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A primeira categoria observada relaciona-se com um aspecto que permeia todo o projeto da revista Ocas, tanto no que se refere às escolhas das pautas das matérias e suas abordagens, até mesmo a circulação da revista. A cultura é o eixo central e inicial para a própria existência da revista como estratégia de renda para a população em risco social. A principal evidência desta questão é, como já foi apresentado ao longo desta dissertação, a busca por locais de intenso fluxo cultural – já consagrados nas cidades onde circula – como pontos de venda estratégicos.

Nas 12 edições estudadas, a presença do tema cultura é constante, sobretudo nas matérias de capa. Durante os dois anos que abrangem este estudo, todas as reportagens e entrevistas que foram destacadas na capa da publicação refletiam alguma faceta da cultura urbana, conforme quadro a seguir:

39 Neste estudo há referências a matérias e reportagens quase indistintamente. No entanto, para a análise propriamente dita, diferenciam-se matérias de reportagens no que se refere à estrutura: considera-se a reportagem como sendo o texto jornalístico composto de duas ou mais matérias, ou o texto de maior extensão. No caso específico da revista Ocas, as reportagens se concentram especialmente na seção “Capa”.

Ano/número Capa Tema

2009/ nº 63 Entrevista: Zizi Possi Música 2009/ nº 64 Reportagem: Vik Muniz Artes plásticas 2009/ nº 65 Entrevista: Fernando Bonassi Literatura/Cinema 2009/ nº 66 Entrevista: Milton Nascimento Música

2009/ nº 67 Entrevista: Drauzio Varella Saúde/Literatura 2009/ nº 68 Reportagem: Copa do Mundo

de Futebol de Rua

Esporte

2010/ nº 69 Entrevista: Marcelo Tas Mídia/literatura 2010/ nº 70 Reportagem: filme Topografia

de um desnudo

Cinema

2010/ nº 71 Entrevista: Paulo Betti Arte/Televisão/Cinema 2010/ nº 72 Entrevista: Paulo Caruso Artes/Mídia

2010/ nº 73 Reportagem: Esporte Social Clube

Esporte

2010/ nº 74 Reportagem: Cinema e Direitos Humanos

Cinema

Quadro1: A cultura como tema constante – Capas da Revista Ocas 2009/2010. Fonte: pesquisadora

Ora, esse destaque aos temas culturais se relaciona estreitamente com a estratégia de circulação da revista, vendida em espaços essencialmente ligados à cultura. Em São Paulo, a revista é encontrada em locais como MASP (Museu de Arte de São Paulo), Espaço Cultural Unibanco (cinema, localizado na Rua Augusta, referência da cultura urbana paulistana), Itaú Cultural, universidades, entre outros espaços vinculados à questão cultural. No Rio de Janeiro o mesmo se repete, com os pontos de venda como Cine Odeon, Centro Cultural Banco do Brasil, Cine Estação Botafogo, Espaço Unibanco e universidades. Fica evidente a relação estratégica entre os temas “centrais” da revista, as reportagens de capa, que conferem visibilidade às edições, e os locais onde é vendida a publicação.

Mesmo na seção “Cabeça sem teto”, dedicada exclusivamente a temas que reflitam sobre a condição da rua e exclusão social, muitas vezes o tema é introduzido por meio de fatos relacionados à cultura. Na amostragem estudada nesta pesquisa, tal fato ocorre em três edições específicas. Na edição número 66 (julho/agosto 2009), a seção se dedica a divulgar o trabalho da cineasta e psicanalista Miriam Chnaiderman, que trata em seus documentários sobre a realidade das pessoas em situação de sofrimento psíquico, o que, muitas vezes, também é a realidade de quem vive na rua. Já na edição número 70 (março/abril 2010), é destaque da seção o tema dos artistas de rua – desde as dificuldades, até a paixão por exercer a arte, em especial a música, na rua. A edição número 72 (julho/agosto 2010) fala sobre a

Virada Cultural, fazendo um paralelo entre a questão da ocupação das ruas pela população por ocasião do evento e a realidade da vida na rua, vivenciada por mais de 13 mil pessoas na cidade de São Paulo, segundo dados da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), divulgados no texto da seção. Nesta última edição o texto termina com curta, mas reflexiva pergunta, que sintetiza o paralelo feito ao longo do texto: “Ele [morador de rua] não fala muito sobre o assunto, mas diz ter fé numa virada. Virada Social?” (São Paulo “em situação de rua” por 24 horas. Revista Ocas, n. 72, pp. 08-09).

As abordagens da questão cultural na seção “Cabeça sem teto” demonstram uma preocupação mais qualitativa com a questão cultural que também perpassa as reportagens de capa, ou seja, é pressuposto para o jornalismo da Ocas que a cultura é componente social com grande poder transformador. Por isso, muitas das fontes ouvidas pela revista para suas reportagens de capa são apresentadas a partir de seus posicionamentos – profissionais, políticos e sociais em geral – diante das questões culturais com que lidam no dia a dia.

No ano de 2009, quatro edições dedicaram a seção “Capa” para entrevistas com personalidades. Zizi Possi (edição número 63) é apontada como cantora que busca independência das gravadoras. Fernando Bonassi (edição número 65), numa entrevista-perfil, é destacado como artista de personalidade marcante, preocupado com as questões relacionadas à marginalização de pessoas, e muito fiel os valores que preza – capaz até de abandonar trabalhos por não concordar com os rumos tomados. Em curta entrevista, Milton Nascimento é abordado como ícone da música brasileira, mas também é arguido acerca de seu posicionamento sobre os rumos do país, em uma única pergunta genérica (“Como vê o Brasil de hoje?). Por fim, a entrevista com o médico e escritor Drauzio Varella revela, para além de um profissional preocupado com as questões de saúde pública e saúde nas instituições estatais de prisão, um escritor sensível com relação às questões da finitude da vida e da felicidade, além de um comunicador atento à importância da informação (e a comunicação) para a prevenção e tratamento de doenças.

Em 2010, foram três edições com entrevistas de personalidades. Marcelo Tas é apresentado como destacado jornalista com atuação voltada às denúncias políticas, utilizando o humor para informar. Paulo Betti surge como exemplo de ator com consciência, penetração e ativismo no que se refere à política, com destaque a sua relação com o partido ao qual é filiado, bem como os trabalhos sociais que realiza na área artístico-cultural. Na última entrevista publicada com destaque de capa em 2010, Paulo Caruso é apontado como importante observador e crítico da política brasileira, o que seria a base para o seu humor traduzido nos cartuns.

As reportagens de capa da revista Ocas também apresentam fontes relacionadas à cultura. Nas duas reportagens de 2009 foram consultadas 08 fontes sob um viés cultural: Vik Muniz, que transforma lixo reciclável em arte; Sebastião Santos, Carlos Santiago e Leidi Laurentina da Silva, catadores de recicláveis que tiveram a vida modificada por meio do trabalho com as artes plásticas; Pupo Fernandes, técnico da seleção brasileira de futebol de rua; José Santana Augusto Santos, Ronaldo Gonçalves dos Santos Filho e Jeferson Ferreira dos Santos Almeida, jogadores de futebol de rua, que transformaram suas vidas pela atuação no esporte.

Em 2010, as três reportagens publicadas deram voz a 30 fontes ligadas à cultura, sempre num contexto em que a cultura aparece como potência transformadora ou contestadora de realidades, em especial da exclusão, desigualdade e injustiça sociais. Das fontes ouvidas, 17 eram cineastas que apontavam a importância da produção cinematográfica para levantar discussões substanciais na sociedade; uma fonte era institucional – no caso, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – que informa sobre o precário número de salas de cinema nas cidades brasileiras; outras oito pessoas consultadas falaram sobre o esporte como alternativa para superar os problemas da exclusão social; e quatro outras fontes ressaltaram a importância do tema de um filme como instigador da discussão sobre as políticas higienistas promovida pelos governos.

Assim, observa-se que a revista procura imprimir como marca a abordagem da questão da exclusão e desigualdade sociais por meio de temas culturais. Além de destacar os posicionamentos diferenciados de pessoas que atuam com a cultura, por exemplo, trabalhos ditos “independentes”, o periódico estudado ainda ressalta as ações ligadas à cultura como iniciativas importantes para retratar, discutir e superar os problemas sociais urbanos.

4.7.2 “Saindo das Ruas”

A situação de exclusão e desigualdade sociais é a segunda categoria destacada neste estudo, justamente por se tratar do tema crucial para o projeto da revista. Para o assunto, é reservada uma seção especial em todas as edições da revista, dada a posição central que o tema para a construção identitária do próprio projeto OCAS.

A própria denominação da categoria – “Saindo das ruas” – repete o slogan que a revista traz estampado em suas capas41 desde seu surgimento, em 2002. A frase, como já apontado na primeira apresentação da revista neste trabalho, remete tanto ao projeto social em

41 A partir da edição número 78 (julho/agosto 2011), em que há uma reformulação gráfica na revista, o slogan não aparece mais na capa. Por não ser o foco desta pesquisa, a questão não é abordada.

si – que visa oferecer alternativas para que pessoas deixem de viver nas ruas –, mas também à influência que a questão da desigualdade e exclusão social exercem sobre o conteúdo da revista, que de certa maneira também é “retirado” das ruas.

A proposta da seção “Cabeça sem teto”42 é justamente ser um canal de expressão das questões relacionadas à exclusão social, em especial as situações de rua e risco social. Tal fato fica evidente na presença de textos escritos por vendedores da Ocas, pessoas em situação de rua, bem como ex-moradores de rua. No quadro abaixo, além dos temas abordados pela seção, também são elencados os autores dos textos: dos 23 envolvidos com a confecção dos textos, apenas oito pessoas não têm experiências pessoais de vivência de situações de risco social, ou de rua.

Além disso, todos os temas, como relatados a seguir, se dedicam a explorar um aspecto que se relacione com a questão da situação de rua ou, de maneira mais genérica, da exclusão social.

Ano/número Cabeça sem teto: tema Autor

2009/ nº 63 Realização de seminário do Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua

Luciano Rocco

2009/ nº 64 Projeto de alfabetização da população adulta em situação de rua. O segundo texto fala sobre os problemas da operação “Choque de Ordem” para atendimento aos moradores de rua

Márcio Seidenberg (texto1)/ Sebastião Nicomedes (texto2)

2009/ nº 65 Difícil enfrentamento das

baixas temperaturas pelo qual passa a população de rua nas estações frias

Sebastião Nicomedes

2009/ nº 66 Entrevista com a cineasta e psicanalista Miriam

Chnaiderman, que trabalha em documentários com a população em sofrimento psíquico

Márcio Seidenberg, com colaboração de Antonio Brasiliano

2009/ nº 67 Lançamento do Instituto

Vladimir Herzog e a luta por justiça, direitos humanos e democracia

Ana Otília Soares, Debora Galvani, José Fernandes Junior e Tula Pilar Ferreira

2009/ nº 68 Contexto de negligências e Alderón Costa

42 Conforme Márcio Seidenberg, jornalista e presidente do Conselho Executivo da Ocas, em entrevista já citada neste trabalho.

preconceitos em torno da morte do morador de rua José Pereira Ribeiro

2010/ nº 69 Troca de cartas e a manutenção da amizade entre ex-vendedor e um leitor da Ocas (que também é escritor)

Arlindo Gonçalves (leitor)/ Carlos Donizete Duarte (ex- vendedor)

2010/ nº 70 As dificuldades e peculiaridades da vida dos artistas de rua

Debora Galvani, João Rodrigues da Rocha (Montreal), Jovenil Ribeiro e Marília Nascimento

2010/ nº 71 A realidade das ocupações de prédios urbanos

Ricardo Senra

2010/ nº 72 A Virada Cultural sob a

perspectiva de quem mora na rua

Bob Neto, Edmar Gonçalves, Sidney Cardoso e Valter Machado

2010/ nº 73 Depoimento de moradores de rua sobre a inadequação do tratamento oferecido pelo sistema de albergues

Alexandre Machado e Wallace Rosa

2010/ nº 74 A importância da solidariedade para a superação de situações de exclusão

Sidney Cardoso e Salvador D’Acolá

Quadro 2: Situação de rua publicada na seção Cabeça sem teto. Fonte: pesquisadora

Nas reportagens de capa o tema da exclusão e desigualdade sociais também aparece de forma direta ou indireta. Na amostra estudada, destacam-se as seis edições seguintes no tratamento da questão:

ƒ Edição número 65: na entrevista com Fernando Bonassi o tema da exclusão social é abordado de forma indireta, ao serem citadas as obras do autor que tratam da marginalização social, além de ser abordada a dificuldade pela qual o escritor passou até obter reconhecimento, já que o mesmo tem origem na classe operária, sendo considerado um caso de “ascensão social”.

ƒ Edição número 67: na entrevista com o médico Drauzio Varella, várias perguntas faziam referência à saúde da população de rua. Além disso, a própria atuação do entrevistado como voluntário em presídios, levanta a questão da qualidade de vida de pessoas em situação de risco social, no caso, a institucionalização estatal para pagar um crime.

ƒ Edição número 68: na reportagem sobre a Copa de Mundo de Futebol de Rua, que seria realizada no Rio de Janeiro, é destacada justamente a questão da importância da modalidade para a superação da condição de exclusão e desigualdade social. A

reportagem acaba por se configurar quase como uma “propaganda insititucional” do projeto “Futebol Social”, que busca alternativas para a situação do risco social através do futebol.

ƒ Edição número 70: a divulgação do filme “Topografia de um desnudo” é pano de fundo para tratar da questão das políticas higienistas para o tratamento da população de rua e em risco social.

ƒ Edição número 73: a reportagem reúne experiências de superação da exclusão de qualquer tipo por meio de variados esportes, desde o futebol passando também pelo boxe e natação.

ƒ Edição número 74: edição dá destaque à produção cinematográfica de documentários latinoamericanos que tratam de questões relativas aos Direitos Humanos, por ocasião da Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul.

Vale ressaltar que, nos dois anos estudados, todas as vezes que a revista publicou reportagens e não entrevistas na seção “Capa” – o que ocorreu precisamente cinco vezes, nas edições números 64, 68, 70, 73 e 74 – os temas tratados sempre faziam referência à questão da necessidade de ações efetivas para superar a exclusão social.

Os dados reforçam a atuação da revista como fonte de visibilidade para as situações que envolvam risco, sofrimento, desigualdade e exclusão social. Mas não só: a presença dessas preocupações também na reportagem de capa – o que ocorre em exatamente 50% da amostra escolhida para este estudo – demonstra a busca de uma harmonia entre os temas tratados numa mesma edição43, ou seja, uma coesão editorial em cada número publicado pela revista, assim como uma coerência com o projeto social responsável pelo periódico.