2.3. Psikolojik Dayanıklılık Tanımı
2.4.2. ĠĢ Doyumuyla Ġlgili Yapılan AraĢtırmalar
Figura 9
A Crente que enfiou o iPhone na vagina Autor: Deus
Escritoura e revisoura gramatical: Cleycianne Ferreira
baseiado numa história real
Irmã Wandinéria era uma crente dedicada, não faltava em nenhum culto e estava sempre ligada nos eventos da Igreja. Ela era totalmente virgem e em sua boca nunca havia repousado a língua úmida de um varão.
Um dia a irmã Wandinéia resolveu comprar um lindo celular iPhone, para poder pregar a Palavra de forma luxuosa e rica na internet, além de postar fotos de seus lindos pratos de comida no Instagram. Mal sabia ela que aquilo era o começo de uma maldição que acabaria com a sua vida.
Um dia a irmã estava voltando do mercado, cheia de sacolas e postando em seu ungido Facebook com o seu lindo iPhone, quando do nada uma sacola cheia de tomates arrebentou!! Desesperada a irmã agaichou e como a sua saia de vicolycra não possuia bolsos, ela colocou o iPhone no meio de suas
pernas, bem coladinho em sua vagina, para poder usar as mões para pegar os tomates que estavam no chão.
Enquanto catava os frutos, o celular começou a tocar e a vibrar, irmã Wandinéia estava recebendo uma ligação. No começo a vibração fez com que sentisse uma sensação gostosinha em Cristo em sua vagina, mas do nada a irmã começou a sentir calafrios e uma sensação estranha que nunca havia sentido em sua vida. Ela começou a tremer e a gritar como uma vadia satânica agaichada ali mesmo, no meio da rua!! Sim irmões, Satanás possuiu a pobre e a fez ter aquela sensação que só as prostitutas tem, o orgasmo.
Suada e assustada com o que havia acontecido, a irmã nem terminou de catar os tomates, se levantou e seguiu direto para a sua casa. Chegando lá, colocou o iPhone na mesa e ficou olhando paralisadamente para ele durante 3 minutos e 45 segundos, foi então que a irmã começou a pensar: "Que sensação gostosinha em Cristo que senti, parecia que eu iria morrer, mas mesmo assim era gostoso!! Isso só pode ser um sinal divino!". Pobre irmã Wandinéia, mal sabia que tudo aquilo era coisa de Satanás. No outro dia, a irmã acordou cedo e logo foi para a cozinha, onde agaichou e colocou o iPhone no mesma lugar que havia colocado aquele dia e ficou lá esperando mas uma ligação. Depois de duas horas o celular começou a vibrar e os olhos da irmã se encheram de felicidade, mas a sensação não foi a mesma... fez só cosquinha. Intrigada a irmã decidiu ousar. "E se eu colocar dentro de minha vagina?", pensou.
E foi o que ela fez, tirou a calcinha, introduziu o iPhone em sua vulva ungida e intocada, subiu a calcinha novamente e decidiu fazer os serviços de casa enquanto esperava uma nova ligação.
O tempo passou, a noite chegou e nada!! Por um momento a irmã até esqueceu que o seu iPhone estava dentro de sua vagina, pois já havia se acostumado com aquela sensação. Foi então que a campainha tocou, a irmã foi ver quem era e logo gritou em tom de admiração:
- Irmã Cleusa, o que fazes aqui?
- Estou tentando te ligar desde ontem e o seu celular só chama!!
Sim, de tão empolgada que ficou com o orgasmo satânico, a irmã até esqueceu de verificar de quem eram as ligações.
- Desculpe, é que deixei o celular dentro de minha bolsa e...
- Depois você me explica, não temos tempo - disse a irmã Cleuza pegando na mão de Wandinéia. - Tempo pra que?
- Você esqueceu, varoa? Hoje é dia do culto das virgens, é o dia do seu testemunho!!
- Calma, eu preciso ir no banheiro antes - disse a irmã Wandinéia assustada e querendo tirar o iPhone de sua vagina rapidamente
- Não dá tempo, o Pastor está nervoso e o culto já começou, só estão esperando o seu testemunho!! Ou vai querer levar corretivo do Pastor depois?
Contrariada, Irmã Wandinéia seguiu para a Igreja com o iPhone dentro da vagina e orando para que ele não tocasse de jeito algum!! Chegando lá, todos estavam apenas aguardando o testemunho da ungida irmã. Irmã Cleuza pegou o microfone e disse:
- A Irmã Wandinéia estava se preparando para o seu ungido testemunho, por isso chegou atrasada, crente! Vamos recebe-la com uma salma de palmas!!
Todos bateram palmas. Wandinéia estava branca e suando frio, mas mesmo assim subiu no púlpito e começou a contar a sua história de virgindade total para as irmãs. Foi então que Satanás decidiu aprontar e o iPhone da irmã começou a tocar e a vibrar. "Não, Deus, por favor, não", orava em pensamento.
No meio do testemunho a irmã começou a soltar gritinhos de "prazer" e todas as irmãs começaram a olhar assustadas para Wandinéia. Sem saber o que fazer a irmã deciciu colocar o microfone na boca para bafar seus gritos de prazer, o que deixou as irmãs mas assustadas ainda.
Sem controle, gritando e tremendo a pobre irmã caiu no chão, pois o iPhone não parava de tocar, alguém estava ligando ininterrumpidamente!! Ela se contorcia no chão e dava urros de "prazer". Foi então que as irmãs se levantaram e decidiram repreender aquela iniquidade.
"É Satanás!! Ela está possuída" gritava o pastor. Foi então que uma das irmãs pediu silêncio e disse: - Escutem, está tocando uma música... parece toque de celular... É o toque "Marimba" do iPhone, crente!! - concluiu a irmã
Todas ficaram quietas, enquanto a irmã se contorcia no chão gritando como uma vadia. Foi então que o Pastor indentificou que o toque vinha da vagina de Wandinéia, tirou a sua calcinha devagarzinho, olhou bem para sua smilinguida e com um toque lento tirou o celular lá de dentro. A irmã suspirou e arregalou os olhos assustada com aquele monte de gente ao redor dela.
- Você não tem vergonha não! Colocou um iPhone dentro da sua vagina e veio pro culto? Você merece ser presa!!! - disse o Pastor indinguinado
- Eu posso explicar Pastor... - disse a irmã Wandinéia chorando
- Para prostituição não existe explicação, eu quero que você saia dessa Igreja agora!!! Esse seu iPhone fica comigo, para você se lembrar sempre do que fez...
- Por favor, Pastor, me devolva!! Eu tenho 20 parcelas ainda para pagar... me perdôe, me perdôe... - Não posso fazer nada, o seu VIP para o inferno já está garantido... COLOQUEM ELA PARA FORA!! - Ordenou o Pastor
As irmãs pegaram a pecadoura pelos braços e pelos pés, a arrastaram até a porta, fizeram "balança caixão" com o seu corpo e a jogaram para fora da Igreja. Irmã Cleusa olhou bem em seus olhos e disse:
- CA-RA NA PO-EI-RA
Wandinéia ficou caída no chão chorando, enquanto uma forte chuca caia em seu corpo. Ela olhou para o lado e viu um cabo de vassoura jogado na calçada, se levantou, pegou o cabo, disse em voz alta "Quem está na chuva, é para se molhar", enfiou o cabo em sua vagina e ficou lá se masturbando loucamente em Satanás.
A partir daquele momento a vida de irmã Wandinéia tomou um rumo totalmente tomado por Satanás. Ela largou a religião, cortou os seus longos cabelos e entrou com um processo na justiça contra a "humilhação" que havia sofrido na Igreja. Graças aos bom contatos políticos do Pastor, ela perdeu o processo!! Virou feminista e passava o dia no Facebook defendendo que nenhuma mulher deve sentir vergonha de sentir "prazer" ou de se masturbar com um cabo de vasoura.
Um dia, totalmente tomada por Satanás, Wandinéia sentiu vontade de se masturbar com um guarda- chuvas, mas enquanto se masturbava apertou sem querer o botãozinho que fazia o guarda chuva abrir... nem preciso contar o resto, né? Wandinéia morreu naquele dia.
Por isso irmãs, lembrem-se sempre: NUNCA SE MASTURBE, POIS A MÃO DE DEUS É BEM PESADA. MASTURBAÇÃO = MORTE.
ETA GOD JUSTICEIRO. FIM.
ANÁLISE
Propp (1992, p. 32) estabelece que há condições de ordem histórica, social, nacional e
pessoal que favorecem a construção do efeito humorístico. Cada época e cada povo possui seu próprio e específico sentido de humor e de cômico, que às vezes é incompreensível e inacessível em outras épocas (ibidem). O efeito humorístico aqui será tanto maior quanto
mais se esteja a par de como os discursos morais em torno da sexualidade feminina e de toda uma campanha em prol do sexo somente depois do casamento (nesse caso, para ambos os sexos), funciona nas instituições religiosas protestantes. O efeito humorístico é maximizado nessa postagem pelo cruzamento dos fatos da narrativa, por si só já engraçados, com o campo moral evangélico-cristão.
Refletindo sobre a comicidade em relação à religião, especialmente partindo da realidade de seu tempo e espaço, Propp declara:
O âmbito da religião e do riso excluem-se reciprocamente. Da antiga literatura russa escrita o elemento do riso e do cômico está totalmente ausente. O riso na igreja durante o serviço religioso seria considerado sacrilégio. Entretanto, deve-se fazer a ressalva de que o riso e a alegria não são incompatíveis com todas as religiões; essa incompatibilidade é característica da ascética religião cristã, mas não daquelas da Antiguidade, com suas saturnais e ritos dionisíacos. Independentemente da Igreja, o povo celebra suas velhas e alegres festas de origem pagã – as festas natalinas, a
Máslienitsa19, a noite de São João e outras (ibidem, p. 35).
De fato, a alegria não foi considerada um valor positivo na história do cristianismo durante muito tempo. Na Europa gótica, os monges cristãos da ordem trapista saudavam-se
dizendo: memento mori (lembra-te de que hás de morrer)20. A sexualidade, então, sempre
esteve associada ao pecado. Dantas (2010) destaca que nos primeiros séculos da era cristã, os
19 Período de festas que precedem a Quaresma e a Páscoa ortodoxas e que corresponderiam ao Carnaval (Propp, 1992, p.35).
tratados teológicos elogiavam a virgindade feminina e atacavam o matrimônio com o propósito de convencer as mulheres a evitá-lo. Alegria e sexualidade foram, longamente, assustadores fantasmas no contexto judaico-cristão, ameaças naturais às rígidas regras morais nesse campo visivelmente inquietado pelas forças dionisíacas.
O excesso de rigor de algumas instituições religiosas, com relação a valores e costumes, é campo fecundo para o humor e o riso. O humor nesse conto assume os contornos da paródia, conforme a define o escritor russo Yuri Bóriev citado por Propp:
A paródia consiste num exagero cômico na imitação, numa reprodução exageradamente irônica das peculiaridades características individuais da forma deste ou daquele fenômeno que revela sua comicidade e reduz seu conceito (BÓRIEV apud PROPP, 1992, p. 84).
Ao atribuir a autoria do conto a Deus, Cleycianne indiretamente faz referência ao livro mais importante para os protestantes e cristãos em geral, considerado pela cristandade como da lavra autoral do próprio Deus - a Bíblia, com isso conferindo humoristicamente ao conto o mesmo tom de verdade indiscutível e inquestionável que a Bíblia possui entre eles. E, dessa forma, o humor já vai se delineando, especialmente se se leva em consideração as obscenidades e absurdos de que a narrativa se reveste.
A referência a que Wandinéia (a personagem principal do conto) era totalmente virgem, permite a inferência de que ela não só não havia ainda praticado sexo genital como também não havia tido experiências de sexo anal (sendo essa referência a esse tipo de sexo muito comum nas postagens humorísticas de Cleycianne), sexo oral ou qualquer atividade de cunho erótico. Era, portanto, completamente inexperiente e ingênua em matéria de sexo e das sensações que seu próprio corpo era capaz de sentir.
Encontramos nessa postagem um diálogo interessante com uma das obras mais marcantes de Clarice Lispector, A Hora da Estrela, cuja personagem central é Macabéa, personagem também inscrita no universo grotesco através de como seu corpo e o que ele produz são caracterizados na obra: o nariz achatado, o ronco, as unhas sujas, o fedor etc. Dessa forma, percebemos a presença do grotesco na narrativa clariceana. As semelhanças que pontuamos aqui entre Wandinéia e Macabéa são: a virgindade e o clímax narrativo de ambas. Tanto para Macabéa quanto para Wandinéia (há uma semelhança sonora inclusive nos nomes), a virgindade representa uma forma de poder:
O discurso sobre a virgindade de Macabéa, uma das marcas identitárias das quais ela mesma se orgulha muito, constitui, para ela, uma forma de poder
via resistência à sociedade constituída dessa época. Segundo Foucault (1988)21, a resistência caminha ao lado do poder, pois onde há poder há
resistência, que pode aparecer em centros de resistência distribuídos no tempo e no espaço que, algumas vezes, mobilizam indivíduos ou grupos de pessoas que passam a exaltar certos pontos do corpo, do comportamento, entre outros (GUERRA, 2011, p. 243).
Wandinéia tem acesso ao púlpito de sua igreja, o lugar de maior destaque de uma instituição religiosa, graças à possibilidade de testemunhar sobre sua virgindade, o que por si só já se enquadra numa imagem grotesca, na medida em que o púlpito religioso onde se deve falar de coisas diáfanas e sublimes é usado para normatizar a vagina. Quanto ao clímax narrativo, tanto o momento da morte de Macabéa por atropelamento quanto o momento em que, falando do púlpito, o celular de Wandinéia alojado na sua vagina toca, causando-lhe um orgasmo, podem ser considerados como momentos de reviravolta e epifania na trajetória de ambas as personagens, pois Macabéa na hora de sua morte dirá: “Hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci.”22 Wandinéia, por sua vez, morrerá como persona (máscara) religiosa, tornando-se consciente de seu corpo, portanto nascendo a partir daí, e ao resolver virar feminista passará o dia no Facebook defendendo que nenhuma mulher deve sentir vergonha de sentir "prazer" ou de se masturbar com um cabo de vasoura.
Em Wandinéia se pode perceber também uma relação de opostos (o sagrado e o profano, o celeste e o terreal, a carne e o espírito, a suposta virtude da virgindade e o desejo febricitante) que caracteriza a estética grotesca, na medida em que se entrelaçam e criam, a partir disso, um valor novo, agregador e unificador:
O grotesco, pela sua própria essência, vem colocar em crise a noção de unidade da personalidade humana, dotada de subjetividade una, contínua e coerente, rompendo a harmonia que se projeta sobre a relação do corpo com o espírito e ilustrando de forma inequívoca o conflito da duplicidade do ‘anjo’ e do ‘demônio’ (BATALHA, 2008, p. 188).
E o humor emerge desse conto exatamente na perspectiva do conflito desses lados que na narrativa são considerados antípodas: a virgindade é o valor conformado às expectativas da religião cristã, castradora da corporeidade e de suas realidades (o elemento disforme e indesejado, o qual deve ser ocultado), bem como enfática quanto à superioridade do que ele elege como sublime. Propp descreve nesses termos essa ambivalência:
21
História da sexualidade I: a vontade de saber. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
O disforme é o oposto do sublime. Nada que seja sublime pode ser ridículo, ridícula é a transgressão disso. O homem possui certo instinto do devido, do que ele considera norma. Essas normas referem-se tanto ao aspecto exterior do homem quanto à norma da vida moral e intelectual (PROPP, 1992, p. 52).
Merece também a nossa atenção a referência feita nessa postagem ao saco de tomates que Wandinéia carregava na ocasião em que teve seu primeiro orgasmo na via pública, ao tentar recolhê-los do chão, após romper-se a sacola que os continha: ela colocou o iPhone no meio de suas pernas, bem coladinho em sua vagina, para poder usar as mões (grafia original) para pegar os tomates que estavam no chão. Essa menção aos tomates não é aleatória; foi escolhida por causa da polêmica alta de preço23 do tomate, o que vinha acontecendo nos vários meses que antecederam essa postagem, e que atingirá seu ápice no primeiro semestre de 2013, tornando-se motivo de piadas em jornais, revistas, programas de Tv e, claro, nas redes sociais24.
Figura 10
23 Essa alta de preço foi de até 168,05%. Fonte: http://economia.uol.com.br/album/2013/04/05/preco-do-tomate- vira-motivo-de-piada-nas-redes-sociais.htm#fotoNav=15. Acessado em 23 de outubro de 2013.
Do ponto de vista da forma discursiva, temos um grotesco do gênero representado (suporte escrito e imagístico), da espécie crítico, pois o efeito humorístico está no desmascaramento das convenções e ideais subjacentes à vida protestante, expondo de modo risível os mecanismos do poder (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 69).