A questão posta por Laver e Schofield não é só uma questão teórica, ela pode e também deve ser respondida do ponto de vista empírico. Os autores afirmam: “Mesmo em sistemas partidários fragmentados a disciplina partidária na Europa hoje é entre 80 e 90 por cento” (Laver & Schofield, 1998, p. 17, tradução minha45). Mais à frente, os autores completam:
44 No original: “The degree of variation across parties is not to be neglected, even in systems
characterized by relatively high levels of overall discipline. Davidson-Schmich (2003) reports that the average rice index for the Social Democratic Party in the German Parliament for the period 1953–1957 was 0.99; it was 0.90 for the Christian Democratic Party and 0.80 for the Free Democratic Party” (ibidem, p. 133).
45 Na versão original : “the result is that even in a fragmented party systems party discipline in Europe is
Não pode haver dúvida de que os partidos não são atores unitários para muitos dos fins os quais o cientista político pode se interessar. Para os efeitos da teoria da coalizão, no entanto, essa suposição acaba por não ser tão grave como parece à primeira vista. Isso ocorre porque os partidos políticos europeus são, em geral, bem disciplinados (Laver & Schofield, 1998, p. 34, tradução minha46).
Os autores definem, então, um patamar mínimo de onde podemos partir para entender se os partidos podem ou não ser tomados como atores unitários. A partir desse critério, é possível observar se os partidos brasileiros podem ser entendidos como unitários do ponto de vista de uma teoria de coalizão. No Gráfico 1, pode-se observar a disciplina47 dos partidos políticos48 brasileiros na Câmara dos Deputados e no Senado Federal no
período democrático atual (entre 1988 e 2010). O que se observa é que a disciplina é extremamente alta e sempre superior a 80%. Mesmo a média do plenário, que inclui todos os partidos, é de 92% na Câmara e 83% no Senado.
46 No original: “There can be no doubt that parties are not unitary actors for many of the purposes for
which political scientist may interested in them. For the purposes of coalition theory, however, this assumption turns out to be not quite as serious as it appears at first sight. This is because European political parties are, by and large, well disciplined” (Laver & Schofield, 1998, p. 34).
47 A disciplina é calculada comparando-se os votos dos parlamentares com a indicação dos líderes, soma-
se todos os votos disciplinados e dividi-se pelo total de votos, sendo excluídas as votações onde a discordância entre sins e nãos é menor que 10%, bem como as votações onde não se alcançou quórum.
48 Dada a grande fragmentação no Congresso optei por apresentar no texto apenas os nove maiores
partidos do país nas médias das sete legislaturas do período pós-Constituinte. No entanto, na coluna “Plenário” é possível observar o conjunto completo dos partidos para os quais ainda é possível calcular disciplina partidária, ou seja, aqueles que tiveram pelo menos três representantes. Os resultados desagregados com todos os partidos podem ser vistos no Apêndice A.
Gráfico 1 - Disciplina Partidária 1988 a 2010
Fonte: Banco de Dados Legislativos do CEBRAP
Do exposto acima, podemos concluir que os partidos brasileiros atendem aos dois critérios propostos por Laver e Schofield. Ou seja, do ponto de vista de uma teoria das coalizões, eles podem ser entendidos como atores unitários. Mas, para além das duas medidas propostas por Laver e Schofield, o comportamento unitário dos partidos no que se refere ao entendimento do funcionamento das coalizões também é verificado por Zucco (2009) em relação à Câmara dos Deputados; e por Freitas, Medeiros, & Izumi (2012) para a Câmara e para o Senado. Nos trabalhos desses autores o que se demonstra é que o comportamento das duas casas legislativas é estruturado em uma única dimensão que representa o conflito entre governo e oposição. Ou seja, o melhor preditor do voto em plenário dos parlamentares é sua posição em relação ao governo.
O fato de estar na coalizão ou fora dela ser um preditor do comportamento dos parlamentares já é um forte indício de que partidos se comportam como uma unidade. Mas, no Brasil, por conta da divisão bicameral, é possível verificar como a relação com
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
o Executivo impacta no comportamento dos partidos e nas estratégias que esses desenvolvem para aumentar sua influência nesta relação entre câmaras. A suposição é simples: se os partidos são capazes de coordenar a ação de seus membros no interior de uma casa, devem também ser capazes de coordenar sua ação entre casas. Ou seja, devem ser capazes de atuar como uma unidade e desenvolver estratégias que envolvam as duas casas parlamentares em um mesmo período do tempo. A questão, neste ponto, é saber de que maneira as estratégias dos partidos se refletem no plenário das casas e em que tempo.
Como mostra Neiva (2011), o aumento ou a queda na porcentagem média anual de apoio dos partidos ao líder do governo tem movimento parecido na Câmara e no Senado. Na medida em que a agenda política da Câmara em t0 só se repetirá no Senado
em t1 ou t2 ou tn, era esperado que o comportamento manifesto nas votações nominais
não variasse na mesma direção e com a mesma intensidade no t0. Neiva acaba por não
explorar esse fenômeno, e se concentra em analisar o comportamento dos partidos individualmente em relação ao Executivo.
No entanto, esse fenômeno pode nos dizer muito mais sobre as estratégias dos partidos na sua relação com o Executivo. Dos 1543 projetos votados no Congresso Nacional entre 1988 e 2010, somente 232 foram votados nominalmente na Câmara e no Senado e cerca de 10% foram votados nas duas casas no mesmo ano. As agendas são definitivamente diferentes, especialmente se consideramos um ano específico.
No Gráfico 249, podemos verificar as taxas de concordância média anual dos partidos com o líder do governo. Nas áreas sombreadas em azul, o partido está fora da coalizão
49 Os partidos exibidos foram selecionados pelo seu tamanho, sendo o critério adotado para exibição o
governista. O que se observa é que, embora a agenda seja diferente, em muitos casos as linhas de concordância seguem o mesmo sentido nas duas casas em t0.
Gráfico 2 - Disciplina em relação ao governo
Fonte: Banco de Dados Legislativos do CEBRAP
0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 198919911993199519971999200120032005200720092011 198919911993199519971999200120032005200720092011 198919911993199519971999200120032005200720092011 1-PMDB 2-PFL>DEM 3-PSDB 4-PT 5-PDS>PP 6-PTB 7-PDT 8-PL>PR 9-PSB CD SF Ano
No Gráfico 3, podemos verificar a força da correlação entre a concordância com o líder do governo na Câmara e no Senado. Sendo da ordem de 0,75, a correlação entre as taxas é significativa e só pode ser explicada se inserirmos um ator coletivo organizando o cenário político. Só pode ser explicada tomando a sério o papel dos partidos políticos.
Gráfico 3 - Correlação entre disciplina em relação ao governo na CD e no SF
Fonte: Banco de Dados Legislativos do CEBRAP
O fato de as taxas de apoio ao governo na Câmara e no Senado variarem na mesma direção, independentemente do pertencimento do partido à coalizão governamental, indica que os líderes partidários aumentam ou reduzem o grau de coação sobre suas bancadas, fazendo com que adotem posições mais ou menos governistas. Trata-se de uma estratégia partidária na relação com o governo, esteja o partido dentro ou fora da coalizão. Novamente, são os partidos políticos organizando seus membros a fim de aferirem benefícios que só podem ser conquistados através dos partidos.
Tanto do ponto de vista teórico ou empírico, não há, portanto, nenhum motivo para não considerarmos que os partidos brasileiros se comportam como atores unitários quando entram ou saem da coalizão. Mas dessa conclusão não derivamos que os partidos sejam coesos, ou que seus membros tenham os mesmos desejos, ou ainda que defendam as mesmas ideologias, tampouco que tenham a mesmas motivações.
Como observa Aldrich, partidos políticos são criaturas dos políticos, instituições endógenas criadas por eles para resolver seus problemas. Políticos criam e entram em partidos por várias razões e estas se combinam de várias maneiras. Eles partem do desejo básico de ter uma carreira longa e bem sucedida, o que passa por alcançar objetivos em termos de políticas, conquistar e manter poder e prestígio dentro do governo. Como afirma Aldrich “esses objetivos devam ser procurados no governo, não nos partidos, mas, por vezes, têm sido mais bem realizados por meio dos partidos (Aldrich, 1995, p. 4, grifo do autor, tradução minha50). É justamente por isso que os
líderes partidários são capazes de agir em nome de seus membros, coordenando a ação dos mesmos.