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ġAHSĠYETĠ VE GÜNLÜK HAYATI

D. AraĢtırmalar

II. ġAHSĠYETĠ VE GÜNLÜK HAYATI

A Lei n° 9.840/99, Lei da Compra de Votos, antecede a criação do MCCE. Ela surgiu da Campanha da Fraternidade da CNBB, cujo tema em 1996 havia sido ―Fraternidade e Política‖. As Campanhas da Fraternidade da CNBB são realizadas anualmente e têm como base um tema social sobre o qual é produzido um ―Documento Reflexão‖. Esse documento é enviado a todas as comunidades do Brasil e segue uma metodologia do ―ver, julgar e agir‖, comumente utilizada pelo movimento católico. Ele é utilizado no período de quaresma como uma espécie de roteiro que alimenta reuniões, debates e orações em torno do tema.

A compra de votos era um dos itens que constavam do documento naquela campanha da fraternidade. Tendo identificado-a como uma das principais distorções da democracia brasileira, a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) da CNBB propôs a criação de um projeto intitulado ―Combatendo a corrupção eleitoral‖. O projeto foi apresentado à 35ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em abril de 1997.

O tema havia sido entendido como da maior relevância, uma vez que a corrupção deslegitima o processo eleitoral e cria uma espécie de círculo vicioso em

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Este capítulo foi escrito com base nas seguintes fontes: (1) entrevistas realizadas com os então deputados federais Índio da Costa (então filiado ao DEM-RJ) e Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), este último também deputado federal quando da tramitação da lei nº 9.840/99, e com os membros da coordenação nacional do MCCE Francisco Whitaker (ex-Secretário Executivo da CBJP, da CNBB, quando do lançamento da iniciativa popular contra a compra de votos e articulador político do MCCE) e Luciano Santos (advogado especializado em Direito Eleitoral, participante do movimento desde a campanha da lei nº 9.840/99); (2) publicações ―Ficha Limpa – a lei da cidadania‖ (ASSUNÇÃO; ASSUNÇÃO, 2010) e ―Combatendo a Corrupção Eleitoral‖ (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 1999); (3) artigos de Whitaker (2000; 2003; 2009; 2010), Avritzer (2006) e Anastasia e Nunes (2006); (4) consulta aos processos de tramitação das leis nos sites da Câmara dos Deputados e do Senado Federal; (5) matérias de jornais e revistas publicados entre outubro de 2008 e março de 2011; (6) pesquisa no site do MCCE e artigos lá disponibilizados, especialmente os textos ―História da Conquista da Lei 9840‖ e ―Campanha Ficha Limpa: uma vitória da sociedade!‖; (7) pesquisa realizada junto aos Comitês 9840; (8) palestra de lançamento do livro já citado, ―Ficha Limpa – a lei da cidadania‖; e demais fontes citadas. Dado o fato de que a reconstituição da história do movimento foi feita com base em todas essas fontes e que muitas informações se repetem em várias delas, optou-se por assinalar essas referências de forma geral para o capítulo, sendo que as fontes específicas só são citadas ao longo do texto quando se trata de item baseado especificamente em uma delas.

que o corruptor, que é um político que deveria trabalhar em favor da emancipação e melhoria das condições de vida da população, depende da manutenção das pessoas em situações de privação para poder se reeleger, prejudicando, ainda – por meio do abuso de poder econômico – outros candidatos que não se utilizam desse tipo de prática.

A corrupção eleitoral constitui-se não apenas da compra direta ou indireta de votos, seja em troca de dinheiro e bens ou da ―concessão de favores‖, como também na utilização da máquina administrativa com fins eleitorais (abuso de poder político). Francisco Whitaker, entrevistado para este trabalho, destaca a perniciosidade da prática:

Se todo mundo tiver direito a óculos sem gastar nada, ele não pode mais dar a sua consulta médica, os seus óculos... Entende? Então ele é muito perverso e muito cruel [...], para ele é importante aquilo que ele diz que ele quer combater. A pobreza, a ignorância política é importante para ele continuar a ser político. É uma distorção muito forte.

No sentido contrário, o problema, já enraizado na cultura, é igualmente grande. A população mais carente está acostumada a aproveitar este que é o único momento em que pode conquistar alguma coisa junto ao seu candidato. Essa percepção era tão nítida que, no relato de um dos entrevistados do MCCE, quando a CBJP levantou a hipótese do projeto, muitos dos agentes que trabalhavam com a população mais pobre foram contra, justamente com base neste argumento.

Embora o Código Eleitoral já considere crime a compra de votos, a CBJP havia observado que essa forma de corrupção sempre ficava impune. A proposta da Comissão era então modificar a legislação eleitoral para dar mais eficácia à ação da Justiça no combate a esse tipo de crime.

Embora longo e trabalhoso, o caminho escolhido para a alteração da lei eleitoral havia sido o da iniciativa popular de lei. Uma das razões para isso, ao invés de apresentar o projeto por meio de parlamentares, era que, sendo um problema de caráter cultural, que demandava educação política e mudança de costumes, necessitava de um meio de mudança com potencial pedagógico, que provocasse a discussão e a participação social. Esse objetivo só poderia ser alcançado por meio da campanha de coleta de assinaturas, que trazia consigo um processo de

mobilização no país todo, essencial para combater a corrupção eleitoral. Desde então, as lideranças da iniciativa já tinham a visão de que não bastaria a mera mudança institucional da lei para que a corrupção acabasse. Era preciso ir além.

O caminho da iniciativa popular também não era estranho à CNBB, pois ela havia sido uma das grandes patrocinadoras das emendas populares que, durante o processo Constituinte, propunham a criação dos mecanismos de participação popular semidireta na política brasileira. Como relata Francisco Whitaker na entrevista realizada, ―... já havia uma certa predisposição pra enfrentar esse tipo de abordagem‖.

Por fim, o tema preenchia ainda requisitos de viabilidade prática: correspondia a uma aspiração geral das pessoas, algo que encontrava ressonância na população, além de ser uma questão pontual e simples, que as pessoas poderiam compreender rapidamente no momento da coleta de assinaturas.

Em sua primeira etapa o projeto realizou uma pesquisa nacional para avaliar a incidência da compra de votos nas eleições de 96. Um questionário foi enviado a todas as Dioceses, às sedes regionais da CNBB e a outras instituições interessadas no projeto, e eram respondidos em grupos, para propiciar a reflexão dos participantes. Os questionários confirmaram à CBJP a gravidade e extensão do problema.

Paralelamente, havia sido iniciada a realização de Audiências Públicas para coletar depoimentos em todo o país. Em novembro de 1997 foram realizadas duas audiências, uma em São Paulo (SP) e outra em Petrolina (PE) e, em março de 1998, em Belém (PA).

Um Grupo de Trabalho constituído pela CBJP iniciou a elaboração do projeto de Lei de Iniciativa Popular. O grupo era formado por Aristides Junqueira Alvarenga, ex-Procurador Geral da República, Dyrceu Aguiar Dias Cintra Jr., ex-Juiz Eleitoral em São Paulo nas eleições de 1996, e José Gerim Cavalcanti, Procurador Regional Eleitoral do Estado do Ceará, além de representantes de várias entidades que acompanhavam o trabalho.

De acordo com o Código Eleitoral (Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965) a compra de votos é considerada um crime passível de prisão (Art.299). As condenações, entretanto, são muito pouco freqüentes, já que o processo criminal é muito demorado, cabendo diversos recursos. O que a CBJP observava é que no

período de tramitação do processo o acusado acabava exercendo diversos mandatos, alguns deles utilizando das mesmas práticas.

O Grupo de Trabalho propôs então alterar os artigos 41-A e 73 da Lei n° 9.504, de 30 de setembro de 1997, que estabelece normas para as eleições, bem como o art. 262 do Código Eleitoral, para ampliar a sanção, caracterizando a compra de votos como uma infração também administrativa, a ser punida com a cassação do registro do candidato ou do diploma. Ainda, propuseram que a mesma pena fosse utilizada também nos casos de uso da máquina administrativa para captar votos. Dessa forma, ao invés de aguardar um longo processo penal, a punição teria eficácia imediata, a ser aplicada pela Justiça Eleitoral, impedindo o candidato de continuar a concorrer na eleição ou assumir o mandato.

Benzer Belgeler