3 EL KEHF VER RAKÎM FÎ ŞERHİ BİSMİLLAHİRRAHMANİRRAHİM
3.2 Şerhin Türkçe Çevirisi
A histérica não se toma pela mulher. Ela crê que a mulher (. . .) é suposta saber, que ela ‘sabe o que é preciso para o gozo do homem’. PORGE, 1999, p. 154
Se Beatriz parecia sempre dividida entre escolhas, percebemos tal impasse pela desqualificação que fazia dos outros. Antes de vir a reconhecer que era cruel com seus namorados, que fazia armadilhas para eles caírem, posicionava-se de modo a responsabilizá-los pela sua insatisfação. Levou tempo para que algo deste discurso queixoso pudesse ser dialetizado e para que Beatriz ousasse se implicar na queixa que fazia. Enquanto rodeavam este tema, as falas do clínico foram por muito tempo defletidas, como se não causassem impacto algum.
Em A Histeria e o Ressentimento (2003), Kehl se debruça sobre a relação entre o lugar que o ressentimento e a inveja ocupam na vida do neurótico, e analisa seus efeitos na posição subjetiva deste sujeito, incapaz de formular uma questão que lhe implique em seu sofrimento. Foi por este viés que chegamos a pensar nas queixas do caso clínico como
uma faceta de ressentimento: “Os sintomas não funcionam como enigma para o ressentido; não servem de ponto de partida para uma atitude investigativa, mas como ponto de ancoragem de sua pretensa inocência” (p. 78). Tal problemática conduziria a uma estagnação do processo analítico.
Embora as queixas repetitivas do ressentimento não escapem à determinação inconsciente, servem acima de tudo aos mecanismos de defesa do eu. Isso significa que, em um processo de análise, as queixas ressentidas trabalham contra a associação livre e, acima de tudo, impedem a implicação subjetiva do analisando (p. 77).
Como o analista escuta tal condição? Como intervir diante deste muro queixoso? A autora salienta a natureza de impedimento que o ressentimento provoca no sujeito, deixando-o preso a um lugar de desimplicação, quando o tratamento visaria justamente o seu oposto, mas assinalando justamente o desafio que tal posição oferece ao analista:
Bem depressa o analista percebe a impossibilidade de conduzir uma análise com alguém que se instala nessa posição: ainda que a ofensa tenha de fato ocorrido, ainda que um outro tenha de fato responsabilidade quanto ao dano que o ressentido denuncia, a atitude queixosa conduz o processo analítico a um beco sem saída. Se o sujeito está convicto de que sofre porque não pode esquecer o mal que lhe fizeram, o que pode fazer o analista a não ser admitir que ele tem razão? (p. 77)
Mas ao fazer a discriminação entre o ressentimento e a inveja, Kehl assinala um ponto de divergência que se articula com o enigma da virada no atendimento.
A inveja parece o ressentimento (. . .) mas não é a mesma coisa. Ela se origina da constatação de uma falta no sujeito, por comparação com um
outro, supostamente possuidor do objeto. Ela inaugura um movimento para diante, tanto no sentido de tentar obter o que falta quanto no de destruir o que pertence ao outro, de forma a eliminar, pelo menos, a dor da comparação (p. 80).
Quando Beatriz diz ao clínico: tenho muita dúvida se não tenho algo a ver com
isto, podemos reconsiderar nossa leitura e passar a supor que seu ressentimento possa ser lido como inveja e ser, desta forma, indicador de um desejo, ainda que desejo de destruir o valor do outro. Quando Beatriz admite que é cruel com seu namorado, surge a abertura para pensar que, por vezes, o que a mobiliza é a tentativa de diminuir o valor do outro para que ela não se sinta tão inferiorizada.
A inveja, a exemplo do que ocorre com a menina, inaugura toda uma série de atividades de afirmação e de conquista, e associa-se às constelações afetivas do rancor, mas também da esperança (. . .) o invejoso não se confunde com o ressentido; talvez lute mal, dada a ambivalência de sua relação com a falta de objeto – mas ainda assim, é um lutador. A inveja não deixa de ser uma manifestação mais agressiva – e certamente mais sofrida – da ambição (p. 81).
Em uma tentativa de ilustração de intervenção para as questões de ordem fálica que atormentam o neurótico, Kehl oferece uma pista.
Só quando ele me perder é que vai me dar valor”: qual psicanalista nunca escutou uma frase assim? A intervenção mais produtiva nesse caso seria pedir à analisante que explique, então, de que valor se trata, desfazendo a fantasia de que existe entre ela e o analista um pressuposto sobre a evidência deste valor. Com isto, o analista consegue manejar seu lugar na transferência, frustrando a demanda de que seja ele o
próximo a reconhecer nela o valor – ou seja, o falo – pelo qual ela não teve que trabalhar. O que o analista desfaz com sua pergunta sobre o valor é a coincidência que a histérica constitui, na fantasia, entre o falo e o ser (p. 82).
O prognóstico em jogo, segundo Kehl, seria notar que “a saída do ressentimento para a mulher histérica depende de ela se fazer irmã do homem em sua orfandade comum – o que é quase impossível em uma análise se o analista não souber intimamente que esta também é sua condição” (p. 84).
Onde há ressentimento, não há transferência, poderíamos dizer isso? Seria o caso de pensar que a transferência a que Freud se refere é uma conquista progressiva, na mesma medida em que o discurso do ressentimento pode se arrefecer? Lidaremos com esta hipótese no próximo capítulo. Antes de concluir esta parte, contudo, compartilhamos com o leitor uma nova pista para ser guardada, que serve ao nosso diálogo:
A conduta da histérica, por exemplo, tem como objetivo recriar um estado centrado pelo objeto, na medida em que esse objeto,
das Ding, é (. . .) o suporte de uma aversão. É na medida em que o objeto primeiro é objeto de insatisfação que o Erlebnis específico da histérica se ordena (Lacan, 1959-1960, p. 69) O objeto primeiro pode ser vivido como objeto de uma insatisfação! Seria esta uma chave de compreensão possível para a histeria? Falemos do caso: Beatriz desejava ser tida em altíssima conta pelo homem, por quem parecia nutrir anseios ambivalentes:
quero que me ame por quem eu sou, quero que não me queira somente pelo sexo; No entanto, caso ele me obedeça por amor a mim, deixo de desejá-lo. Aqui lembramos do sonho da mulher do açougueiro e do jantar com salmão defumado, que Freud descreve
em A Interpretação dos Sonhos. Como se dissesse, tal qual a paciente de Freud: Eu quero
isto, desde que meu desejo permaneça insatisfeito!
Com a introdução de tais ideias, propomos fazer uma pausa neste ponto de nosso percurso. Tornaremos a falar mais destes autores adiante. A partir daqui, contudo, para podermos lançar mão deste desenvolvimento, precisaremos falar, cada vez de forma mais central, do conceito de transferência. Para fazer isto, portanto, preferimos consagrar um capítulo exclusivo ao tema.
Por ora, lancemos algumas questões de ordem clínica que nos ocorrem: Que há de demanda na fala compulsiva de Beatriz? E o Outro, que lugar ocupa? Ao permanecer calado, deixa de ameaçar o empreendimento autoerótico da fala de Beatriz. Ao ficar sem voz, o Outro não a contradiz. Ao ficar silenciado, o Outro não tem a oportunidade de fazer-lhe uma exigência imprevisível e denunciar a sua insuficiência, ou incompletude, poderíamos dizer.