem retirar de outras esferas a força para impor a sua causa.‖ (GOMES, 2004, p.198).
Diante de tais exigências normativas, um primeiro aspecto problemático a ser sido discutido seria o modelo de economia política dos meios de comunicação que tem predominado na maior parte das democracias contemporâneas. Se a expectativa é que a arena de discussão pública deva garantir condições para que até mesmo públicos com baixo capital econômico possam se valer em iguais chances de participação, tais chances ficariam sensivelmente prejudicadas a partir do momento que a estrutura comunicativa da comunicação de massa passa a ser controlada por grupos economicamente poderosos e que buscam atingir, com essas estruturas, a maximização de lucros financeiros. Tal raciocínio faz com que o sistema dos media em que predomina o controle privado da comunicação
22Tradução livre de: ―informal impediments to participatory parity that can persist even after everyone is formally and legally licensed to participate.‖ (FRASER, 1992, p. 119)
38 (principalmente em países como o Brasil e os EUA) passe a ser visto como uma barreira aos públicos atingidos por desvantagens econômicas e outros tipos de exclusão historicamente constituídos. Nesse modelo de economia política da comunicação, as pressões de exclusão social tenderiam, então, a prejudicarem intensamente o princípio da justiça política:
Parece-me que a vida democrática tem como suas pré-condições, dentre outras coisas, uma exigência de igualdade de chances para quem participa da disputa política e uma exigência de que os cidadãos devam ter oportunidades de formar de maneira livre e correta a sua própria opinião política. Ora, parece-me que justamente essas duas condições de possibilidade do modo de vida democrático não se encontram asseguradas em sociedades que permitem o controle particular da informação política. (GOMES, 2004, p.184).
O controle privado dos meios, não obstante, não se mostra como necessariamente uma contraposição direta à diversidade de posições políticas e opiniões. Como já se pontuou brevemente no capítulo anterior, a arena discursiva dos media tem sido identificada como um espaço plural de produção de opinião pública devido, inclusive, a um tipo de cultura profissional típica do campo do jornalismo que estabelece como metas fundamentais a pluralidade e a objetividade como bússolas de ação.
No entanto, o que se tem cada vez mais colocado em questão é o alcance desse pluralismo, o qual não seria compatível com a amplitude maior de posições que existiriam na sociedade e que tentam frustradamente obterem visibilidade. Nesse sentido, Maia argumenta que as perspectivas das correntes pluralistas ―mostra-se frágil para lidar com as desigualdades deliberativas‖ (MAIA, 2004, p.20). Isso porque a pluralidade que, de fato existe, seriam de agentes com algum tipo de capital pré-existente (político, econômico, cultural etc) e que,, devido a esse capital, teriam acesso privilegiado à visibilidade dos media. Isso implica, portanto, que a visibilidade pública estaria bloqueada àqueles que não podem retirar capital de outros campos para conseguir força suficiente conferir visibilidade à sua causa. Tal situação faz com que o pluralismo promovido pelos media não consiga ser interpretado muito além das análises estabelecidas pelas teorias afeitas ao elitismo democrático.
Justamente por recusarem as premissas e as metas normativas dos modelos elitistas de democracia é que os autores deliberacionistas irão identificar um segundo aspecto problemático em relação ao espaço discursivo sustentado pelos media. Trata-se justamente do fator ―sociedade civil‖ e da sua participação normativa que, como veremos mais adiante, é prevista pelo conceito de esfera pública.
Nesse sentido, Bohman vai destacar os efeitos perversos sobre a esfera pública que a comunicação de massa sustenta a partir do momento que estabelece pouquíssima interação com o público, tal como ocorreria nos dispositivos constitucionais que regulam a participação
39 pública no Estado, com os cidadãos tendo, portanto, pouco controle sobre os sistemas de significação promovidos pelas estruturas midiáticas (Bohman, 1996, p.235). Essa falta de controle resultaria naquilo que se chama de assimetria da opinião publicada, marcada pelo ―fato de que apenas alguns são falantes e de que quem exerce o papel de audiência normalmente não pode ocupar espaço do palco no teatro político.‖ (GOMES, 2008b, p.132).
Mas qual é, no final de contas, o real tamanho dessa assimetria? Se há uma insistente acusação em relação aos meios de comunicação de promoverem desigualdades deliberativas, as apurações empíricas que mensuram os diferentes agentes sociais e suas respectivas cotas de visibilidade nos espaço dos media têm constatado justamente tal insistência.
Nesse sentido, um estudo acerca dos vídeo-segundos do jornal de maior audiência na esfera brasileira (o Jornal Nacional) mostra a vala que existe entre os agentes de campo político e os da sociedade civil (Gomes, 2008d). Um abismo que, aliás, existe não apenas entre essas esferas, mas nelas próprias. No entanto, uma assimetria interna à esfera civil é algo inconcebível, já que esta se encontra praticamente ausente no noticiário do JN.
Pode-se, por outro lado, questionar se esse quadro de distribuição de fala não seria algo particular ao JN em específico, abrindo-se assim a possibilidade de que outros veículos e produtos jornalísticos possam se mostrar mais abertos às opiniões de atores provenientes da sociedade civil.
Não obstante, mesmo essa se mostra, cada vez mais, uma possibilidade frustrada, já que os estudos revelam que até mesmo produtos jornalísticos considerados mais densos em termos de informação e de provimentos de fontes reproduzem os mesmos padrões de distribuição de visibilidade. Nesse sentido, é emblemática a pesquisa de Miguel & Tokarski quando se demonstra que mesmo as revistas semanais ignoram sistematicamente as falas dos agentes da sociedade civil. Conforme os dados da pesquisa, essa esfera de ação ―recebe pouca cobertura em todo o material analisado, o que se acentua no período eleitoral, quando não ocupa qualquer espaço no noticiário de Veja e quase nenhum em Carta Capital.‖ (MIGUEL & TOKARSKI, 2008, p.11).
Nesse sentido, um grande mal-estar midiático ainda persiste de modo intenso quando se trata da invisibilidade das perspectivas da esfera civil que se processa a partir do momento que os media se encarregam de anular a possibilidade de que a cidadania esteja aparelhada para, de algum modo, intervir e influenciar nas deliberações que aí se processam. Um tipo de barreira que, desse modo, anularia ―o controle sobre a esfera pública pela esfera civil justamente impedindo o seu elemento mais essencial: a visibilidade das argumentações e a
40 acessibilidade a todos os concernidos para que se tornem, a qualquer momento, participantes do jogo político.‖ (GOMES, 2004, p.203).
Assim, o que se apresenta é um sério comprometimento da realização efetiva da noção de esfera pública por si mesma. Se, no capítulo anterior, a idéia de uma plausibilidade da dimensão empírica dessa noção foi sustentada contra as desconfianças de que ela teria validade apenas epistemológica, no atual momento essa desconfiança parece novamente ganhar força, só que sob novos argumentos e evidências. Em face do raciocínio de que a visibilidade apresentada pela cena midiática deveria ser vista em perspectiva a uma conexão com a discutibilidade operada nas diversas esferas de discussão pública, o problema que surge agora é que as únicas arenas discursivas que parecem ter alguma ressonância no espaço de visibilidade midiática são aquelas constituídas pelas altas instâncias do poder político. Não haveria, portanto, uma porosidade ampla articulando o círculo estreito das discussões operadas pelo centro do poder político com aquelas levadas a cabo pela sociedade civil.
Se tal realidade em nenhum momento comprometeria a validade da noção de esfera pública23, por outro lado, a capacidade dessa noção em descrever os fenômenos que constituem a formação do poder político nas sociedades democráticas hodiernas passaria a ser bastante limitada. Nesse sentido, as pesquisas que vêm mensurando a distribuição de visibilidade nos sistema dos media parecem prejudicar, de modo muito mais intenso, a
plausibilidade da dimensão empírica da esfera pública e vão reforçando, mais
consistentemente, as preocupações de Habermas quanto às tendências de afastamento do sistema administrativo das demandas e inovações produzidas pelas camadas periféricas da esfera pública, resultando, então, com que se manifestem processos ilegítimos acumulados nas operações do sistema político contemporâneo24. Dentre as circunstâncias que favorecem esses processos de produção de uma esfera pública frágil (com pouca porosidade comunicativa entre esfera civil e esfera política), ele mesmo não hesita em abordar responsabilidade dos media:
Os produtores da informação impõem-se na esfera pública través de seu profissionalismo, qualidade técnica e apresentação pessoal. Ao passo que os atores coletivos, que operam fora do sistema político ou fora das organizações sociais e associações, têm normalmente menos chances de influenciar conteúdos e tomadas de posição dos grandes meios. Isso vale
23 ―Seguramente, essa análise incontestável não desmente os direitos à integração e à igualdade ilimitada
incorporadas na compreensão de que esfera pública liberal tem dela mesma – ao contrário, ela os exige.‖ (HABERMAS, 1999, p.11).
24―A emancipação do poder ilegítimo e fraqueza da sociedade civil e da esfera pública política podem configurar um ‗dilema legitimatório‘, o qual pode combinar-se eventualmente com o trilema da regulação, formando um
grande círculo vicioso. A partir daí, o sistema político é absorvido por déficits de legitimidade e de regulação
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especialmente para opiniões que extrapolam o leque de opiniões da grande mídia eletrônica,
‗equilibrada‘, pouco flexível e limitada centristicamente. (HABERMAS, 1997, p.110).
Mas se, de fato, a esfera pública coetânea continuaria perpetuando padrões de seleção que comprometem tanto sua normatividade interna quanto a noção de justiça política que a perpassa, como explicar então as diversas transformações sociais promovidas pelos movimentos sociais e por agentes da sociedade civil no quadro das sociedades democráticas contemporâneas? Como se explica o sucesso dos movimentos pelos direitos civis nos EUA, a paulatina conquista de direitos reprodutivos, de expressão e institucionalização da diversidade sexual? Como se explica, aliás, a crescente preocupação ambiental, a qual foi, durante décadas, tida como uma questão restrita a um discurso marginal operacionalizado por militantes ecologistas, mas que agora toma conta da agenda política oficial tanto da Europa como dos EUA? Como se explica tal sucesso que é inclusive apontado por Edwards (2004) como resultado de uma mobilização levada a cabo por estratégias midiáticas por parte desses movimentos?
Se essas cotas apresentam, desse modo, sérios problemas à capacidade do debate mediado em prover, de fato, uma contribuição relevante para a descrição desses fenômenos, é preciso, então, recorrer às perspectivas que possam apontar para a resolução dos paradoxos aí apresentados.