A castidade, como as demais virtudes morais, é uma força regulada pela razão com o propósito de nos conduzir moralmente a agir em direção a um fim. É por esse motivo que a castidade é enumerada entre as virtudes, ou seja, porque nos faz proceder de acordo com a razão, como está exposto na resposta à terceira objeção da Questão 151, artigo 1 do Tratado da Temperança.
Tomás de Aquino, como faz com outros termos, trata do significado etimológico da palavra “castidade”. Diz ele que castidade vem do verbo “castigar” e é um castigo que a razão impõe sobre os desejos lascivos a fim de dominá-los como um pai a seu filho (TOMÁS DE AQUINO, 2005, p. 277, volume VII). Mais uma vez Tomás de Aquino recorre a Aristóteles. No entanto, o próprio Aristóteles não parece falar da castidade como o teólogo medieval salienta. A discussão aristotélica apresentada no livro III da Ética a Nicômaco é a respeito da intemperança e de como esta deve ser refreada. O texto do estagirita apontado por Tomás de Aquino diz:
O termo intemperante também se aplica à faltas infantis [...] pois quem deseja aquilo que é vil e que se desenvolve rapidamente deve ser refreado a tempo; ora, essas características pertencem acima de
tudo ao apetite e à criança, já que na realidade as crianças vivem à mercê dos apetites, e nelas tem mais força o desejo das coisas agradáveis. Se não forem obedientes e submissas ao princípio racional, irão a grandes extremos, pois num ser irracional o desejo do prazer é insaciável (ARISTÓTELES, 1979, p. 98).
É importante que se diga, no entanto, que esse “castigo” imposto pela razão não é ao corpo, como se poderia pensar à primeira vista, ou como tem sido caricaturado muitas vezes quando se fala do pensamento medieval ou ao menos, tomista, a respeito da sexualidade humana.
Talvez Agostinho, por ter sido neoplatônico durante um período de sua vida em busca da verdade, tenha sido injustiçado durante muito tempo por se ter atribuído a ele um aspecto negativo ao corpo humano. No entanto, como podemos ler em seus textos morais, tais noções são inverdades desfeitas tão logo examinemos o próprio autor, pois Agostinho, diferente de Platão, não via o corpo como um aprisionamento da alma, do qual esta deveria se libertar. Falando sobre a natureza do homem, inclusive corporal, o bispo de Hipona escreve:
Entretanto, quanto ao corpo, o homem tem uma faculdade que mostra esta excelência, pois foi feito com a estatura ereta, a fim de que com isso fosse advertido a não procurar para si o que fosse terreno, como os animais, cujos prazeres procedem da terra... Portanto, o corpo do homem também é adequado à sua alma racional, não quanto aos traços e figuras dos membros, mas, antes, quanto ao fato de ter uma posição erguida (AGOSTINHO, 2005, p. 222).
Essa interpretação alegórica do Gênesis que Agostinho faz, reflete o modo cristão de pensar a criação, sobretudo, a do homem, como algo ordenado para uma finalidade própria, pois o próprio Agostinho escreve no mesmo livro sobre a perfeição minuciosa de todas as criaturas, inclusive dos insetos nojentos e animais peçonhentos. Quanto mais, não deveria o bispo de Hipona atentar para a parte mais excelente da criação, que é o ser racional, pois por meio dele e nele a imagem de Deus é refletida.
O corpo, por esta razão, tem um valor intrínseco muito alto, ao contrário do que se poderia pensar, ao se atribuir a Agostinho a responsabilidade por ver com degradação o corpo humano criado por Deus. É verdade que ele admite como Tomás de Aquino fará, que após a queda, uma parte da beleza foi perdida, ou para usarmos a terminologia tomista, a graça em parte foi perdida, mas não anulada, de modo que a graça aperfeiçoa a natureza.
Aliás, é digno de nota que Agostinho não só via o corpo com bons olhos, como também combatia os maniqueus quando tratavam com desdém o corpo humano, pois
é certo que os platônicos não deliram como os maniqueus, a ponto de detestarem os corpos terrenos como a natureza do mal, posto atribuírem a Deus, como criador, todos os elementos componentes deste mundo visível e tangível e suas qualidades. Opinam, contudo, que os órgãos terrenos e os membros mortais causam tais impressões nas almas, que delas provêm as doenças dos desejos e dos temores, das alegrias e das tristezas. Nessas quatro perturbações, como as chama Cícero, ou paixões, como muitos traduzem literalmente do grego, radica-se toda viciosidade dos costumes humanos (AGOSTINHO, 1990, p. 137).
O “castigo” imposto pela razão é, por outro lado, castigo imposto às paixões e às paixões desordenadas, que são as concupiscências, não no sentido geral, posto que em Tomás de Aquino elas não são consideradas más em si mesmas, antes, fazem parte da natureza humana.
Por este motivo, Tomás de Aquino escreve a que se presta esse castigo, que como vimos, não é ao corpo diretamente. Assim, lemos na resposta que Tomás de Aquino nos apresenta: “O termo castidade deriva do fato de a razão castigar a concupiscência” (TOMÁS DE AQUINO, 2005, p. 177, volume VII).
Além do mais, a castidade não pode ser de acordo com Tomás de Aquino, apenas um ato externo; não pode, por isso, ser sobre o corpo, embora termine por ter implicações sobre este. Assim como o vício não se constitui como tal apenas na consumação propriamente dita quando falamos da potencialidade do vício ou malícia no ser humano.
Por isso, diz ele que o sujeito da castidade é a alma, da mesma forma que ela o é do pecado, de onde provem as intenções, embora ela tenha por matéria o corpo. A castidade, semelhante às demais virtudes, precisa acompanhar o ser humano continuamente, pois as paixões sempre se apresentam a fim de fazer com que o homem não aja segundo os ditames da razão.