• Sonuç bulunamadı

Letícia foi a única das entrevistadas que realmente nasceu e foi criada em Horizonte. Apesar de ter morado por sete anos em Fortaleza, isso só aconteceu durante seus estudos, pois sempre que podia voltava para o seu município de origem, nos finais de semana, feriados e férias. Assim, Letícia acompanhou todo o processo de industrialização e mudanças da região, mencionando como principal aspecto positivo a oportunidade de emprego para as pessoas a partir da chegada de empresas, e como aspecto negativo o aumento da criminalidade: “De primeiro não tinha violência”.

Os pais, irmãos e a própria Letícia são bastante envolvidos com o movimento quilombola, desde o início do reconhecimento da comunidade, até a criação da ARQUA e o desenvolvimento de ações desta, o que consiste em motivo de orgulho por parte da entrevistada: “Pra mim a ARQUA é um ponto de referência, onde a gente acolhe as pessoas de fora. Pra mim é tudo dentro da comunidade [...] É importante pra gente porque procura recursos, benefícios”.

Há histórico de escravidão nas gerações anteriores de sua família, mas parece que a questão só veio a ser realmente assumida após o movimento de valorização da descendência negra de Horizonte: “Eu sou quilombola da gema, da clara [...] Eu já sabia, com as histórias do meu avô, dos meus tios, que a gente era descendente de escravo, por causa das histórias. Mas eu não tinha nem noção da importância disso”.

A escolaridade do Ensino Médio foi concluída por Letícia em idade regular, antes dos 20 anos. Aos 26, ela faz planos de cursar uma graduação, sonho que está sendo transferido temporariamente para o marido, com quem é casada há três anos, pela impossibilidade de o casal pagar duas faculdades ao mesmo tempo. Sobre esta questão, ela afirma:

Tô dando oportunidade ainda ao meu esposo, porque ele tá trabalhando e fazendo a faculdade dele. Quando ele terminar [...] eu entro, se Deus quiser. A gente tá pensando em ter filho, mas eu digo não, eu quero ter uma faculdade, terminar meus estudo, vou arranjar um emprego digno que é pra dar uma boa oportunidade pro meu filho.

Como o marido trabalha fora, na Sapatos, as tarefas domésticas são quase todas realizadas por Letícia, exceto algumas atividades mais pesadas ou em caso de doença: “A maioria das coisas eu que faço. Ele diz ‘tô cansado’. Mas quando eu tô doente não tem cansaço coisa nenhuma, ele que faz. Agora, quando é pra puxar água pra botar no filtro, a obrigação é dele”. Já com os recursos financeiros não existe discordância: “Meu marido não faz diferença, o que é dele é meu, o que é meu é dele. O que arrecadar a gente vai e divide”.

Esse tipo de relacionamento marital, no qual a mulher tem mais liberdade, estuda, profissionaliza-se e tem voz dentro de casa, parece ser uma novidade na família de Letícia, uma vez que seus pais convivem entre si de forma distinta. Ela relata uma conversa que teve com a mãe: “O pai quer ser do mesmo jeito de antigamente. Às vezes eu passo o dia na mãe e ela ‘menina, vai pra casa, teu marido já chegou!’. Aí eu digo mãe, o meu marido não é igual o da minha mãe, não”.

Exercer qualquer atividade laboral fora de casa é algo que a mãe de Letícia nunca fez. Já a filha trabalhou por mais de sete anos na Sapatos, primeiramente como auxiliar de produção e depois como técnica de processo. Essa experiência foi muito importante para o seu aprendizado enquanto iniciante profissional: “Eu achei bom, porque foi um pontapé inicial pra mim. Em termos de ensinar a maneira de trabalhar, e foi lá onde eu comecei a aprender a costurar”.

Sua demissão se deu por corte de funcionários pela empresa, mas Letícia não demonstra o mínimo interesse em sequer tentar voltar a trabalhar nessa ou em qualquer outra fábrica: “Não tenho vontade de voltar pra lá. Não sei por que, mas não tenho vontade, só se não tiver outra opção”. Sobre a Sapatos, ela ressalta alguns aspectos positivos, geralmente os mesmos que outras entrevistadas apontam:

Mas eu gostava de lá, não tenho queixa, porque era uma empresa, vou fazer que nem as meninas, não tinha salário atrasado, tinha cesta básica, tinha transporte. Eu tô procurando outro meio melhor. Não quero voltar porque quero realizar meu sonho, prefiro trabalhar por conta própria.

Um aspecto importante a ser ressaltado é que Letícia sofre, até hoje, de um problema de saúde adquirido seis anos antes, ainda quando trabalhava na Sapatos, e que é conseqüência do ritmo e das condições de trabalho à qual esteve submetida. Sobre isso, ela declara: “A gente tem que trabalhar doente lá. Eu tenho um problema urinário que até hoje eu não consigo segurar. Muita gente sai doente”.

Sobre o significado de trabalho, Letícia afirma:

Trabalho pra mim é tudo! Gosto do que eu tô fazendo hoje: bonecas. [...] O meu trabalho dos meus sonhos tá quase realizando, tô com o pezinho nas coisas, que é o que eu faço agora. Meu sonho é trabalhar pra mim mesma e tá quase realizando. Só falta um pouquinho de patrocínio.

Essa atividade mencionada por Letícia, de fabricar e vender bonecas de tecido, foi levada para a comunidade pelo projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”. Mesmo não sendo uma das alunas propriamente ditas, pois exercia a função de assistente técnica, ela aproveitou a oportunidade e a presença nas aulas para aperfeiçoar o ofício de costurar, aprendido anteriormente na Sapatos: “Pra mim foi muito importante. Apesar de eu não tá ali dentro, eu tava só ali vendo tudo, bilando tudo o que acontecia, tudo que chegava de novidade. E hoje agradeço isso, por tá só bilando. Tô praticando o que eu só bilei”.

Ajudar os outros parece ser uma característica muito forte de Letícia, aparecendo inclusive na sua fala sobre qualidade de vida: “Pra mim, qualidade de vida é ter uma vida digna. Eu queria ter boas condições. Eu nunca disse assim ‘eu queria ser rica’. Eu queria ter boas condições, pra quando uma pessoa disser assim, tô precisando, eu poder ajudar”.

7 ONDE AS HISTÓRIAS SE ENCONTRAM E SE DISTANCIAM

Ao longo de sua história de vida, o indivíduo vai se posicionando e buscando uma coerência discursiva, recolhendo e processando narrativas que vão lhe dar a identidade. (PINHEIRO, 1999, p. 194).

Neste capítulo, analisamos algumas categorias destacadas a partir do conjunto das histórias apresentadas, quais são: Experiências de Emprego nas Fábricas, e principalmente na fábrica Sapatos, de Horizonte; Questões de Gênero e de Raça relacionadas ao Trabalho; Vivência do projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades” e Significados atribuídos ao Trabalho. Propositalmente, determinadas falas, antes citadas, serão retomadas agora com o intuito de compreendê-las a partir dessas categorias.

Benzer Belgeler