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1. XVI VE XVII YÜZYIL ġAĠR TEZKĠRELERĠNDE GEÇEN ġAĠR OSMANL

1.1. ġEHZADE CEM SULTAN

1.1.2.3. ġecâ‟at/Sehâvet

A dominação burocrática é exercida por meio das organizações como o Estado, os partidos, as escolas e as empresas. Na esfera estatal a burocracia é exercida pelos funcionários que compõe o corpo de técnicos, os quais, para Marx, representam os interesses da classe dominante. “Os objetivos do Estado transformam-se em objetivos da burocracia e os objetivos da burocracia, a em objetivos do Estado. A burocracia é um círculo ao qual nada pode escapar. Esta hierarquia é uma hierarquia do saber” (MARX, 1983, p. 72). Ou seja, a burocracia se passa por Estado na medida em que este é absorvido pelo formalismo burocrático, sendo que esse formalismo não possui nenhuma essência, mas apenas uma ausência da realidade, o que faz com que Marx construa um pensamento do caráter administrativo do Estado com um tom de negatividade, observando que o Estado serve dos seus princípios reais para se transformar em formais, surgindo deles a modernidade liberal.

O papel da tecnocracia será então de realizar as tarefas cabíveis nos cargos burocráticos, tanto na burocracia privada como na pública, destacando um papel conservador e realçando a tendência ideológica dominante, como afirma Miliband (1972, p. 148):

Os altos funcionários públicos dos países do capitalismo avançado costumam desempenhar um papel conservador nos conselhos estatais, reforçar as propensões conservadoras dos governos, em que tais propensões são bastante desenvolvidas, e servir como elemento inibidor em relação aos governos nos quais são menos pronunciadas.

Nesse sentido é possível verificar a importância crucial dos técnicos para desenvolver as tarefas do aparelho estatal, ou, no caso das instituições privadas, realizarem o papel de pensar a organização e o gerenciamento do crescimento do lucro, de forma a garantir uma reprodução ampliada do capital e o sucesso do capitalismo.

Outro autor que faz referência à importância das questões ideológicas dos técnicos no exercício burocrático é Lefebvre, o qual, a partir de uma análise estruturalista, chega à conclusão científica de que existem duas formas diferentes para definir a tecnocracia. A forma das pessoas, ditas de direita, que os definem como “os bons e os maus; os benéficos e os perigosos”, e a forma da esquerda, de orientação comunista, que teriam um estoque de ideias

perversas, destruidoras da sadia tradição das lembranças, das normas da sociedade francesa, sob a capa de técnicos (LEFEBVRE, 1969, p. 12).

O surgimento dos técnicos está relacionado ao desenvolvimento da burocracia e do Estado Moderno, embora ela tenha tido sua evolução histórica, assim como o Estado absoluto elimina a administração feudal, patrimonial, patrícia, ou de outros dignitários que exercem o poder de forma honorária ou hereditária, e a substitui por funcionários burocráticos. Tal funcionalismo apresenta como características “o formalismo de emprego, salário, pensão, promoção, treinamento especializado e divisão funcional, áreas bem definidas de jurisdição, processos documentários, hierarquia” (WEBER, 1958).

Os partidos também são organizados de forma burocrática, e para ocupar os seus cargos não é necessário conhecimento técnico ou profissional, mas sim, conhecimento político. A palavra “partido” é atribuída ao pensador francês François Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo de Voltaire. Ele deu continuidade às discussões que vinham sendo feitas em torno dos conceitos de partido e facção, uma vez que a palavra facção apresentava o sentido pejorativo de seita. Voltaire achou necessária a criação de outro termo que pudesse representar a organização de um grupo social que desejasse liderar politicamente a sociedade, achando que a palavra “partido” não era em si repulsiva para substituir a palavra “facção” (BOGO, 2010, p. 11). Partido vem do latim partire, que significa dividir, separar, e transmite a ideia de parte, que é um constructo analítico não depreciativo. Quando parte se torna partido, refere-se à uma construção semântica associada com a participação do outro.

E é por meio do partido que acontece a fusão entre o Estado e a sociedade civil. Porém, “quando o partido é composto pelo operariado, pode acontecer o seu aburguesamento devido à metamorfose que sofrem os chefes de origem operária e, com eles, toda a atmosfera na qual se desenvolve a atividade política do partido” (MICHELS, 1982, p. 156). Esse tipo de burocrata se identifica com a organização e confunde seus interesses com os interesses desta, demonstrando aí uma concepção marxiana de burocracia quando referencia a esta como responsável pela realização dos interesses da classe dominante.

Ele considera como uma ofensa pessoal toda censura objetiva dirigida ao partido por quem quer que seja. Daí a incapacidade de todo chefe de partido de apreciar de uma forma serena e justa as críticas dos adversários. E, inversamente, ele não deixa, todas as vezes que é atacado pessoalmente, de relacionar esses ataques com o partido inteiro. Nos dois casos ele visa tirar proveito deslocando o terreno da luta. (MICHELS, 1982, p. 130).

Os meios de dominação nas empresas surgira m, inicialmente, com o sistema fabril que passa a submeter os operários aos esquemas de submissão, vigilância e disciplina, sendo utilizados como estratégia expansionista e extração de mais-valia pelo capital. Esse processo acontece inicialmente ainda com pequenas oficinas, passando à empresa familiar, depois começam a crescer as empresas multiplicando seus departamentos de vendas, produção e finanças, necessitando de técnicos que são os supervisores, coordenadores, além de outros cargos. Assim, o capital foi se reproduzindo cada vez mais, e garantindo a divisão social de classes.

Outra forma de manter a dominação é por meio da escola, enquanto aparelho ideológico do Estado (ALTHUSSER, 1985), a qual está voltada à reprodução de uma determinada cultura e também da estrutura de classes. Nesse sentido, embora a escola se apresente como unificadora, democrática, neutra, ela utiliza mecanismos meritocráticos de avaliação para garantir privilégios e desenvolve uma inculcação ideológica da cultura dominante, na qual as pessoas começam a ver como natural a submissão à dominação, sob aparência de normalidade. Na burocracia educacional se desenvolve um trabalho contínuo e sutil de conservação da estrutura de poder e da desigualdade social existente.

Benzer Belgeler