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A área de Saúde é constantemente criticada pelo baixo investimento em TI. Segundo Tedeschi (2000) e Coile (2001), os investimentos hospitalares são de 3,9% do faturamento, uma porcentagem bastante reduzida se comparada a outros segmentos, como o de bancos, cujos investimentos ultrapassam 10%. Dados mais recentes do Gartner (SMITH & GOMOLSKI, 2007) mostram que o percentual dos prestadores é um pouco

superior, 4,3% do faturamento, e está acima da média dos demais setores (3,9%). No Brasil, a Saúde apresenta um índice de 6,3%, inferior ao da média de serviços (10%) e menos de um terço do setor financeiro (19,6%) (MEIRELLES, 2007).

Para compreender o uso da tecnologia, é necessário primeiro entender como ela foi ingressando no ambiente hospitalar ao longo dos anos. Em seguida, com foco na TI, serão apresentadas as características que definem o investimento e o uso de determinados sistemas em detrimentos de outros. Assim, será mais fácil avaliar como a questão da cadeia interna de suprimentos das organizações hospitalares é – ou deveria ser – tratada pela tecnologia.

O setor de Saúde é considerado fundamentalmente um “negócio de informação” (EVANS &WURSTER, 2000; WONG, 2000), já que suas atividades não podem

ser desenvolvidas de forma adequada sem a organização e a confiabilidade nos dados gerados pelos pacientes e no conhecimento dos profissionais. A área de Saúde produz informação em diversos formatos: textos, imagens, sons e vídeos. Apenas recentemente, o custo unitário de armazenamento eletrônico de informações vem sendo reduzido, sendo o único elemento que se tornou menos caro na cadeia de suprimento ao longo dos anos (BOWERSOX &CALANTONE,1998).

O volume e a diversidade das informações não facilitam a integração entre os diversos sistemas médico-hospitalares. O Fleury Medicina e Saúde realizava, no final de 2008, mais de 1.700 tipos de exames laboratoriais e de imagens (que incluem vídeo e sons). Isso sem contabilizar os inúmeros procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos, que podem resultar em novos exames. Todas estas informações, para serem úteis para o serviço, devem estar organizadas de modo a facilitar – e não complicar – o trabalho dos profissionais. No Brasil, mesmo os principais prestadores de serviços ainda não conseguiram integrar totalmente suas informações clínicas, nem para o público interno (médicos e demais profissionais de Saúde).

Segundo Baltacioglu et al. (2007), a cadeia de suprimentos também inclui o fluxo reverso, principalmente em relação a informações. Esta visão, chamada pelos autores de logística reversa, é muito importante para o segmento de Saúde, cujos serviços dependem intensamente de dados e conhecimento para serem realizados. O fluxo inverso de suprimentos está relacionado às questões de retorno de produtos e trocas. No caso da prestação de serviços de Saúde, é estranho pensarmos em retornar uma prótese ou medicamento após o uso por “defeito”. Entretanto, antes da chegada do insumo ao corpo paciente, as transações de retorno são constantes, devido a datas expiradas, má embalagem ou até mesmo suspeita de falsificação. Em todo este processo, é imprescindível a correta troca de dados e informações, não apenas internamente, mas também entre os integrantes de toda a cadeia de suprimentos, incluindo distribuidores e fabricantes. De fato, Di Serio e Santos (2006) apontam que a integração da logística interna, com foco em serviços e clientes, e a integração da externa, com foco na eficiência estratégica, são os estágios mais altos de crescimento das competências da SCM.

Pelo escopo deste trabalho, em um primeiro momento, pode-se imaginar que apenas parte dos sistemas administrativos, relacionada ao controle de estoques, deve ser considerada. Porém, os insumos hospitalares estão diretamente ligados aos cuidados do paciente e, por conseqüência, os sistemas deveriam também ser integrados. Todos os itens já discutidos anteriormente passam, de alguma forma, por algum dos sistemas tecnológicos do hospital, sejam médicos ou de informação.

A figura 24 apresenta um esquema básico que mostra as principais relações entre as informações que permeiam o serviço médico-hospitalar. Não apenas a própria

estrutura organizacional é complexa, mas o relacionamento com outros players mostra a importância da troca de dados. Nota-se que as fontes pagadoras estão relacionadas na figura, já que se caracterizam como um dos maiores trocadores de informação com os prestadores. Produtores Farmacêuticos e equipamento médico Pesquisa médica literatura, bases de conhecimento, protocolos clínicos, EBM Outros prestadores: cuidados primários, médicos, clínicas, laboratórios Fontes pagadoras e financiadoras: SUS, supletiva, particular, doações Grupos de compra Departamento de logística Departamentos administrativos Departamentos médicos/clínicos Suprimentos e manutenção Contas médicas Dados demográficos Requisições e resultados Agências governamentais de fomento Vigilância sanitária Administração pública Licença do governo Unidades de atenção Distribuidores Banco de dados financeiros Registros médicos Registros administrativos Estatísticas gerenciais Hospital

Figura 24. Grupos que formam o ambiente de sistemas de informações hospitalares Fonte: adaptado de OTA, 1995

Alguns autores afirmam que a TI na área de Saúde mantém um atraso de pelo menos cinco anos em relação aos outros segmentos de mercado, muito devido à preferência pelo investimento em tecnologias que auxiliassem na atenção ao paciente (BURNS et al., 2002; SMELTZER & SCHNELLER, 2006). Outros, possivelmente com certo

exagero, chegam a estimar que esta distância possa chegar a 15 anos (RACHUPATHI &

TAN, 2002; BURKE &MENACHEMI, 2004; GOLDSCHMIDT, 2005; FORD et al., 2006). Estas

afirmações se baseiam, muitas vezes, apenas em observações dos autores, pois nenhum dos textos analisados apresenta qualquer embasamento empírico que consiga fazer esta mensuração comparativa. Além disso, há indícios de que a área vem incrementando anualmente a parcela de investimentos em TI (AHA, 2006a; b).

Os sistemas de informação utilizados em hospitais podem ser divididos em três grupos: administrativos, de suporte clínico e de gestão do paciente. Os primeiros englobam contabilidade, recursos humanos, folha de pagamento, dentre outros. Os de suporte clínico incluem os sistemas de laboratório, farmácia e radiologia. Os últimos, de gestão do paciente, são compostos pelo cadastro; controles de admissão e alta; e prontuário e prescrição eletrônica (RADA, 2002).

Benzer Belgeler