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Durante os últimos anos do regime monárquico, a cidade de Ouro Preto, capital da província mineira, se tornou um grande propagandista oficial do ideal republicano, com a criação do Partido Republicano Mineiro. O líder do partido, João Pinheiro, um jovem recém-formado em Direito, funda um jornal como forma de propagandear o republicanismo positivista.

Dentro do grupo de republicanos em Minas Gerais, o perfil de João Pinheiro (sua militância está relacionada diretamente com o Manifesto de 1870) não é maioria, pelo contrário. Estima-se que no último pleito do partido, na província mineira nas vésperas da Proclamação da República, somente 30% do eleitorado era republicano, além de conservadores e senhores de escravos, que após a abolição aderiram ao Partido Republicano (RESENDE, 1982). A participação mineira na derrubada da Monarquia se deu muito mais pela defesa e propaganda aberta, permitida pelo governo; e não teve, dessa forma, um papel de relevante destaque como São Paulo, e atuante e deflagrador como o Rio de Janeiro. Minas Gerais, segundo Iglésias (1982), “foi mais epígono que prógono,

mais adesista que protagonista”, mas em pouco tempo se torna a grande aliada e defensora

incondicional do regime, contribuindo de forma decisiva para a sua consolidação no Brasil.

Entretanto, no dia da Proclamação da República, o líder do partido republicano mineiro, João Pinheiro, estava na Zona da Mata atuando na propaganda política. Quando a notícia do golpe, que pôs fim a Monarquia e instaurou a República, chegou à capital da província, surpreendeu a todos os grupos políticos, inclusive os próprios republicanos, que estavam totalmente alheios às intenções dos aliados do Rio de Janeiro.

Minas Gerais embarca na locomotiva republicana já em movimento e ao longo dos anos buscou, através de uma articulação interna, as melhores posições frente ao Governo Federal. A falta de sintonia entre os republicanos de Minas Gerais e os das províncias do Sul e Sudeste obrigaram a uma adesão incondicional (pelo menos no primeiro momento) às decisões dos protagonistas do Rio de Janeiro, que nomearam para

governador do estado Cesário Alvim, um republicano “não histórico”.

Com a nomeação de Cesário Alvim, iniciou-se entre os mineiros uma disputa pela política do Estado baseada no grau de compromisso e legitimidade à causa republicana (RESENDE, 1982). A miscelânea de perfis dos grupos que surgem logo após a

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Proclamação demonstra que o republicanismo em Minas Gerais se constituiu em bases

pouco sólidas. Os “adesistas”, ou “novos republicanos”, eram oriundos dos extintos partidos monárquicos que aceitaram passivamente o novo regime. Os “antigos”, isto é,

anteriores ao “15 de Novembro”, dividiam-se em dois grupos: os “históricos”, republicanos de origem, com ligação direta ou indireta ao Manifesto de 1870, que por sua

vez não eram simpáticos aos “republicanos de véspera”; e os “indenistas”, que aderiram

ao Partido Republicano como uma forma de protesto à abolição de 1888, uma vez que não houve indenização aos proprietários de escravos.

João Pinheiro criticava abertamente a distinção entre republicanos “históricos” e

“adesistas”, resultando em um regime “que constituiu numa solução de compromisso entre as velhas e as novas elites” (DULCI, 2005, p.109). É curiosa a percepção realista

de João Pinheiro sobre a nova conjuntura: avaliou como fundamental a fusão entre monarquistas e republicanos, para garantir a autonomia de Minas Gerais no contexto federativo, em que o peso político dos Estados seria definidor para a captação de recursos e na influência das decisões políticas do país. Ciente disso, aceita o cargo de Secretário de Estado, aliando-se a Cesário Alvim, em prol de uma política de “conciliação”. Nossa avaliação é de que essa aliança ofereceu resultados distintos na articulação política dentro e fora de Minas Gerais, refletindo diretamente na condução do acesso às terras devolutas do Estado.

O Governo Provisório do Marechal Deodoro da Fonseca apresentava ora lampejos do regime federalista, ora de centralização aos moldes do governo destituído. As primeiras medidas foram de caráter descentralizador, ao deixar a cargo das extintas Províncias a forma de administração das municipalidades. Em Minas Gerais, algumas Câmaras foram dissolvidas e substituídas por Intendências Municipais, reduzindo-as

somente às questões administrativas. O “governo alvinista” recebeu diversas críticas tanto

dos monarquistas, que tinham nas Câmaras seu último refúgio após a queda do regime; quanto dos republicanos, que entendiam a necessidade da autonomia dos municípios como realização do princípio federalista. João Pinheiro utiliza seu jornal em defesa da intervenção do governo nos municípios, entendendo a necessidade da ação intervencionista para enfraquecer as lutas políticas locais e conduzir os municípios como base de apoio.

Em contrapartida, Minas Gerais, recebe a primeira demonstração de harmonia com o Rio de Janeiro. O governador Cesário Alvim é nomeado Ministro do Interior, uma pasta fundamental de articulação entre o Governo Federal e os demais Estados. João Pinheiro é nomeado governador de Minas Gerais, e não só buscou unificar as forças

políticas em Minas Gerais, como também atuou de forma decisiva nas Constituintes Federal e Mineira e na transferência da capital do estado.

Os republicanos mineiros começam então a colher os frutos de sua adesão

incondicional ao “15 de Novembro” e seguiram, a exemplo do Governo Federal, uma

linha conciliatória entre monarquistas e republicanos. Os republicanos mais radicais de Minas Gerais, principalmente da Zona da Mata, se tornaram opositores à “conciliação”,

avaliaram a nomeação de Alvim como um retorno da velha “política de fora para dentro”,

referindo-se à intervenção do Rio de Janeiro nas Províncias durante o Império.

Em seguida, o Governo Provisório mineiro articulou uma ação política voltada

exclusivamente para garantir uma representatividade da “conciliação” para a Constituinte

Federal. O próprio Cesário Alvim, por meio de um regulamento, estabeleceu a qualificação para os eleitores através de uma comissão distrital, formada pelo juiz de paz, pelo subdelegado da paróquia e por um cidadão escolhido pelo presidente da Câmara ou Intendência. Paralelamente ao processo de alistamento eleitoral, prosseguia a substituição das câmaras e das autoridades policiais dos municípios.

Os republicanos “radicais”, que pertenciam ao grupo contrário à conciliação entre

monarquistas e republicanos no Estado, tinham na cidade de Juiz de Fora o seu principal reduto. Defendiam que a reorganização política do Estado deveria ficar a cargo dos

“históricos”. A proposta da ala “Alvim - João Pinheiro” era garantir a consolidação

republicana fundamentada na conciliação, a princípio forçada (com a intervenção direta do governador nos municípios), entre a esfera local e estadual que resultou em uma posição segura do estado durante todos os debates da Constituinte e todo o Governo Provisório. A política e o território mineiro não foram atingidos pelas intervenções do poder central durante os primeiros anos da República graças à coalizão da elite política mineira articulada entre os republicanos históricos, na figura de João Pinheiro, e os adesistas, que tinham grande influência na monarquia – como Afonso Pena, conselheiro e ex-ministro no Império.

O advento da República significou uma grande oportunidade para sedimentar e promover transformações na ordem política e social do Brasil. O processo de ampliação da cidadania que poderia ter ocorrido marcado pelo fim da escravidão, em 1888, somado à organização federativa dos Estados, poderiam significar um grande avanço para a construção de um Estado democrático que viabilizasse um projeto econômico progressista. É preciso ponderar, todavia, que a busca por uma nova ordem política se origina em condições desfavoráveis em função do militarismo e temor do retorno

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superação da fragilidade do novo regime, logo se mostrou contraditória. Durante a Constituinte Federal, os embates entre projetos de autonomia e centralização política revelam níveis de compatibilidade entre os novos e os velhos ideais, principalmente no tocante a qual esfera de governo ficaria com as terras devolutas. Em Minas Gerais, essa contradição demonstrou-se visível com a renúncia de João Pinheiro ao governo do Estado. Em pronunciamento, comparou os programas políticos vazios da monarquia à inexistência de propostas dos partidos na República, resultando no continuísmo, senão em um agravamento da situação econômica e social do país (DULCI, 2005).

A mudança repentina e/ou inesperada do regime político do Brasil obrigou uma articulação conciliatória em Minas Gerais, encabeçada por João Pinheiro. Porém, o resultado não seria plenamente satisfatório com o descrédito dos republicanos da Zona da Mata. Os primeiros momentos da República em Minas Gerais se revelam instáveis, uma vez que força uma heterogenia de correntes políticas a se desvincularem do passado monárquico e não propõe a construção de um projeto republicano autêntico.

A aliança entre monarquistas e republicanos também seria uma tendência na

esfera federal. O ideário de João Pinheiro de que o “eixo da recuperação econômica cabia

às classes conservadoras” era uma proposta de âmbito nacional; e, o que se verificou foi um continuísmo das políticas referentes à função social e forma de aquisição das terras devolutas. As regiões de fronteira agrícola seriam alvo de empresas de colonização que buscavam captar as áreas com maior disponibilidade dos recursos terra, floresta e água.

2.2 A legislação agrária e a Constituinte Federal: crítica e manutenção das formas

Benzer Belgeler