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ĠSTATĠSTĠKSEL DEĞERLENDĠRME

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ĠSTATĠSTĠKSEL DEĞERLENDĠRME

A dinâmica cultural do catolicismo a ser observada na África Central era a reprodução do poder do papado em termos de estrutura hierárquica, poder de negociação com as Coroas e condições financeiras para sustentar as missões durante um período considerável. Como parte interna das fronteiras eclesiásticas, o instituto de Lavigerie foi sendo configurado a partir das disposições legitimadas por Roma, posto que Charles Lavigerie obteve significativas posições de destaque — nomeações no Oriente Médio, bispado, arcebispado até o cardinalato. Assim, ao caracterizar a dinâmica dessas disposições, às quais o instituto se vinculava para efetivar sua identidade específica, é observada a tensão entre os interesses do instituto e as práticas efetivadas nos postos do interior africano, quando os missionários tinham que adaptar a pretensão da universalidade romana ao que era assimilado pelas populações sob o domínio dos Babemba20, região esta que denominamos de Bembalândia.

Os Babemba serão apresentados em sua interação com os missionários, embora nos diários não houvesse uma preocupação per se em discriminar os grupos locais. Além disso, como foi demonstrado na introdução sobre o conjunto de narrativas missionárias, os Babemba haviam se tornado o tipo ideal de nativos, modelo para a classificação dos demais. Por isso, a utilização da lenda migratória dos Babemba, mitificada pela história da expansão do império Lunda-Luba, pôde caracterizar seu domínio simbólico a partir da relação de determinados clãs: a descrição sobre os Babemba apresentou traços primordiais operantes que escaparam à análise das categorias cristãs; esses traços podem ser encontrados em diferentes grupos da África Central, reforçando a hipótese de Owen Kalinga (1985), na mesma linha de Comaroff

19Em vários momentos no seminário eu escutava dos superiores a respeito desses conflitos de fronteira de forma

aberta, que, segundo relatado, alguns missionários decidiam tirar do sustento dos postos, tanto na forma de dinheiro quanto de alimentos, para partilhar com os moradores locais, outros tirando de sua herança familiar para construir benfeitorias no vilarejo como açudes, pontes e compra de medicamentos para serem distribuídos. Essas ações geravam certas inconveniências no trato local em que esse tipo de missionário-benfeitor desenvolvia interações menos assimétricas com os locais do que os de atitudes reconhecidamente mais clericais, isto é, de maior visibilidade dessas fronteiras.

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Adotamos Babemba para identificar a população Bemba, bem como ser o termo mais usual na Zâmbia para se referir a essa população (Bemba people ou Babemba). (Ver apêndice sobre essa discussão).

e Comaroff (1992), de o cristianismo e a modernidade como no caso dos reformistas holandeses, boers, criar o nativo modelar, como então teria acontecido com os Babemba.

De uma forma contrastiva com os diários dos exploradores que geraram notoriedade ao seu autor, quando estávamos fazendo a coleta de dados nos arquivos, buscamos conhecer a autoria dos diários dos postos missionários. Assim, perguntamos ao padre François Richard, responsável pelo FENZA em 2009, onde poderiam ser encontrados os nomes dos missionários, padres ou irmãos, responsáveis pela confecção dos diários em cada posto, já que não havia qualquer menção à autoria nos arquivos. Padre François afirmou que a prática era a de ser um missionário disponível ou presente naquele dia ou algum deles que havia sido designado em um momento ou outro, sem haver uma preocupação per se de quem deveria ser. Nesse sentido, não havia uma nomeação eclesiástica para essa função ou até poderíamos dizer ser uma ação eclesiástica burocrática, sem estar conectada a um cargo específico. Conforme a situação dos missionários nos postos, por exemplo, em viagem nas outstations, em retiros ou doentes, outro missionário assumia a tarefa. Generalizamos ser um missionário, para evitar o risco de reproduzir equívocos quanto à competência dos padres sobre os irmãos, tendo em vista a prioridade da formação acadêmica para os padres, e técnica, para os irmãos. Por isso passamos a investigar os diários como uma das funções do posto, enfatizando a narrativa da comunidade, então, buscando legitimar a reprodução da autoridade eclesiástica (BOURDIEU, 2007). Em contraposição à impessoalidade da autoria do missionário-escritor dos diários, que aqui denominamos de diarista, era enaltecida a pessoalidade da comunidade, com suas tensões e preocupações predominantes. Assim sendo, a autoria e a autoridade dos diários foram consideradas a partir das determinações de Lavigerie, segundo as quais todo posto deveria retratar a missão e tornar pessoal a vivência do catolicismo entre os africanos.

As narrativas dos postos eram feitas por eventos selecionados pelo diarista no dia. Por isso, há escritos sobre caçadas, doenças, confrontos políticos com os chefes locais, com os outros missionários cristãos (anglicanos e escoceses), com visitas de autoridades coloniais ou descrições de algum evento da população local, como brigas ou invasões. A escolha da forma e do conteúdo a serem relatados pelo diarista não seguiam um protocolo. A princípio, era um relato sobre algo ocorrido em um período de tempo e nem sempre era feito diariamente, como esperado por Lavigerie, porém eram apresentados eventos de um dia ou de uma semana ou até de um mês, pela disponibilidade e interesse daquele que o escrevia. Por esses saltos temporais, os diários apresentam hiatos que podem ser preenchidos pela contraposição com diários de outros postos, de documentos ou relatórios, se se tratar de uma questão pertinente aos interesses dos superiores próximos, padres superiores e bispos do vicariato, monsenhor ou

bispo, ou de seus dirigentes institucionais, Lavigerie, Livinhac e Birraux. Mas se for relativo às questões específicas às missões como fome, visitas das autoridades coloniais, de chefes ou de viagens de reconhecimento.

Benzer Belgeler