GEREÇ VE YÖNTEMLER
ĠSTATĠSTĠKSEL DEĞERLENDĠRME
Muito do que foi dito anteriormente se refere aos momentos iniciais da carreira de Machado de Assis. Mas é a partir de 1870 que começam a ocorrer algumas mudanças no
cenário brasileiro, tais como o processo de urbanização, a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871), a fundação do Partido Republicano (1871) e a entrada de um novo ideário no Brasil: as teorias cientificistas. Mudanças que informaram e formaram a maior parte de sua obra.
Segundo Emília Viotti da Costa (1999), é a partir da segunda metade do século XIX que ocorrem transformações significativas na sociedade brasileira, a permitirem um maior desenvolvimento do mercado interno e estimularem a urbanização. O processo inicia-se após 1850, com a primeira medida rumo à transição do trabalho escravo para o trabalho livre, através da Lei Eusébio de Queiroz, proibindo o tráfico negreiro, como também da Lei de Terras assinada neste mesmo ano. Mas as mudanças se deram também no âmbito material, com as ferrovias, a partir de 1852, a iluminação pública na cidade do Rio de Janeiro, em 1854, e a melhora nas comunicações através do telégrafo, que fizeram com que as notícias quebrassem o isolamento entre as cidades, e com o exterior.
Estas mudanças, além de estimularem o desenvolvimento de um mercado interno e da urbanização, implicaram também em alterações nos costumes da sociedade carioca, especialmente no que se refere à ordem familiar16. Com a europeização dos costumes, há uma diminuição na rigidez patriarcal, sendo que, até a primeira metade do século, as mulheres de alta classe viviam enclausuradas em suas casas, não tendo acesso a locais públicos, exceto para irem à igreja (COSTA, E., 1999, p. 244). Kátia Muricy (1988) também assinala a importância da urbanização para as mudanças na ordem familiar. A normalização médica, através da racionalização da vida aparece no discurso higienista nos fins do século XIX, e paulatinamente se percebe a decadência do pai como chefe da família, e a substituição do padre pelo médico no controle da norma familiar.
Neste contexto de transformação, surge um movimento político-intelectual que visa criticar a ordem imperial. A “geração de 1870”, formada por um grupo de intelectuais17 que adere às teorias científicas em voga na Europa, começa a questionar o imaginário do Império e a criar outro. Tendo em vista a explicação do povo brasileiro, como resultado da mistura de três raças, estes intelectuais se pautam nas teorias científicas raciais como forma de explicar a realidade social do país. Segundo Lilia Moritz Schwarcz:
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Para uma abordagem mais específica sobre a família patriarcal brasileira e a urbanização como fator decisivo na sua evolução, consultar Antonio Candido (1972) e Jurandir Freire Costa (1999). Faremos uma discussão mais aprofundada do assunto na quarta seção.
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A “geração de 1870” está sendo mencionada aqui apenas como referência aos atores que formavam nossa elite intelectual e que adotaram as teorias científicas européias. Roberto Ventura (1991) discute de forma mais acurada os debates e as idéias envolvendo seus membros e chama a atenção para o perigo de se pensar o movimento como um bloco homogêneo.
Misto de cientistas e políticos, pesquisadores e literatos, acadêmicos e missionários, esses intelectuais irão se mover nos incômodos limites que os modelos lhes deixavam: entre a aceitação das teorias estrangeiras – que condenavam o cruzamento racial – e sua adaptação a um povo a essa altura já um tanto miscigenado. (SCHWARCZ, 1993, p. 18-19).
Por outro lado, Angela Alonso (2002), a partir de uma análise política da geração 1870, critica tanto a abordagem que procura filiar os membros da geração a um ou outro ramo da corrente científica européia – cientificismo, positivismo, darwinismo social, spencerianismo e novo liberalismo, a fim de criar um pensamento filosófico nacional – quanto a abordagem que procura explicar o movimento geração 1870 a partir da emergência de novos grupos sociais que, mais modernos e ligados a uma dada “classe média”, pautados em novas “ideologias”. Para a autora, esses dois enfoques perdem de vista a especificidade do movimento da geração 1870 no contexto do Segundo Reinado, pois, antes de criar uma filosofia própria, o movimento tinha por objetivo a participação política e seus membros não formavam um grupo coeso, possuindo representantes de “novos” segmentos sociais, mas também representantes de grupos em decadência ou reorganização. Assim, em sua análise sobressai a atuação política da geração 1870, que não pode ser pensada fora de sua atuação intelectual, uma vez que fora através do repertório cientificista europeu que esses intelectuais- políticos criticaram a ordem imperial. Desta forma, o enfoque é posto sobre a atuação política desses intelectuais, cujo sentido advinha da experiência comum de “marginalização política”:
Foi em busca de subsídios para construir uma crítica às instituições e valores do Segundo Reinado e propor programas de reforma que o movimento da geração 1870 se alimentou de duas fontes principais: o repertório da política científica e a própria tradição político-intelectual brasileira. (ALONSO, 2002, p. 332).
Os escritos dessa geração, filiados às teorias cientificistas e liberais européias, visavam explicar a realidade brasileira em um contexto de crise da ordem Saquarema, mas também intervir sobre a realidade. Adaptaram e selecionaram, para isto, no “repertório” europeu, as teorias que melhor explicassem e dessem subsídios para interferir na realidade, mas pautando-se na tradição política brasileira, avessa às revoluções populares e de caráter elitista, uma vez que se viam como os únicos capazes de guiar a nação rumo à modernidade.
Sílvio Romero (1851-1914), um dos maiores representantes da geração de 1870, utilizou critérios naturalistas e evolucionistas para explicar a obra de Machado de Assis, sem compreender a postura crítica de Machado em relação ao uso desses critérios na literatura. “Sílvio não percebeu as críticas de Machado ao naturalismo e ao cientificismo, nem a sua
ruptura com a estética romântica e realista, a partir das Memórias póstumas de Brás Cubas, que chama de ‘bolorento pastel literário’.” (VENTURA, 1991, p. 97).
Exatamente o que se percebe na leitura de seus contos, pois, por não aderir a nenhuma doutrina, Machado de Assis pôde estabelecer uma relação crítica com a realidade de seu país e de seu tempo. Fez isto questionando os interesses de grupos sociais, através da exposição de situações individuais e de análises aparentemente psicológicas, bem como do papel da ciência como forma de se manter e legitimar situações de violência por meio de histórias que satirizam a pretensa neutralidade da ciência a partir de comportamentos doentios de suas personagens.
Ainda que não seja razoável pensar a obra de Machado de Assis como mero produto da sociedade, notamos que ele assumiu posições particulares, que podem decorrer de sua biografia, mas, certamente, derivam de sua trajetória intelectual. Sem aceitar o ideário científico como modo conveniente para a criação literária, Machado de Assis tinha consciência de que essas idéias não eram suficientes para lidar com as relações de poder que se estabelecem nessa ordem escravocrata e patriarcal.