2.2. ŞEKİL BİLGİSİ
2.2.5. Fiiller
2.2.6.4. ki edatı:
Em agosto de 1947, enfim, seria publicado o primeiro número da RBC, seis anos após a reorganização do DNS, e da criação do SNC. A RBC cumpriria, tal como os periódicos médicos estrangeiros, seu papel de interlocução com os atores atuantes na área recém oficializada no tratamento do câncer.
A “memória coletiva” seria, por sua vez, operada através das diversas ações desse grupo nos cenários onde foram geradas as tramas.77 Um desses espaços seria uma entidade aglutinadora e legitimadora da ação desses médicos: a Sociedade Brasileira de Cancerologia, fundada em 25 de junho de 1946, na sede da Sede da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, e que manteve na presidência durante 14 anos, em sua maior parte, os médicos do Serviço Nacional do Câncer.
A questão da saúde, assim como os programas efetivos para a erradicação das doenças seriam acompanhados por um fórum internacional após a segunda guerra. Durante a Conferência Internacional de Saúde, o Brasil, representado na ocasião pelo sanitarista Geraldo Horácio de Paula Souza78, participaria do acordo que promulgaria a constituição da
Organização Mundial de Saúde, em 22 de julho de 1946, expondo um novo paradigma
77 A referência clássica na discussão sobre memória coletiva é o trabalho do sociólogo Maurice Halbwachs. Segundo ele:
“No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos acontecimentos e das experiências que concernem ao maior número de seus membros e que resultam quer de sua própria vida, quer de suas relações com os grupos mais próximos, mas freqüentemente em contato com ele. Quando aquelas que concernem a um pequeno número e algumas vezes a só de seus membros, embora estejam compreendidas em sua memória – já que, ao menos em parte, elas se produzem dentro de seus limites – passam para último plano.” (Halbwachs, 1990, p. 45)
78 O médico paulista, Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951) seria um dos primeiros beneficiados com uma bolsa para treinamento pela Fundação Rockfeller (1918-1920) juntamente com Carlos Chagas e Francisco Borges Vieira, e o primeiro a implantar na Faculdade de Higiene de São Paulo o Curso de Educador Sanitário.(CANDEIAS, Nelly Martins Ferreira, Evolução histórica da educação em Saúde como disciplina de ensino na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – 1925 a 1967, Revista de Saúde Pública, S. Paulo, 22 (4) : 347-365; 1988).
sanitário em sua declaração, e o princípio de que a “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”79.
O Brasil participaria, juntamente com outros 17 países, da comissão interina que convocaria a Assembléia Mundial de Saúde, além da revisão de uma série de convenções sanitárias estipuladas desde a década de 1910. No que se referia às causas de mortalidade – o câncer entre elas –, esta comissão deveria revisar a “nomenclatura internacional das causas de óbito” e estabelecer “listas internacionais das causas de enfermidade”.
Segundo os princípios adotados, o Brasil, assim como outros países membros, a partir do estabelecido no artigo 61, deveria disponibilizar um relatório sobre as medidas tomadas para melhoria da saúde de sua população à Organização Mundial de Saúde que agora oficialmente compunha.
A relação do Brasil com a OMS se estreitaria, e após uma década, já se apresentaria como ação de governo na área do câncer, que seria enfatizada por Kubitschek durante a inauguração do INCA, em agosto de 1957.
As próprias informações divulgadas pela Organização Mundial de Saúde revelam a incidência cada vez maior do câncer e são uma advertência, que não pode ser desprezada pelos governos [...] Os dados da Organização Mundial de Saúde mostram que no espaço de quase cinqüenta anos, a mortalidade pelo câncer atingiu, em países como a Inglaterra, os Estados Unidos, a Suíça e a Nova Zelândia, aumentos na média de cem por cento. (RBC, 1958, p.12)
No editorial inaugural da RBC, Kroeff se mostraria preocupado com a possibilidade da ausência de colaborações de outras esferas públicas e da “iniciativa particular”, devido a RBC ser um órgão oficial do governo, o que inibiria a participação de outras entidades e agentes, já que por missão o trabalho deveria ser estendido a “todos os ramos da medicina”. Ao mesmo tempo, a impressão que ficara no círculo médico era que somente a obrigatoriedade da lei seria suficiente para a manutenção de um periódico na área da cancerologia no Brasil. Com vistas a estimular uma cooperação espontânea, o discurso de
Kroeff seria reelaborado para a conjugação de esforços no ataque ao “inimigo do gênero humano”.
A perspectiva sanitária havia ampliado sua margem de ação na carta constitucional promulgada em setembro de 1946. Nesta, dois artigos dariam as bases das ações sanitárias. No artigo 5°, a União se incumbiria da defesa e proteção à saúde, enquanto o artigo nº 157 trataria da regulação da legislação trabalhista e de assistência social, em cujo princípio se adotaria a “assistência sanitária, inclusive hospitalar, e médica preventiva ao trabalhador e a gestante”.
Em seu primeiro número, em setembro de 1947, Kroeff se utilizaria do prefácio para relevar o status oficial da RBC, estabelecendo esta posição como sinônimo de disputas e riscos.
A RBC aparece para satisfazer dispositivo de lei, reflexo certamente de uma necessidade médico-social em nosso meio. O Decreto que instituiu o Serviço Nacional de Câncer, com atribuições em todo o território brasileiro, no que diz respeito às atividades anticancerianas em geral, determina a edição de uma revista de cancerologia. Por motivos alheios à vontade da direção da S.N.C., só agora, com o presente número, é atendida essa determinação. A Campanha Nacional de Combate ao Câncer passa a possuir deste modo um órgão apropriado à difusão de suas atividades científicas e educacionais. (RBC, 1947, p. 4).
O primeiro número seria generoso em estudos de casos clínicos, cujo foco estaria na vasta produção, o que reafirmaria o projeto cancerológico perante o círculo médico. O projeto editorial da RBC, no entanto, não seguiria o mesmo padrão a partir do segundo número, devido às contingências que surgiriam no percurso do grupo cancerologista em busca de sua afirmação como um novo campo da medicina, e na determinação de uma sede definitiva.
A mudança de rumos da RBC deixando de ser somente um periódico de caráter científico para se tornar um espaço para a produção simbólica de sua própria história não seria uma ação consciente, como se verificaria no segundo número da RBC, em dezembro de 1947, na coluna “perguntas e respostas”, onde o missivista visaria à manutenção do padrão.
A Revista Brasileira de Cancerologia pretende principalmente ser órgão de divulgação dos ensinamentos fundamentais relativos ao câncer [...] através de suas colunas, enquanto não afluírem perguntas específicas, dúvidas realmente surgidas na prática clínica diária, serão ventiladas, a critério da redação, questões de ordem geral, quase que de conhecimento obrigatório por parte do médico prático. (RBC, dez. 1947, p.97).
Após o primeiro número, a RBC abrigaria determinados documentos que auxiliariam a construção historiográfica da cancerologia, ainda que de maneira não dirigida a esta finalidade. Passo, agora, a tratar cada um desses documentos, contextualizando-os, destacando suas informações mais relevantes e tomando-os por base para a articulação de outros dados que permitam, dessa maneira, trazer elementos pertinentes à história da invenção da cancerologia no Brasil, à sua afirmação como um sub-campo da medicina no país.