A evolução geotectônica da Bacia de Salta é bastante complexa, uma vez que foi afetada por diversos ciclos orogênicos desde o Cretáceo até o processo compressivo da Orogênese Andina no Eoceno (HERNÁNDEZ; ECHAVARRIA, 2009). A origem da Bacia de Salta está associada a um processo de rifteamento intraplaca durante o Cretáceo (BIANUCCI; HOMOVOC, 1982) relacionado à abertura do Gondwana, que gerou o Atlântico Sul e pode estar relacionada ao Ciclo Orogênico Patagonídico (figura 3.1).
A evolução geotectônica da bacia permitiu o desenvolvimento das fases pré- rifte, rifte e pós-rifte. Cada uma destas fases, por apresentar diferentes mecanismos de subsidência, irá apresentar diferentes características deposicionais.
A fase pré-rifte é formada por unidades sedimentares, vulcanoclásticas e ígneas, depositadas, intrudidas e extrudidas na região noroeste da Argentina. Estas rochas correspondem ao embasamento da bacia, de idade Meso- Neoproterozóico/Paleozóico que foram metamorfisadas em baixo a médio grau (fácies xisto verde a anfibolito médio) até o início do Cretáceo (BIANNUCCI; HOMOVOC, 1982; SALFITY; MARQUILLAS, 1989).
A fase rifte está caracterizada pela distensão crustal no Cretáceo, que gerou depocentros de até 4.000m de profundidade (MARQUILLAS et al., 2005). Segundo Hernández et al. (1999), os litotipos que preenchem o rifte apresentam suas bases em discordância litológica com o embasamento. Ramos (1988) expõe que a forma de abertura do rifte está associada a lineamentos estruturais herdados de paleo-riftes que se desenvolveram do Permiano ao Triássico/Jurássico, no Ciclo Orogênico Gondwânico. Tais lineamentos ocasionaram variações na subsidência da bacia, determinando a formação de altos internos, conhecidos na área como “umbrais” (COMÍNGUEZ; RAMOS, 1995; CRISTALLINI et al., 1998). Destacam-se os umbrais
que se conectam a partir das bordas do rifte a um alto central chamado Dorsal de Salta-Jujuy, conferindo geometria radial para a bacia que, por sua vez, é delimitada por arcos estruturais (SABINO, 2004).
Figura 3.1: Sistema de riftes cretácicos desenvolvido durante o Ciclo Patagonídico. Destaque em amarelo para o sistema rifte do Grupo Salta. Adaptado de Ramos (1999).
A sub-Bacia de Metán-Alemania é delimitada pelos arcos Transpampeano- Púnico e Pampeano a oeste/sudoeste, e leste/sudeste, respectivamente. Internamente, o Umbral de Guachipas é responsável pela separação dos depocentos de Métan a leste e Alemania a oeste (figura 3.2). Segundo Hernández et al. (1999), os registros sedimentares nesta fase apresentam forma de cunha, indicando forte controle tectônico durante a deposição.
Figura 3.2: Feições estruturais e tectônicas do rifte cretácico da Bacia de Salta. Em amarelo os depocentros, em vermelho os umbrais e em cinza os arcos e dorsais estruturais. (BENTO-FREIRE, 2012, modificado de SABINO, 2004).
A fase pós-rifte tem início no Maastrichtiano, quando ocorre diminuição significativa nas taxas de subsidência na bacia, com redução do aporte sedimentar a partir das bordas. Nesta etapa desenvolve-se o estágio SAG, no qual a subsidência passa a ser predominantemente termal (DEL PAPA; SALFITY, 1999; SALFITY; MARQUILLAS, 1999).
Nesta fase, a sedimentação recobriu os altos estruturais, unindo as sub-bacias geradas no estágio rifte, fazendo com que a bacia se tornasse ampla e rasa (figuras 3.3A e B). Isto ocasionou a expansão dos limites da bacia (figura 3.4) e fez com que seus registros sedimentares se tornassem mais tabulares. Apesar da colmatação da fase rifte ter iniciado no Maastrichtiano, a dorsal de Salta-Jujuy continuou se comportando como um alto no centro da bacia, sendo coberto pela sedimentação
somente no final do Daniano (DEL PAPA; SALFITY, 1999; GÓMEZ OMIL; BOLL, 1999, 2005; HERNÁNDEZ et al., 1999; SALFITY; MARQUILLAS, 1999).
Muitos estudos consideram a evolução do estágio SAG de forma contínua até o Eoceno (CRISTALLINI et al., 1998; MARQUILLAS et al., 2005; REYES; SALFITY, 1973; SALFITY; MARQUILLAS, 1994). Outros estudos (e.g. BIANUCCI et al., 1981; GÓMEZ OMIL; BOLL, 1999; GÓMEZ OMIL et al., 1989; HERNANDEZ; DISALVO, 1991; HERNANDEZ et al., 1999) demonstraram que há significativa mudança no padrão de subsidência da bacia durante o Paleoceno, manifestado através de um novo tectonismo distensivo que marca a Fase Pré-Olmédica. Este evento promoveu o desenvolvimento de um segundo estágio rifte da bacia, que se distingue por uma discordância regional erosiva que se associa, em parte, ao rejuvenescimento da drenagem fluvial, observado, principalmente, nas bordas da sub-Bacia de Lomas de Olmedo. Os depósitos sedimentares gerados nesta etapa são de formas complexas, por vezes cuneiformes, tendendo à tabularidade no Thanetiano (58-57 Ma). Esta fase, Pré-Olmédica não foi capaz de gerar depocentros significativos que pudessem acumular espessuras comparáveis com as da primeira etapa rifte do Grupo Salta. Com isto, seus depósitos logo foram encobertos por camadas regionalmente tabulares, marcando um segundo estágio SAG na área, que se estende até o Eoceno (figura 3.5).
A orogenia Andina ou Ciclo Andino é a última etapa evolutiva da Bacia do Grupo Salta (RAMOS et al., 1988). Nesta fase, a bacia apresentou regime tectônico típico de
foreland, na qual ocorrem deformações, inversões (algumas envolvendo até o
embasamento), dobramentos (anticlinais e sinclinais) e reativações de falhas (HERNÁNDEZ; ECHAVARRIA, 2009; HERNÁNDEZ et al., 1996). Segundo Gómez Omil e Boll (1999), esta orogenia é responsável pela geração de trapas, que constituem importantes alvos exploratórios para a prospecção de petróleo.
Figura 3.3: Seções estratigráficas na sub-Bacia de Metán-Alemania. (A) Seção apresentando espessura na fase rifte superior à espessura na fase SAG. (B) Detalhe da forma tabular e suave (não falhada) da fase SAG. (BENTO-FREIRE, 2012 modificada de HERNANDEZ et al., 1999).
Figura 3.4: Limites deposicionais da primeira fase SAG da Bacia de Salta com destaque para os principais depocentros das sub-bacias. (BENTO-FREIRE, 2012, adaptado de HERNÁNDEZ et al., 1999 e SALFITY; MARQUILLAS, 1999).
Figura 3.5: Linha sísmica em tempo, apresentando os registros sedimentares das fases tectônicas da Bacia de Salta na região de Lomas de Olmedo, flanco sul. Escala vertical em segundos. (Modificado de DISALVO et al., 2005 apud CANDIDO, 2007).