No terceiro encontro o grupo aparentou estar ainda mais à vontade em comparação com os encontros anteriores e todas as colaboradoras estavam presentes desde o início. Após algumas explicações referentes ao andamento do grupo, devido a um feriado, marcamos a data do último encontro. Falamos
que continuaríamos a falar sobre a prática clínica e Talita se prontificou a compartilhar seu atendimento.
Talita relatou o caso de uma paciente que trouxe um forte conteúdo religioso:
Estive atendendo uma mãe que relatava angústia por não saber como lidar com a escolha homossexual do filho. Trazia conflitos internos, expressos em frases religiosas como: “Deus não aprova isso. É pecado o que ele faz” etc. E sempre falando de Deus. Meu supervisor me orientou para falar com ela perguntando: se Deus é amor como ele agiria nessa situação como seu filho? Pois ela havia dito que Deus era amor, e foi quando fiz a intervenção recomendada. Na semana seguinte ela retomou aquele momento dizendo: “você lembra daquele momento que você disse que Deus é amor e respeita a privacidade de cada um. Eu pensei nisso...”. E relatou que havia decidido respeitar a escolha do filho e conversou com o ele sobre isso.
Eu achei interessante como isso esteve relacionado com a espiritualidade. Depois que ela percebeu esse amor que acreditava sobre Deus, e decidiu conversar com ele, percebeu que independentemente de tudo isso o amor estava acima, e eles conseguiram entrar em harmonia (...).
Discutimos os posicionamentos da Talita como terapeuta, falamos sobre a dificuldade de lidar com a temática trazida, referente à orientação sexual do filho da paciente, as suas crenças religiosas e ao apoio provido pelo supervisor para o atendimento. Segundo Talita, as colocações do supervisor proporcionaram alívio e confiança para seguir satisfatoriamente com o cliente.
Lembro que na primeira vez eu até fiquei preocupada e pensei, como vou levar isso à supervisão, mas depois que conversamos tranquilamente sobre o assunto e nas vezes seguintes tornou-se um algo normal, e ele [supervisor] não criticou, então me senti bem. E depois passou, fez parte mas não apareceu mais depois. E seguimos em frente com outros temas. (Talita).
Voltamos ao pouco espaço dado ao tema durante a graduação:
Na verdade estamos tendo agora mais supervisões, e ao mesmo tempo vendo a logoterapia, que pelo que vimos dá uma abertura mais a ela, mas tem essa questão de estarmos envoltos em uma comunidade religiosa, então existem esses temas, como o divórcio e a sexualidade, que apresentam esse conflito religioso-emocional latente. Estamos conversando sobre esses assuntos. (Mônica)
Logo em seguida Mônica e Ana relataram o atendimento de uma mãe e de uma filha, que eram atendidas separadamente por elas. A mãe falava de um conflito relacionado a um possível divórcio, permeado por questões de violência familiar e pelo conceito do casamento como algo sagrado. Discutimos este atendimento e notamos a tendência, tanto dos supervisores quanto dos
próprios alunos, de abordar outras questões, supostamente mais essenciais, quando o assunto religioso ou espiritual surgia. Pressupunham que o trabalho com os aspectos psicológicos resolveria as questões espirituais, consideradas secundárias.
É porque agente não está colocando realmente o foco no fato dela falar que Deus vai ajudar…estamos enfatizando o bem-estar e segurança dela e da filha, e realmente acabamos excluindo essa parte. Nós conhecemos, sabemos da importância, mas se podemos focar nessa parte física, no caso, o cuidado dela, ela ter de proteger- se, acabamos não comentando isso (...). (Mônica).
A nossa supervisora se ateve também à questão da segurança e ela também acabou excluindo essa parte, e acabamos ignorando a crença, que é importante para ela. (Mônica).
Agente se sente mais segura(...)para não falar algo errado e a professora ficar bem brava. (Natália).
Falou-se então da necessidade de auto-avaliação do terapeuta e sobre o fato de que a neutralidade, muitas vezes almejada, não ocorre tão facilmente.
Eu fiquei pensando a tendência que eu tenho. Porque nós acabamos seguindo os professores, e eu vejo mais como uma maneira que a pessoa enfrenta todos os desejos. (Júlia).
Acho que quando agente se sente desconfortável com uma situação acabamos tentando ficar neutros, mas ser neutro não é mais neutro, porque se fosse qualquer outra situação agente encararia, mas ser neutro nisso já acaba sendo fugir, porque aquilo vai de encontro com nossas crenças também. Agente acaba não concordando e pensando: mas não é assim que eu acredito, mas é assim que ele acredita. Então não vou tocar nisso, mas vou ficar neutro(...). (Luiza).
Natalia e Mônica trouxeram outros aspectos do diálogo sobre neutralidade:
Tem a questão da gente não concordar, e ficar como elas falaram, neutra (...) e tem a questão de identificar-nos com os mesmos conflitos, pois a minha crença também esbarra em minhas decisões, e então tem aquelas questões que o paciente traz que para você está muito nítido que concorda ou não e tem também aquelas questões que você fica extremamente identificada e isso também traz um conflito. Então acabamos trazendo para aquele espaço os seus conflitos em relação ao sagrado e as vezes isso trava. (Natalia).
E também se vem alguém e diz que quer assumir um comportamento ou ideia que está claramente contrária a seus valores o que você faz? Isso vai contra o que eu acredito, mas ele é o paciente isso é importante para ele, mas eu estaria indo contra meus princípios (Mônica).
Julia respondeu brevemente, com humor, dizendo: “Encaminha (...) [risos]. Natalia continuou, e diz:
Eu entendo que não estaria indo contra os meus princípios se o acompanho em sua decisão. Se eu estou caminhando junto com ele em sua decisão não estou decidindo por ele. E na minha crença Deus
deu o livre arbítrio para o ser humano decidir da maneira que ele quiser, então para fazer como Deus eu não posso deixar de acompanhar nessa escolha. (Natália).
Mas você acaba ajudando ele a escolher (…). Eu encaminharia porque eu preferiria não me ariscar. (Mônica).
Isso entra no que já estava sendo discutido sobre as crenças. Essas são as nossas crenças. Eu poderia questionar, sim, se fôssemos ter um peso decisivo na decisão do paciente. E não somente nesse assunto. Hoje eu encaminharia essa questão por não saber de fato se eu conseguiria lidar com ela. Eu manteria a neutralidade. (Júlia). Se for interferir no tratamento sem dúvidas o melhor é encaminhar. Mas a pergunta que eu ainda tenho é essa: até que ponto é uma questão profissional e até que ponto é uma questão extremamente pessoal. (Natália).
“Em nossa profissão”, disse Natália, o tratamento da religião “está bagunçadíssimo, mesmo no código de ética; enfim, é uma questão que está ainda em construção”.
A partir dos questionamentos referentes ao posicionamento frente a uma situação do paciente que de alguma maneira toque a espiritualidade de ambos, dialogamos um pouco sobre o que seria necessário na formação de um terapeuta para lidar com isso. Iniciamos discutindo sobre possíveis atitudes negativas dos terapeutas ao abordar esse assunto na clínica e houve várias respostas breves, dentre elas as seguintes: “Impor” (Talita); “Negar” (Mônica); “Fugir” (Júlia); “Que é o que mais fazemos (...)” (Natália).
Prosseguimos conversando, agora no sentido contrário: como se posicionar frente à espiritualidade como psicóloga clínica e que qualidades isso poderia ter?
“Saber questionar. Porque quando o assunto vem a gente não questiona e de repente, se fosse um outro assunto, nós nos interessaríamos mais; então nossa posição deveria ser de mais interesse. (Júlia).
Considerar isso como uma parte integrante e importante da vida de uma pessoa. Diante de tudo que a gente aprendeu aqui, eu acredito que seja um terapeuta que sabe reconhecer dentro da crença dele o que é sagrado o que desenvolve a sua espiritualidade de maneira sadia e consciente, acredito que esse seja o primeiro passo. (Natália). O que eu acho é que se deve respeitar a pessoa e o sofrimento que ela está trazendo diante de nós em terapia, porque não respeitamos se de repente mudamos de assunto para não entrar nele. (Talita). O conhecimento também. Porque o questionar faz com que conheça a visão e se colocar no lugar dela para que você possa criar empatia pelo paciente. Nós estamos falando muito no âmbito evangélico, mas no mundo todo existem muitas outras denominações e visão de mundo que a gente desconhece. Por isso a importância de fazer esses questionamentos para saber a visão de mundo dele. Pesquisar. (Ana).
Nós deveríamos realmente ouvir o paciente e ter uma boa escuta do que ele está falando, porque se de fato você não escuta você não entende o que ele quer te passar e assim você perde um ponto importante. E depois, quando estamos fazendo o relatório, percebemos que ele falou o fato importante, mas que nós não demos atenção ao que o paciente falou. (Mônica).
Eu acho que quando nós recebemos esses tipos de informações imediatamente nós nos deparamos com as nossas crenças e em seguida nossas atitudes vão ser de acordo com essa circunstância. E isso que é perigoso. Por isso eu considero que temos que estar bem com o nosso sagrado para que isso não influencie nessas circunstâncias. (Natália).
Houve comentários sobre vivências pessoais na graduação e dificuldades de encontrar espaço para falar sobre o assunto em sala de aula.
Então eu fiquei curiosa para saber do espírito que a paciente dizia ver atrás da terapeuta, mas a professora advertiu que quando acontecer essa situação é para falar para a paciente que aquele não é o momento e que não é para comentar sobre isso. Mas fiquei curiosa em entender isso psicologicamente e não houve espaço para falar (…). (Júlia).
Ao final, aproveitando alguns comentários referentes ao
autoconhecimento do terapeuta como positivo, propus a atividade a ser realizada em casa antes do último encontro: a execução de um genograma ou um relato autobiográfico que sinalizasse questões espirituais de sua família e de si mesmo. Pedi que o trouxessem para o último encontro, quando abriríamos espaço para quem desejasse falar sobre sua perspectiva e trajetória espiritual. As alunas, apesar de no início mostrarem alguma dúvida sobre a maneira de realizar a atividade, demonstraram desejo e curiosidade para fazê- lo. Assim, terminamos o terceiro encontro e despedimos ao grupo.