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Podemos dizer que Ariès (1981) inaugura no campo da história uma concepção de infância, historicizando a visibilidade da criança a partir de sua pesquisa iconográfica. A partir dele inúmeros são os trabalhos que irão problematizar sua tese, sua metodologia e suas fontes. De modo geral sua tese evidencia um momento de ausência do sentimento de infância e uma

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crescente representação de modo linear, com períodos bem marcados historicamente; suas fontes englobam pinturas de diferentes momentos históricos e sua metodologia utiliza-se da iconografia para construir uma história da criança e da infância, criticada por sua linearidade e por sua representação a partir de uma classe social específica, a elite francesa.

Fernandes (2000a) problematiza a tese de Ariès por entender que existem diferentes modos de compreender e representar a infância, as quais não estariam retratadas pelo historiador francês. Ao analisar autores renomados da literatura portuguesa, tais como Fernão Lopes, Guilherme de Azevedo e Latino Coelho, Fernandes (2000a) destaca as diversas expressões por meio das quais as crianças de classes menos favorecidas poderiam ser representadas, o que desmontaria a interpretação de Ariès quanto à origem abastada do sentimento de infância. Fernandes (2000a) registra algumas dessas expressões, presentes em obras dos autores citados, como por exemplo, parvoos ou parvulos, que representavam as crianças em idade de aprenderem a falar (p. 90); menino (a)s para designar, em geral, uma criança com um grau maior de desenvolvimento físico e de resistência (p.90), os moços ou moças pequenos, inclusive com menos de um ano, que se distinguiam dos que se designavam simplesmente por moço ou moças. A palavra cachopo designava visivelmente a criança que passava pela primeira infância - entre o cachopo e o mancebo interpunha-se uma considerável distância em termos de idade, pois o mancebo podia contar com pouco mais de 20 anos, sendo, aliás, escudeiro-fidalgo (p.91,92). A palavra rapaz designava indivíduos com idade e força suficientes para serem besteiros, isto é, manusearem as armas mais pesadas dos exércitos; o gaiato era um retrato do que chamamos criança da rua, cujo modo de viver provocava a repulsa das classes superiores (p.95).

Segundo Fernandes (2000a, p. 87) a análise da literatura portuguesa permitiu reconstruir diversas representações sobre as crianças, elucidando traços significativos da mentalidade pedagógica da época, bem como sobre um modo existente de conceber a infância.

Sugerindo ressalvas quanto à tese de Ariès, Fernandes (2000a) evidencia a necessidade de se compreender e analisar o termo Infância em seu plural, por assinalar ―(...) a variedade de perfis que essa categoria histórica,

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social e psicológica comporta‖ (p.87), e que talvez tenha sido ignorada por Ariès.

Vailati (2002) também problematiza algumas percepções sobre o Brasil no que diz respeito a uma possível ausência de sentimento de infância. Ao estudar o tema da morte de crianças entre os séculos XIV e XVIII, por meio da literatura de viagem, o autor evidencia que os estrangeiros, ao olharem o nosso país julgavam-no sob o ponto de vista de sua cultura, de seus hábitos e concepções. Assim, determinadas atitudes para com as crianças, para eles representavam a ausência do sentimento de infância, e para nós, representavam relevância e sentimento de valorização para com as mesmas.

O exemplo mais claro nesse sentido é a forma ―espetacular‖ com que os funerais das crianças eram realizados. No estudo feito pelo autor, as narrativas dos viajantes mostravam-se espantadas com a maneira pela qual os funerais das crianças eram feitos no Brasil e o modo como se diferenciavam dos funerais dos adultos. Nestes, havia a expressão de tristeza e de pesar, lamúrias e rituais que simbolizavam a morte. Nos funerais das crianças, ao contrário, os rituais eram rodeados de festejos, e a família mantinha-se feliz como se estivesse em uma grande festa. Os funerais representavam para essas memórias de viagem ―um fraco sentimento familiar, em particular o de maternidade, de que ‗sofria‘ a sociedade brasileira‖ (P.369).

Vailati (2002) critica essa visão, uma vez que entende que as festas eram justamente uma simbologia ao sentimento positivo que se tinha para com as crianças. O autor comenta como as mães, mesmo as mais desfavorecidas, gastavam todas suas economias para fazerem um funeral ―a altura‖ do valor que davam as crianças. Assim, ―para além de qualquer menosprezo do qual a criança podia ser vítima nesta sociedade, o que está na base deste comportamento é uma determinada concepção de morte e de infância que imprimia uma certa positividade a um evento certamente traumático‖ (p.369).

Dito de outra forma, o caráter ―espetacular dos funerais infantis‖ (idem, p.370) representava, além de uma concepção positiva em relação à criança, uma visão diferenciada em relação à fé, que deveria se expressar o mais visível possível.

Os estrangeiros mostravam-se estranhos aos funerais, registrando indignação em relação às vestimentas luxuosas das crianças, ao fato dos

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cortejos serem realizados de dia e não serem acompanhados pelos pais das crianças mortas, das crianças serem maquiadas como se estivessem vivas, das pessoas cantarem e se mostrarem felizes, entre outros costumes. Para eles esse espetáculo era uma manifestação do profundo desprezo e insignificância que os brasileiros davam às crianças. Vailati (2002) rebate, afirmando que as roupas luxuosas eram usadas porque se acreditava que quanto mais bonita fosse à entrada no céu, mais perto da salvação as crianças estariam. Os pais não podiam acompanhar os cortejos, pois estes eram considerados atos públicos - a população era convidada a participar dos festejos como se fosse um convite para um ato de pureza que ampliaria e melhoraria a entrada no céu; as crianças eram maquiadas para entrarem no céu com expressão de saúde e vida; os cantos e o festejo era um ritual de passagem – a criança morreria na festa e na festa entraria no céu.

Estabelecendo uma relação com a tese de Ariès é possível afirmar que as concepções de quem analisa interfere nos resultados encontrados, e dessa forma, podemos pressupor que a tese de uma ausência de sentimentos de infância no período que antecede o século XVIII está influenciada pelas concepções do autor, pelas fontes estudadas e também pela metodologia utilizada na investigação.

Chalmel (2004) também traz algumas reflexões que estabelecem uma problematização da tese de Ariès. Para o autor, existe uma iconografia burguesa e laica que, desde o século XV e XVI, vai substituindo a imagem da criança em alusão ao menino Jesus por outras associadas a personagens estáticas e com cenas de gênero.

O autor procura realizar uma análise iconográfica a partir de imagens de crianças presentes em manuais ou escritos de educação, bem como em livros de educadores bastante influentes nesse período. Nesse sentido, alguns dos autores escolhidos são Comenius (século XVI e XVII) e Basedon (representando o século XVIII). Chalmel (2004) compreende que existe uma clara concepção de criança nas imagens presentes nas obras desses educadores e que de fato, trata-se de um sentimento em emergência durante todo o século XV em diante. Além disso, compreende que Rousseau trata da criança de modo diferenciado, tornando-se um marco no que diz respeito a uma abordagem positiva da infância. A problematização da tese de Ariès se dá

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novamente por compreender que os modos de representar a infância em cada iconografia escolhida tem uma estreita ligação com a comunidade que a divulga. Assim, os retratos expostos pela burguesia, em geral esta vinculada a um modo de ser e de viver que se quer propagar e mostrar. Em outras palavras, os retratos de crianças e as cenas de gênero encontradas pelo autor preocupam-se pouco em refletir as realidades sociais ou educativas, mas ao contrario, majoritariamente ―(...) constituem uma imagem estereotipada e idealizada que circula entre os espíritos da época‖ (CHALMEL, 2004, p. 73).

Certamente essas problematizações em torno das discussões apresentadas por Ariès são importantes, contudo, elas também são analisadas a partir do entendimento que se tem hoje sobre a iconografia, sobre a história das mentalidades e também, sobre as representações em torno das crianças e da infância. Entretanto, o que parece mover o pensamento de Ariès e as críticas ao seu trabalho é a configuração de uma infância específica que surge com a sociedade disciplinar, a partir do século XVIII, a qual será também objeto deste trabalho.

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Benzer Belgeler