poeta agrega um enredo conhecido do povo nordestino, todavia utilizando personagens da história de Carlos Magno. No segundo exemplo, tem-se um texto completamente diferente das tramas carolíngias, entretanto, no cerne do texto, um arquétipo aproxima o herói carolíngio do cangaceiro nordestino.
Tendo como referência o eixo paradigmático, a primeira referência destacada é o folheto Roldão no Leão de Ouro, pois este folheto pode ser associado aos dois eixos em questão. Essa narrativa está contida na matriz das tramas carolíngias, logo, se adequa ao eixo sintagmático. Porém, esse folheto também pode ser relacionado ao eixo paradigmático devido à sua associação a uma narrativa recorrente da cultura nordestina, O pavão misterioso22. Neste folheto, o enredo gira em torno de um pai que protege excessivamente a filha, desse modo, Evangelista – o rapaz enamorado – utiliza um artifício extraordinário para ter acesso à filha do rei. Evangelista, então, encomenda uma
22 Segundo Romero (1977), a narrativa O pavão misterioso é um dos maiores sucessos do cordel. A versão de José Camelo de Melo Rezende data o final dos anos 20.
máquina voadora com o intuito de chegar ao quarto da moça, o dito pavão. A descrição da máquina é a seguinte:
Movido a motor elétrico Deposito de gasolina, Com locomoção macia
Que não fazia buzina A obra mais importante Que fez em sua oficina. Tinha a cauda como um leque
E as asas como pavão Pescoço, cabeça e bico Lavanca, cabeça e botão
Voava igual ao vento
Para qualquer direção. (RESENDE, 1980).
No caso de Roldão no Leão de Ouro ou O Príncipe Roldão no Leão de Ouro, um arquétipo é produzido, ao invés do pavão tem-se o leão, todavia o plot é o mesmo do citado acima. Em uma das sextilhas do folheto supracitado, pode-se ler o tema da história.
Leitores, matai o tempo Que é boa distração Saber como uma princesa
Estava numa prisão E Roldão pôde roubá-la
Escondido num leão23.
Observando a composicionalidade da obra tem-se uma relação entre textos de uma mesma tradição como descreve Kabatek (2006), entretanto esse texto é recriado pelo poeta e agregado à tradição carolíngia. Nota-se que no eixo paradigmático ocorre uma seleção de elementos por parte do poeta que são pontuais nas duas narrativas. O mais significativo, no entanto concerne à utilização de um enredo assaz popular entre os nordestinos no início do século XX e que permanece até nossa época, juntamente associado a personagens do ciclo carolíngio. Essa associação descrita entre um enredo famoso e personagens populares, extremamente conhecidos do povo, nos remete as palavras de Costa Leite, “O poeta só arranja pão em seus versos quando sabe agradar o povo”. (CURRAN, 1973, p. 274).
Kabatek (2006) acrescenta que “uma Tradição Discursiva não é sempre um texto repetido sempre da mesma maneira”, pois como indica a palavra tradição, aquilo que é passado de geração para geração, e nesse processo nômade, algo sempre é transformado, atualizado. Segundo a descrição kabatekiana “pode ser também uma forma textual ou uma combinação particular de elementos” (KABATEK, 2006). O pensamento de Santos (2006) é compatível com a teorização kabatekiana, pois o ato de conceber um novo texto está intrinsecamente ligado ao presente, ou seja, a realidade do poeta. A autora propõe que:
Reviver o passado ou descobrir sua significação, não significa reencontrar ou recriar os fatos, as sensações ou as vozes tal qual foram vividos, ou ouvidos ou sentidos em algum momento do passado. Implica, pelo contrário, refazer, reconstruir e repensar as experiências do passado com as imagens, as palavras e as ideias de hoje. (SANTOS, 2006, p. 15).
Ao relacionar a conceituação kabatekiana sobre tradição discursiva e agregado ao pensamento de Santos (2006) sobre a composição de histórias pelo poeta popular, vislumbra-se que ambos os pensamentos convergem para o segundo exemplo demonstrado no eixo paradigmático, aquele em que há uma seleção e reelaboração de um texto em uma tradição discursiva. Um dos exemplos que será averiguado concerne precisamente ao folheto intitulado de As lágrimas de Antônio Silvino por Tempestade (s.d.), de Leandro Gomes de Barros.
É importante destacar nesse caso que, Leandro Gomes de Barros é um conhecedor da história de Carlos Magno, e nesse folheto, o poeta irá criar um texto a partir de uma passagem/trecho da narrativa de Carlos Magno – o momento da morte dos Pares, todavia completamente ambientado no sertão nordestino, contando com personagens locais, porém o enredo é um arquétipo de uma passagem da trama carolíngia24.
Abaixo, observa-se o trecho do texto extraído da versão portuguesa da História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França (1864). Sobre a morte de
24 Essa associação entre Carlos Magno e Antônio Silvino já foi descrita nas obras de Ferreira (1979) e Santos (2006), porém somente como ilustração de um fenômeno que visa a atualização do mito na literatura de cordel.
Roldão, tem-se a seguinte descrição encontrada no quarto capítulo da obra. O relato é o seguinte:
Figura 4 – Lamento de Carlos Magno sobre a morte de Roldão. A partir desse mote, o poeta Leandro Gomes de Barros tece uma aproximação simbólica com a morte de Tempestade25.
Nota-se no trecho do texto extraído do folheto As Lagrimas de Antonio Silvino por Tempestade, de Leandro Gomes de Barros, uma construção discursiva ambientada nas narrativas nordestinas. Toda a argumentação exposta acima é retomada nessa composição do poeta paraibano, pois simbolicamente um elemento/evento da sucessão sintagmática da narrativa de Carlos Magno, precisamente a passagem em que um dos Pares de França é morto, é evocado, todavia centrada em um tempo e um espaço diferente, o sertão nordestino.
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Figura 5 – Trecho do folheto As lágrimas de Antônio Silvino por Tempestade, de Leandro Gomes de Barros.
Partindo de uma relação arquetípica, ou uma espécie de palimpsesto entre um texto A e B, as duas personagem em questão – Carlos Magno e Antônio Silvino – dialogam pelo viés da aproximação semântica e de conduta. Todavia, é importante não olvidar que em uma equiparação simbólica entre signos de culturas distintas, se faz necessário um conhecimento das ações de um elemento A, para que ocorra uma aproximação semântica junto ao elemento B (LOPES, 1981). No quadro abaixo, há uma indicação ou ponto que intercessão entre os dois signos que sofrem o processo de permuta simbólica.
Esquema 3 – O ponto de convergência entre o signo