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ĠMĠSYON / EMĠSYON ENVANTERĠ

De uma noção essencialmente patrimonialista, o Direito Civil pátrio evoluiu e se humanizou, estando hoje inserido como ferramenta de consagração dos fins últimos delineados por uma Carta Magna construída com fundamento na preservação da dignidade humana.

No âmbito da responsabilidade civil, o processo evolutivo refletiu no reconhecimento jurídico da lesão ao patrimônio moral, exigindo-se, em consequência, o soerguimento da respectiva sanção indenizatória, cujas finalidades precípuas não são pacíficas doutrinariamente, o que destoa da certeza com a qual o setor jurisprudencial, capitaneado pelo Superior Tribunal de Justiça, anuncia os critérios de liquidação da indenização por danos morais, inserindo, dentre eles, o fator punição.

Nesse contexto, analisaram-se as funções da responsabilidade civil, perpassando pelas noções de reparação/compensação, prevenção e punição, o que foi realizado sob as bases de uma teoria geral da sanção, em que se visualizou uma divisão subjetiva dos efeitos oriundos da indenização, que, independentemente de eventual ênfase conferida à determinada finalidade e por razão intrínseca, repercutem sob a ótica da vítima como uma ordem de restituição, e, diante do ofensor, como um título repressivo.

No entanto, reconhecer a consequência repressiva como ínsita a uma sanção, não implica em concluir pela inafastabilidade de um fator punitivo dentre os critérios de sua determinação, mormente em sede de um ordenamento jurídico herdeiro da Civil Law, em que a normatização se eleva como pressuposto da aplicação da força repressiva estatal.

Logo, embora seja aceito que a indenização por danos morais representa para o sujeito lesante um elemento de desincentivo à repetição da prática danosa, o mesmo não se pode dizer quanto à ênfase dada a tal efeito punitivo com base na majoração da sanção em virtude de eventual juízo de maior reprovabilidade da conduta, cuja inserção exige um balanceado estudo de compatibilidade.

Nesse sentido, analisando a possibilidade de absorção do caráter punitivo autônomo, concluiu-se que não existe incongruência sistemática genérica entre responsabilidade civil e punição, no entanto, tal critério não pode ser sumariamente imposto pela jurisprudência, haja vista a necessidade de prévia cominação legal.

Desta feita, ponderou-se que critérios como a qualidade da conduta e as características pessoais do ofensor, a repetibilidade da prática danosa e o lucro obtido com o

prejuízo causado são fatores que, embora imbuídos de uma lógica própria e não de pronto repelidos pela ordem jurídica nacional vigente, não são por ela ratificados em norma expressa; dessa arte, considerando que, em sede de tutela repressiva, deve-se respeitar o imperativo de legalidade, tais fatores de quantificação da indenização não podem ser utilizados, o mesmo ocorrendo com o raciocínio que toma como base as condições econômicas da vítima, já que tal critério denota fator de discriminação incongruente com a lógica da isonomia e da dignidade humana.

É compreensível a razão pela qual os julgadores, imbuídos do sentimento de justiça e preocupados com os fins visados pela Lei Maior, sensibilizam-se diante do atual contexto social, em que, rotineiramente e reiteradamente, presencia-se desrespeito em face do patrimônio moral humano, o que explica, contudo não justifica a motivação da ênfase dada ao elemento punição no cálculo das indenizações por danos morais.

Importa asseverar que o presente trabalho reconhece a necessidade de devida tutela da dignidade humana, o que somente se consolidaria quando ela não mais sequer chegasse a ser lesionada, razão pela qual se tem por prestigiada a ordem de prevenção de danos, que apresenta o objetivo de combater uma atmosfera de impunidade, que acaba por incentivar a reiteração de condutas danosas, haja vista a sensação de desconserto social.

No entanto, sem adentrar na justiça do critério repressivo, há de ser dito que uma cega corrida em busca de fins não deve desprezar a retidão dos meios a serem percorridos, sob pena de malferimento de toda a lógica visada, o que bem se percebe com o destrato que sofre atualmente o princípio da legalidade, quando diante das tradicionais condenações por danos morais em que se inserem fatores punitivos.

Ademais, é interessante não restringir o debate acerca da potencialidade de a responsabilidade civil alcançar o fim visado (harmonia e equilíbrio social) ao simples critério punitivo da indenização por danos morais. Nesta oportunidade é importante perceber que a evolução da ciência jurídica perde com o pacifismo com o qual a matéria é tratada, razão pela qual se enaltece o fomento ao debate sobre o tema.

A exemplo, não se deve olvidar que soluções outras para a problemática da necessidade de prevenção de danos foram apontadas pela doutrina, que não se limita a considerar unicamente o caminho do fator punitivo nos danos morais, mas elencam uma série de outras possibilidades.

Dentre tais opções, tem-se o apontamento de uma nova categoria de danos a ser reconhecida: o dano social, como forma de reconhecer e dar a devida resposta jurídica a

condutas capazes de extrapolar o âmbito individual e acabar diminuindo, em caráter geral, a qualidade de vida da sociedade; cogita-se também acerca de um melhor balanceamento entre o manejo dos institutos próprios da responsabilidade civil e das ferramentas de combate ao enriquecimento sem causa, como forma de eliminar o lucro da intervenção; noutro giro, há quem defenda a necessidade de uma melhor gestão processual, com ênfase no manejo de ações civis públicas como forma de tutelar, na devida escala, a ordem de prevenção contra condutas potencialmente repetitivas; existem ainda defensores da necessidade de importação da figura norte americana dos punitive damages, em que a punição seria perfectibilizada através de uma indenização de cunho autônomo, e não vinculada a um mero fator de quantificação dos danos morais, perfazendo, assim, um modo repressivo genérico capaz de enfatizar, inclusive, a resposta jurídica a práticas que se inscrevam mesmo em cunho exclusivamente material, desde que marcadas por condutas suficientemente repudiáveis.

Diante de todo o exposto, finaliza-se o estudo com o cumprimento da missão inicialmente proposta, qual seja: responder sobre a juridicidade do critério punitivo conferido no Brasil à quantificação da indenização por danos morais.

Todavia, a resposta alcançada propulsionou inúmeros outros questionamentos, de forma que mais dúvidas do que certezas foram geradas, tendo-se, assim, por demonstrada a relevância da temática, bem como a necessidade de se prosseguir com o presente estudo, sempre no intuito de maximizar a eficácia do direito em seu eterno papel de propagar a justiça, sendo inaceitável que se dê por pacificado o estado de doutrina vigente, por ser a inércia inimiga do progresso.

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Benzer Belgeler