• Sonuç bulunamadı

Şarkı Haritalarının Öğrenciler Üzerindeki Duyuşsal Görüşlerini Gösteren Tablo

1. BÖLÜM

4.6. Şarkı Haritalarının Öğrenciler Üzerindeki Duyuşsal Görüşlerini Gösteren Tablo

O personagem-narrador de Antiperipléia, primeiro conto das Tutaméia, é um guia de cego acusado pela amante de seu patrão, Seô Tomé, de tê-lo assassinado. Na hora em que aconteceu o crime, o guia estava bêbado. O personagem-narrador tenta então se explicar, defendendo-se das acusações de que teria sido ele o assassino do cego. O guia expõe quais

teriam sido as causas do assassinato. Ele imagina que o cego poderia ter morrido por acidente ou ter sido morto pelo marido da amante ou mesmo pela própria amante. Sobre o conto, afirma Willi Bolle (1973, p. 113): “São conjeturas sobre o que poderia ter acontecido, e esses fragmentos de enredo constituem o texto de Antiperipléia.” (Grifo nosso).

A palavra “fragmentos”, usada por Bolle, é fundamental. Todas as hipóteses, apontadas pelo guia sobre a morte do cego, são possíveis e são elas que constituem o texto, hipóteses que funcionam como bagatelas, ninharias: o cego se matou; a amante do cego o empurrou no buraco; o marido da amante do cego lançou-o no abismo; a amante do cego acusa o guia e o ameaça, caso ele não namore com ela. O texto nasce dessa fala do guia, fala não confiável (o guia bebe), paradoxal, buscando uma confirmação do interlocutor, que nada diz. Texto que nasce de paradoxos e delírios: o cego acha que está vendo, mas nada vê. O guia é também um leitor para o cego, mas mente nas suas leituras. Ele afirma, por exemplo, que a mulher feia é bonita e o cego se apaixona. O guia é como um tradutor-traidor para o patrão, Seô Tomé; traduz, mas trai. O nome do cego – Seu Tomé – aponta para o apóstolo São Tomé, que simboliza o ver para crer. Já o guia, sempre embriagado, crê e não crê no que vê. A estória vai assim se construindo nessa instabilidade do sentido, nesse périplo ao avesso.

Bolle (1973, p. 115), em seu estudo, pergunta se Antiperipléia não seria um conto de iniciação em Tutaméia. Acreditamos que ele tem razão. Trata-se, para o crítico, de um texto que contém elementos que surgirão em outras narrativas de Tutaméia, como a duplicação do narrador, a presença de paradoxos (ver/não ver, viajar/não viajar), enfim esta primeira narrativa tem como marca a categoria do não-senso, traço marcante das Terceiras estórias, como já apontou Nunes.

Interessante notar nesta estória alguns elementos de subtração que se insinuam, principalmente no que se refere ao foco narrativo. O guia de cego tem um interlocutor mudo, que ouve e nada diz. Nesse sentido, o conto dialoga com o doutor que escuta e anota a conversa de Riobaldo em Grande sertão: veredas. Nesse primeiro conto de Tutaméia, o interlocutor ouve e também anota. Como um copista, ele busca reproduzir o que escuta e, nessa reprodução, ele capta a linguagem do corpo: “Decido? Divulgo: que as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas. Suspiros” (Antiperipléia, p. 13). Quem estava falando era o guia. De repente, surge a palavra “suspiros”. Esse interlocutor do texto é uma outra voz que se coloca em ponto morto, possibilitando a fala do personagem-narrador. Interlocutor que é espelho do leitor e também do escritor, já que anota as reações do corpo do guia.

Barthes (2004a, p. 4) afirma que a escrita é uma armadilha, pois filtra elementos do corpo. O que se perde na escrita é o corpo. Guimarães Rosa tenta aqui, através da expressão “suspiros”, não apenas insinuar a presença de um interlocutor que anota em silêncio o que o guia diz, mas resgatar a presença do corpo na construção da escrita. Em outros termos, ele tenta escavar os elementos corporais que escapam ao escrito.

Como podemos notar, há personagens, neste primeiro conto, que aparecerão em outras estórias. Esse interlocutor silencioso parece ser o mesmo delegado Tio Dô, que surge em algumas narrativas de Tutaméia, principalmente nos contos envolvendo ciganos (NOVIS, 1989, p. 31).É o que acontece, por exemplo, na estória O outro ou o outro. Enquanto, nesse conto, o nome do delegado está explícito – Diógenes – cujo apelido é Tio Dô, em Antiperipléia seu nome se esconde, surgindo apenas sua profissão: “Delegado segure a alma do meu seô Tomé cego, se for capaz” (Antiperipléia, p. 13, grifo nosso). Esse interlocutor, o delegado, apenas ouve e anota em silêncio o depoimento do guia, personagem-narrador. Assim, a narrativa Antiperipléia, contendo personagens que aparecerão em outras estórias, (como é o caso do cego, do guia e do delegado) é um “conto de iniciação”, como propõe Bolle, levando o leitor a se deslocar para outras narrativas a fim de ampliar a rede de sentidos que fica sempre suspensa. Fragmentos de um texto se refletem em outros, criando efeitos inesperados e heterogêneos. São estilhaços de escrita que pedem uma precária complementação do leitor em outras narrativas. Nesse sentido, o texto de Antiperipléia, enquanto narrativa de iniciação, é exemplar. Ele supõe uma leitura do fragmento no conjunto da obra, como afirma João Alexandre Barbosa, comentando sobre a construção de Tutaméia:

[...] E é assim porque a obra rosiana, no seu conjunto, ao invés de permitir uma aproximação de tipo evolucionista, exige uma releitura do fragmento com vistas à totalidade ou, dizendo de outra maneira, faz sempre o leitor desconfiar de que o que ele lê como totalidade é ainda um fragmento: estilhaços de um discurso único que está presente antes na idéia da obra do que em suas realizações particularizadas (BARBOSA, 1989, p. 15).

Antiperipléia se apresenta como um bom exemplo do processo do narrar em Tutaméia, eterna viagem de ida e volta, périplo e antipériplo, escrita que se constrói pelo seu avesso, texto do paradoxo, escrita do litoral que articula elementos heterogêneos, como se pode constatar, por exemplo, nos provérbios invertidos, espécie de letras que vão pontuando não só esse conto, mas vários outros.

Antiperipléia é uma estória que se tece destecendo, possibilitando a emergência do não-senso por onde circularão várias outras narrativas do volume. Evidentemente esse

“não-senso” não corresponde ainda ao fora do sentido como se pode notar em Tresaventura ou em contos que serão abordados no último capítulo.

Estamos diante de uma narrativa circular: “tudo para mim é viagem de volta”, diz o guia. A circularidade é sugerida pela palavra “périplo”, navegação à volta de um continente, diz o dicionário. O título do conto já nos aponta para o mundo dos avessos. O vocábulo “antiperipléia” significa viagem ao contrário. Nesse sentido, é possível ler o livro, construído em forma de dicionário, como um périplo, viagem circular em torno de significantes. Em Tutaméia, as narrativas se destecem e se tecem. Enredos se desenredam, personagens acertam quando pensavam errar, como nos ensina Benedito Nunes. Antiperipléia é um portal de uma escrita que se quer antiviagem. Seus paradoxos, seus estilhaços narrativos, seus personagens que acenam para outras estórias nos levam a perceber uma escrita minimalista que escapa à linearidade e aponta muito mais para a estrutura de caleidoscópio, como já apontou Vera Novis (1989, p. 15).

Os avessos, exemplificados aqui principalmente através dos paradoxos, devem ser entendidos como forma de questionamento dos limites da linguagem. E é Nunes (1976, p. 205) quem nos auxilia nessa abordagem das Terceiras estórias: “O não-senso abeira-nos das coisas importantes que não podem ser ditas. É modo de dizer aquilo para o que falece expressão. Lúdico e revelador, exercita-se por meio dele, o jogo da linguagem até o seu extremo limite.” (Grifo nosso). É nessa linha que devemos entender os provérbios invertidos de Antiperipléia (e de outros contos): “Pior cego é o que quer ver”, “Só dou respostas é ao que ninguém me perguntou”.

A relação ver /não ver, presentificada no cego e no guia de Antiperipléia, pode ser estendida ao processo de escrever e ler, o que leva esse conto a dialogar com Partida do audaz navegante. A escrita, viagem à deriva, é como um jogo de cabra cega. Nela o escritor acredita ser o que melhor vê, mas sendo atravessado pela linguagem, nada impede que haja em seu texto pontos cegos e o leitor enxergue mais do que ele. As palavras do personagem- narrador, o guia, nem sempre são confiáveis, pois ele bebe e mente, dando contornos, delineamentos do que vê. O cego, enquanto leitor (e por que não escritor?) recria esses contornos reinventando-os a seu modo.

Há no texto duas perguntas significativas do personagem-narrador. O guia quer saber se o interlocutor ainda quer levá-lo para conhecer as suas cidades: “E o senhor quer me levar, às suas cidades, amistoso?” (Antiperipléia, p. 13). As cidades a que se refere o interlocutor correspondem ao bom senso, mundo da cultura, indiferente e cego diante da realidade social e atrasada em que vive o guia. A realidade do guia é outra, é o sertão-litoral

que se abre em viagem. Nela predomina o mundo do paradoxo onde tudo é e não é. Assim, o nomadismo do guia e do cego é muito importante. O modo de vida deles permite que se entenda a escrita de Tutaméia como escrita nômade por excelência, ambígua, deslocada, texto cujos personagens migram de uma estória para outra, texto cigano, cheio de imprevistos, acasos, inesperados. Tanto o guia, que não é confiável, que tem nome irônico, Prudencinhano, mas não é prudente, quanto o cego aparecem não só na última estória de Tutaméia – Zingaresca –, como também em A hora e a vez de Augusto Matraga, conto de Sagarana.

Essa idéia do nomadismo é um significante fundamental na obra de Guimarães Rosa. Muitas vezes ela se manifesta através do signo da viagem, que como vimos, nos aponta para o constante deslocamento do sentido, viagem que pode estar associada ao Real, sempre nomeado provisoriamente, necessitando de paradoxos para uma precária nomeação. Das viagens nas narrativas rosianas é que surgem os textos, misturas de ficção e realidades, restos e fragmentos. Nelas se aprende e se ensina, delas surgem casos, cacos de narrativas, que passam de boca em boca. Escrever é como um puxar cego ao contrário, um navegar sem rumo, desafiando o bom senso: “A gente na rua, puxando cego, concerne que nem se avançar navegando – ao contrário de todos.” (Antiperipléia, p. 13).

Há um deslocamento constante entre a posição de cego e de guia da mesma forma que esse deslocamento se dá entre escritor e leitor. O escritor pode ser um guia de um cego- leitor, sendo apresentado como aquele que sabe a estória e que vê tudo. No entanto, visto que a linguagem o ultrapassa, ele pode se tornar cego e ser guiado pelo leitor. O leitor, enquanto cego, pode ver mais do que imagina. Como o cego, o leitor fica apalpando signos e inventando o que não vê. O guia também inventa o que vê e o que não vê.

Na escrita, os papéis de leitor e escritor se aproximam e se invertem da mesma forma que se invertem os papéis de guia e de cego. Seu Tomé, como São Tomé, quer ver para crer. Tomé, da mesma forma que o guia, que bebe e delira, se aproxima da posição do escritor, pois pela imaginação ele pode ver além da realidade. Como podemos notar, é a relação dialética entre o ver e o não ver que alimenta a estória, numa, valha o paradoxo, síntese disjuntiva. O guia não viu e por isso o cego caiu no buraco. Mas pode ser que ele também estivesse tonto ou que o cego foi empurrado pela amante ou pelo marido dela. O conto vai se construindo nesse jogo paradoxal do ver e do não ver, do ler e do não ler, do construir e do desconstruir. Sujeito e objeto se misturam nessa viagem cega, como afirma Barthes (1977, p. 52):

[...] na cena do texto não existe [...] ribalta: não há por detrás do texto, ninguém ativo (o escritor) nem diante dele ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Ângelus Silesis): “O olho com que eu vejo Deus é o mesmo com que ele me vê.”

O guia dá “pedaços” de signos, farrapos do que vê e também do que não vê, já que traduz impressões nem sempre confiáveis – uma vez que bebe – para seu patrão. O cego remonta esses farrapos e impressões do guia. Nesse remontar, ele também trai, pois inventa, delira, chega a imaginar que está enxergando. Há, pois, no conto um processo de montagem e desmontagem. Ao contar, o guia se lembra do que ocorreu, lembranças metonímicas do que viu e do que acha que ouviu. Nessas lembranças ele acaba também inventando, preenchendo as falhas da memória com o que supõe ter visto.

Antiperipléia, texto nômade, com pontos cegos, escrita paradoxal por excelência, que abre o livro. Ler se apresenta neste conto como gesto do inventar o que não se viu (ou viu) nem ouviu ou se pensou ouvir. O delegado que ouve a estória do guia tem um apelido, Tio Dô. Seu nome, como aponta Vera Novis (1989, p. 31), aparece em outro conto de Tutaméia, O outro ou o outro.Seu nome é o mesmo do filósofo grego, Diógenes, que andava com uma lanterna, em plena luz do dia. Diógenes, enquanto representante da corrente cínica, corresponde ao guia da cidade, espécie de guardião da moral, homem que vê as mazelas dos outros, cegos diante das virtudes.

No conto rosiano, o guia não tem virtudes. A fala do guia, não sendo confiável, é endereçada a um mudo interlocutor. É do silêncio do delegado que nasce o texto-depoimento do guia, texto em forma de interrogação – há várias frases interrogativas no conto – deslizando por verdades que sempre escapam, que desembocam em pontos cegos, enigmas, indecisões semânticas magistralmente evidenciadas em paradoxos, provérbios invertidos (“O pior cego é o que quer ver”) dirigidos a um interlocutor desconhecido, que se coloca numa posição vazia do discurso, posição que lembra a do analista, vazio que, no entanto, possibilita a fala: “Vou, para guia de cegos, servo de dono cego, vagavaz, habitual no diferente, com o senhor, Seô Desconhecido.” (Antiperipléia, p. 16, grifo nosso).

Desse jogo de périplo e antipériplo, de ver e não ver é que se tece a rede de Tutaméia, iniciada em Antiperipléia, que abre o conjunto de contos das Terceiras Estórias, viagem ao avesso, escrita circular, colocada em ordem alfabética, mas astuciosamente desordenada pelo escritor mineiro no meio do livro com as iniciais de seu nome J.G.R, texto embaralhado, livro em forma de dicionário, sonhado por Rosa em entrevista a Günter Lorenz. (COUTINHO, 1983, p. 89).

Esse primeiro conto de Tutaméia, como vimos, é uma escrita que nasce de conjeturas, hipóteses, pedaços de lembranças, silêncios, traduções e traições de sentido, riscos e rabiscos, jogo que se inverte a toda hora, viagem pelos signos, viagem ao avesso: antiperipléia.

O Real sempre nos escapa e ele só é apreendido na mobilidade dessa viagem e antiviagem, que é o texto-litoral, sempre combinando elementos díspares. Na superabundância de sentidos deste primeiro conto de Tutaméia é que paira a ilegibilidade da letra.

Uma vez que o processo rosiano de criação é mais espiralado do que linear, Antiperipléia remete a Famigerado, conto de Primeiras estórias e anterior a Tutaméia. Vamos examinar, a seguir, de que modo elementos como a viagem, a imprecisão semântica e o esboço da ilegibilidade já estavam presentes na escrita de Guimarães Rosa, mas com significativas diferenças. Em Famigerado a narrativa é construída em primeira pessoa, entretanto o narrador observa de longe o personagem, o que não acontece com Antiperipléia, texto também construído em primeira pessoa, mas com um narrador “colado” ao mundo interior do personagem. Além disso, em Antiperipléia há a presença do narrador copista, que anota o que o personagem-narrador diz, o que não ocorre no conto de Primeiras estórias. No entanto, a imprecisão semântica de Famigerado possibilita o surgimento de humor, que emerge do gaguejar da palavra, e não dos paradoxos de Antiperipléia.