A trajetória de pesquisa que desenvolvemos durante esse tempo de mestrado nos levou por caminhos metodológicos que nos ajudaram a delimitar melhor nossos objetivos nesse estudo. Nessa trajetória, a decisão de realizar esse trabalho partiu de algumas oportunidades que nos apareceram ao longo do percurso.
A primeira delas foi o convite da nossa orientadora, logo no primeiro semestre do curso de mestrado, para participarmos de suas aulas de didática nas licenciaturas. Isso nos permitiu conhecer um trabalho com seminários temáticos que ela vinha realizando com os alunos que tinha como mote de discussão a questão da interdisciplinaridade. Essa prática desenvolvida pela professora nos deixou uma impressão muito positiva, pois com a heterogeneidade da turma em termo da pluralidade de campos disciplinares ali presentes, observamos uma rica dinâmica de troca entre os pares.
A partir dessa experiência, percebemos que, tendo como interesse principal observar o processo de desenvolvimento do pensamento interdisciplinar na formação de professores no âmbito da construção discente de significados (intersubjetivo) e sentidos (subjetivo), talvez fosse interessante escolher para análise essa disciplina, devido ao fato de na Universidade Federal do Ceará a mesma ser comum aos alunos das diferentes licenciaturas.
Instigou-nos o interesse de observar as interações entre os alunos das diferentes licenciaturas de modo que pudéssemos ver, na prática, o diálogo, as trocas e a construção de saberes entre sujeitos que, a partir de sua formação específica, traziam pressupostos epistemológicos diferentes.
Desse modo, a escolha dessa disciplina não foi aleatória, mas era de nosso conhecimento que, na disciplina de Didática6 da Universidade citada, por ser uma disciplina
6 A disciplina de Didática na Universidade Federa do Ceará é comum a todas as licenciaturas e tem a mesma carga horária para todos, exceto no curso de Pedagogia, no qual, apesar de também ser obrigatória, possui uma carga horária maior do que nas demais licenciaturas, sendo frequentada predominantemente por alunos do curso de Pedagogia.
pedagógica comum a todas as licenciaturas, e ser uma disciplina obrigatória para se obter o grau de licenciado, era procurada por alunos de licenciatura de diversos campos disciplinares. Ainda dentro desse interesse, percebemos haver ali um elemento completamente acidental, mas que terminou por convergir com os nossos intuitos, que foi o fato de que a universidade oferece uma flexibilidade para com os alunos que desejem fazer essa disciplina em outro centro diferente do seu caso tenham impossibilidade de horário ou outra dificuldade. A consequência dessa flexibilidade é que, na maior parte das vezes, as disciplinas de Didática nas diversas licenciaturas contam com a presença, na mesma turma, de alunos de áreas bastante diferentes. O que a priori se compunha como algo acidental, não pretensioso, meramente administrativo, terminou por se configurar em um espaço rico de encontro entre campos disciplinares distintos e que promove interações e trocas bastante interessantes.
Outro momento bastante diretivo à nossa trajetória foi o de que, no semestre que se seguiu a esse primeiro contato com a disciplina de Didática, começamos a cursar a disciplina de Etnografia Aplicada, que tinha como proposta a realização de uma pesquisa de campo a partir dos pressupostos da etnografia. Como já havíamos participado das atividades da disciplina de Didática no semestre anterior, e as atividades com os seminários temáticos estavam em consonância com o nosso desejo de investigar práticas intersubjetivas como espaço de tecer relações interdisciplinares, percebemos que era uma excelente oportunidade para ir a campo.
Desse modo, conversamos com a nossa orientadora sobre a possibilidade de ter como lócus de pesquisa sua disciplina de Didática, que teria início naquele semestre e, dentro da disciplina, fazer um recorte e observar como se desenvolviam essas relações interdisciplinares de maneira intersubjetiva em uma das equipes no seminário temático. Ela foi bastante receptiva a ideia, também seria uma oportunidade interessante de conhecer melhor as contribuições e nuances desse trabalho que ela vinha realizando.
Como já foi mencionado, outra escolha realizada desde o início foi a de que, no decorrer da disciplina, precisávamos delimitar uma situação coletiva para observar, um evento específico que nos possibilitasse focar melhor nosso estudo, sem nos perder no caldeirão de informações que as aulas trazem e, ao mesmo tempo, que nos oferecesse elementos para a reflexão sobre esse objeto.
A escolha do evento a se observar se deu logo que começamos a participar das aulas de Didática ministradas pela nossa orientadora nas licenciaturas. Percebemos que os seminários temáticos que debatiam a questão da interdisciplinaridade se sobrepunham em pertinência a qualquer outro evento.
A proposta desenvolvida nesse seminário era a de que os alunos, divididos em equipes, deveriam escolher juntos um único tema que o grupo achasse melhor e tinham que analisá-lo sobre diversas perspectivas, num viés integrador de conhecimento.
Para tanto, eles podiam lançar mão de uma das duas teorias trabalhadas na disciplina: As Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner (1995), ou Os Significados da vida
Humana, de Philip Phenix (1961). Essas duas teorias não se constituem exatamente como
teorias interdisciplinares, mas estão em consonância com o paradigma interdisciplinar por postularem que o homem é munido de diversas capacidades cognitivas e que deve explorar todas elas, aprendendo em forma de teia, fazendo conexões.
Nas nossas observações, percebemos que aquele seminário, como atividade coletiva direcionada à temática da interdisciplinaridade, com alunos na sua formação oriundos de campos disciplinares diferentes, promovia um diálogo interessante, com troca de conhecimentos entre áreas, tendo sempre como direção as especificidades da Escola.
Mesmo tendo consciência de que a experiência do seminário temático não é uma prática obrigatoriamente prevista nas disciplinas pedagógicas dos cursos de formação, e que a perspectiva interdisciplinar não é sempre explorada, enxergamos naquela atividade uma importante oficina de diálogo entre os diversos campos, uma atividade que se constitui como um ensaio ao que certamente será demandado no trabalho dos futuros professores. Desse modo, interessante de ser explorada, divulgada, repetida.
A pesquisa de campo foi uma experiência bastante exitosa que nos permitiu uma coleta significativa de dados. Como já mencionado, esse trabalho de incursão ao campo contou com um acompanhamento teórico-metodológico minucioso na disciplina de
Etnografia Aplicada à Educação, sem contar que nos permitiu um diálogo mais estreito com
a nossa orientadora ao longo do processo.