O trabalho como inclusão social para o surdo tornou-se o meio mais eficaz de inserção do mesmo. O trabalho promove sua independência, sustento e status, mas, as dificuldades e sofrimento, também são parte do processo de sua promoção social.
Nessa perspectiva, percebe-se que apesar da legislação vigente que prevê a reserva de vagas, ainda existem muitas barreiras para o surdo conquistar seu lugar no mercado de trabalho, considerando-se suas características competitivas e excludentes, o que promove uma inclusão perversa (SAWAIA, 2002).
Considerando os dados do estudo realizado, chegamos a algumas considerações, que embora não sejam conclusivas, nos remete à uma reflexão sobre as representações e os sentidos do trabalho para o surdo e para as empresas que contratam estes trabalhadores.
A pesquisa teve como objetivo demonstrar do ponto de vista dos trabalhadores surdos, bem como dos empregadores, como que se deram os processos de inclusão na empresa, e como vem ocorrendo sua trajetória profissional nas organizações.
No decorrer dos discursos das empresas, fica clara a sua tentativa em passar uma imagem de que tudo está ocorrendo dentro de uma normalidade, e que as questões de diferenças em relação aos surdos não existem mais, uma vez que todas as dificuldades iniciais foram sanadas com o tempo.
Percebe-se que as empresas não estão preocupadas com as demandas levantadas pelos surdos de que a comunicação ainda é muito difícil, e as condições para participarem das reuniões, cursos e palestras
ainda são precárias, uma vez que dependem sempre de alguém que se disponha a explicar o conteúdo exposto no evento.
Embora existam iniciativas isoladas de interesse em colaborar com os surdos, percebe-se que falta uma política real de inclusão para que realmente essas pessoas possam fazer parte do conjunto organizacional e compreender a cultura da empresa e seus processos, o que favoreceria a questão da diversidade (ALVES e GALEÃO-SILVA, 2004) no âmbito das organizações, promovendo as mudanças de atitudes de discriminação em relação aos seus funcionários.
Trata-se de as empresas se preocuparem com as questões de acessibilidade, não só no que diz respeito a arquitetura, mas em relação às práticas que visam melhorar a comunicação e o clima organizacional, possibilitando aos surdos e ouvintes, uma convivência real. Desse modo a possibilitar a interação surdo-ouvinte para que as diferenças sejam superadas ou minimizadas, possibilitando a abertura de um canal para a comunicação e o relacionamento.
Percebe-se que as empresas, na medida em que contratam surdos e não precisam se preocupar com a acessibilidade arquitetônica acreditam não ser mais necessário se preocupar com as outras formas de acessibilidade que, no caso do surdo, é com relação à comunicação. Essas organizações em nenhum momento sinalizam a preocupação em capacitarem-se para o uso da LIBRAS no sentido de facilitarem o acesso aos surdos.
Tecendo uma análise acerca dos relatos dos surdos, percebe-se um desconforto e uma falta de perspectiva de mudanças na sua situação profissional. Na sua maioria apresentam longos períodos de permanência nas empresas e, isso os remete a uma situação de acomodação, pois, necessitam manter esse emprego por uma questão de sobrevivência e devido a certa insegurança em não encontrar uma oportunidade melhor. Isso
se dá principalmente para aqueles que não evoluíram o bastante em escolaridade, fator excludente para o mercado de trabalho hoje.
Nos discursos dos surdos, o fator escolaridade é um dos motivos para a falta de oportunidades para sua ascensão profissional, quando dizem que os ouvintes são mais promovidos porque estudam mais que os surdos. Nesse sentido perpetuam os estigmas (GOFFMAN,1988) sobre o fato de que os surdos são de uma categoria inferior, e que estão sujeitos a uma condição menos favorecida e de submissão ao poder do ouvinte.
Por outro lado, constata-se como realidade das empresas, especialmente na indústria, uma condição de precarização (CASTEL, 2004) do trabalhador de maneira geral, o que nem sempre privilegia os ouvintes em detrimento do surdo, mas as condições de trabalho não oferecem possibilidades de grandes mudanças e melhorias em relação à todos os funcionários. Dessa forma, os surdos parecem se adaptar, e o trabalho é a base da construção de sua identidade social (CASTEL, 2004).
As formas de individualidade desses trabalhadores são processos que modificam as formas de identificação, em consequência de transformações maiores na organização econômica, política e simbólica das relações sociais (DUBAR, 2009).
Constata-se em alguns depoimentos, seja do surdo ou do empregador, que os mesmos consideram que a responsabilidade sobre as condições de empregabilidade (HIRATA, 1997) é do próprio surdo, e que, portanto, para o seu crescimento profissional na empresa também dependerá somente de suas iniciativas, bem como o seu fracasso em ascender.
Os surdos se definem em seus discursos ora sob aspectos positivos, ora negativos de suas identidades. Os empregadores por sua vez, falam de um surdo que tem seu crescimento e dignidade por meio do trabalho, mas, assim como muitas organizações, se mantiveram alheias à questão das
pessoas com deficiência e às suas necessidades, como qualquer humano de ter trabalho e dignidade.
Hoje o panorama que se apresenta já mostra algumas mudanças de atitudes e visão mais focadas no mundo das pessoas que se apresenta nas suas diversidades. Embora as organizações se preocupem pelo lado econômico e da produção, e apresentem uma perspectiva de normalização (Silveira, 2009) do surdo enquanto trabalhador, as identidades sociais, profissionais e surdas passam por metamorfoses (CIAMPA, 2004) num mundo dinâmico de transformações sociais.
Esse estudo não finda as questões das pessoas com deficiência no mundo do trabalho e suas perspectivas de melhorias, de desenvolvimento e de aceitação das diferenças. É nessa perspectiva que o homem é um ser sócio histórico e transforma-se num mundo dinâmico e dialético, como também constrói e reconstrói suas identidades.