estacionamentos, garagens, quartéis em processo de desocupação, armazéns municipais, uma
estação de tratamento de esgotos e a cadeia feminina, além de ser cortada por um intenso fluxo
de cargas (BOHIGAS, 1992).
Figura 3.29. Vista panorâmica do Port Vell com a Avenida Drassanes, que leva à Rambla del Raval, e a Rambla Santa Mônica – Canaletes à esquerda, o Passeio de Colón e a Ronda del Litoral ao centro, e a Rambla del Mar com a marina e os equipamentos culturais e de lazer à direita. Fonte:
A operação em Nova Icària representou, também, a emergência de um urbanismo menos fundado no plano diretor de ordenação, que, embora não advogasse a supressão dos instrumentos gerais de controle do uso do solo, promoveu sua transformação ao apoiar-se mais no método de projeto e no desenho urbano. Inaugurou-se, assim, uma característica particular do urbanismo barcelonês dos últimos anos: a intervenção com base no plano-projeto.
Nesta perspectiva as diretrizes de organização e desenvolvimento da cidade concentravam-se na definição de intenções gerais e em esquemas conceituais que explicavam os fundamentos das grandes decisões. A este plano prévio, de caráter não-figurativo e menos específico em termos funcionais, sucediam os planos-projeto, onde eram tratadas as definições formais, os usos e as estruturas urbanas e arquitetônicas.
No caso específico de Nova Icària o plano-projeto71 dizia respeito à criação de um bairro que se
integrasse ao tecido urbano, promovendo a continuidade da cidade e a superação da condição de gueto antiurbano na qual se encontrava, o que implicava sua absorção pela morfologia urbana tradicional sem, no entanto, recorrer à imitação teatralizada e pitoresca da cidade antiga ou de bairros consolidados.
Figura 3.30. Vista da área em que se implantaria a Vila O límpica, um enclave entre a cidade e o mar. Fonte: BO HIG AS, 1992.
Figura 3.31. Esquema geral de ordenação da área a ser ocupada pela Vila O límpica e recomposição de seu
waterfront. Fonte: BO HIG AS, 1992.
Figura 3.32. Plano de desenho urbano para a Vila O límpica e sua articulação com o Passeio de Colón e o bairro da Barceloneta. Fonte: BO HIG AS, 1992.
71. O plano-projeto da Vila O límpica de Barcelona foi desenvolvido pelos arquitetos O riol Bohigas (coordenador), Josep Martorell, David Mackay e Albert Puigdomènech entre os anos de 1984 e 1989. Entre 1987 e 1989 outras 35 equipes de arquitetos participaram do plano desenvolvendo os projetos setoriais de arquitetura, desenho urbano e paisagismo (BO HIG AS, 1992).
O plano-projeto para Nova Icària fundava-se em três critérios básicos: recompor as infraestruturas capazes de tornar o setor novamente habitável, as praias, os circuitos ferroviários, a circulação viária do cinturão do litoral e as redes de drenagem e esgotamento; edificar novas tipologias arquitetônicas adequadas às necessidades contemporâneas da habitação, do comércio e dos serviços, segundo a cultura arquitetônica herdada do modernismo, sobre o tecido urbano tradicional, priorizando os espaços de convivência no interior das quadras, a insolação e ventilação adequadas, a privacidade das unidades, a valorização das vistas e a conexão entre as diversas partes construídas; realizar a integração social e formal do bairro com a cidade com base na superposição de usos e na diversificação dos caracteres arquitetônicos dentro, porém, de uma unidade formal coerente (BO HIG AS, 1992) (Figuras 3.33 a 3.36).
O plano foi estruturado segundo um esquema de cinco faixas sucessivas de intervenção paralelas ao mar e um sistema de parques integrados. A primeira faixa envolvia conceber um sistema de defesa para a linha de praia que se estendia desde a Barceloneta até as proximidades da desembocadura do rio Besòs. A alternativa foi a criação de uma série de praias côncavas entre espigões perpendiculares ao mar, progressivamente recompostas com aterros artificiais de areia extraída do fundo do mar.
Figura 3.33. Modelo da volumetria adotada para a Vila O límpica. Fonte: BO HIG AS, 1992.
Figura 3.34. Perspectiva da volumetria adotada para a Vila O límpica. Fonte: BO HIG AS, 1992.
Figura 3.35. Plano geral da Vila O límpica de Barcelona. Em destaque as habitações, as torres do Hotel Arts e Mapfre (escritórios) junto à marina, os novos circuitos viários paisagísticos e os parques urbanos à beira-mar. Fonte: BO HIG AS, 1992.
Num setor intermediário desta extensa franja, situado no vértice do eixo visual da Calle Marina, projetou-se uma península que, avançando sobre o mar, formava uma pequena marina. Nela se implantou uma escola de vela e as infraestruturas necessárias ao apoio das competições náuticas. Dando continuidade ao passeio marítimo da Barceloneta, a segunda faixa do plano contemplou um amplo calçadão arborizado com 30m de largura ao longo da faixa de praia, bordejando um circuito viário de caráter local e paisagístico. A terceira faixa do plano consistiu na implantação de uma série de atividades costeiras e equipamentos de apoio ao lazer e ao turismo situados entre a via paisagística e a Ronda del Litoral – quarta faixa do plano – uma via de trânsito expresso que cruza, enterrada ou em trincheira, toda a frente marítima de Barcelona desde a zona portuária até a margem do rio Besòs.
A quinta faixa do plano referia-se ao núcleo urbano propriamente dito, isto é, às tipologias residenciais que deveriam integrar-se à morfologia tradicional e realizar a adequada extensão da estrutura do plano do Ensanche em direção à linha da frente marítima.
Figuras 3.37 a 3.39. Vistas da obras na região da Vila O límpica e frente marítima de Barcelona. Fontes: www. panoramio.com / BO HIG AS, 1992. Figura 3.36. Planta do setor residencial da Vila O límpica
com o passeio marítimo, as torres do Hotel Arts e Mapfre (escritórios) e a marina. Fonte: BO HIG AS, 1992.
O s edifícios residenciais, bem como a maior parte dos espaços comerciais, áreas comuns e espaços públicos envolventes, foram projetados por trinta e cinco equipes de arquitetos72 com
base nas premissas do plano-projeto elaborado pela equipe do arquiteto O riol Bohigas. Para os edifícios que compunham as quadras do Ensanche o plano indicava, com bastante rigidez, os dimensionamentos, os gabaritos, as superfícies edificáveis e até mesmo soluções tipológicas. Uma norma bastante radical foi a determinação do uso de um único material nas fachadas, o tijolo nas suas várias cores e texturas (Figuras 3.40 a 3.43).
O s blocos seguiram, na sua maior parte, a diretriz básica de ocupação das quadras do Ensanche: edificação junto ao alinhamento e reserva de áreas abertas no interior. Alguns edifícios foram construídos excepcionalmente alinhados a eixos visuais ou de deslocamento que cortavam a malha regular de quadras segundo diferentes geometrias, como no caso do conjunto residencial e de uso misto construído no extremo leste da Vila O límpica, que assinala, com sua escala e geometria curva, o antigo circuito ferroviário que passou a correr no subterrâneo. A implantação deste setor ensejou a criação de um parque urbano – o Parque Carles I – nos fragmentos de quadras próximas à Calle Marina – eixo perpendicular ao mar em cujo vértice se erguem as torres Hotel Arts e Mapfre – o quefavoreceu a integração do novo bairro com o Parque da Ciutadella, a leste (Figura 3.41).
Figura 3.40. Volumetria de quadra de uso misto (habitação e comércio) construída nas proximidades da Vila O límpica. Fonte: BO HIG AS, 1992.
72. As habitações foram confiadas aos arquitetos que haviam obtido algum tipo de prêmio nos concursos anualmente promovidos para os melhore edifícios construídos em Barcelona. O caráter neutro da escolha proporcionou a realização de um conjunto que apresentou as características mais significativas da arquitetura catalã dos últimos anos, além de ter propiciado a participação de arquitetos de três gerações (BO HIG AS, 1992).
No extremo oeste da zona habitacional outra situação que quebrou a regularidade da malha e conferiu forte caráter espacial foi a implantação de um amplo calçadão de pedestres na calha da avenida del Bogatell, antiga linha que interrompia diagonalmente a quadrícula e abrigava os grandes canais de esgotos da cidade (Figura 3.43). O passeio, que tem início no cruzamento com a Calle Marina, culmina numa praça circular que se conecta ao Parque do Litoral.
O Parque do Litoral, uma franja verde contínua de quase dois quilômetros de extensão que se estende desde o extremo leste da Vila O límpica, no limite com o Parque da Ciutadella, até o Parque do Poblenou, permitiu a necessária conexão do bairro antigo do Poblenou com o mar e com as áreas renovadas da Vila (Figura 3.44).
Impulsionada pelos grandes projetos olímpicos das décadas de 1980 e 1990, a transformação da frente marítima de Barcelona seguiu adiante resgatando espaços abandonados ou insalubres e os incorporando ao tecido urbano. A reforma urbanística de Besòs, região situada no limite leste da frente marítima, é um exemplo de intervenção recente que merece ser mencionada por sua envergadura, pelos programas que contempla e pelo viés estratégico que a orientou.
Legenda: 1. Marina do Porto O límpico / 2. Torres Hotel Arts e Mapfre / 3. Vila O límpica / 4. Calle Marina / 5. Parque da
Ciutadella / 6. Avenida del Bogatell / 7. Passeio Marítimo / 8.
Ronda del Litoral / 9. Parque do Poblenou / 10. Concentração residencial verticalizada no Parque da Diagonal Mar / 11. Prolongamento da Avenida Diagonal / 12. Área de intervenção da reforma urbanística de Besòs.
Figura 3.44. A frente marítima de Barcelona. A solução de problemas de naturezas distintas – sistemas de circulação viária, circuitos ferroviários, ampliação da faixa de praia, criação de novas zonas habitacionais e de negócios, criação de parques e equipamentos públicos – numa operação urbana de grande escala que demonstra o grau de comprometimento com o desenho urbano, a capacidade de gestão e a força da vontade política dos agentes públicos. Fonte: G oogle Earth, 2012. (Elaborado pelo autor)
A área próxima à desembocadura do rio Besòs, no limite leste do município de Barcelona, constituiu-se historicamente como uma das áreas mais maltratadas da cidade e até fins da década de 1990 permaneceu assim. Sobre um terreno pantanoso, resultante do acúmulo de sedimentos do rio e das alterações marinhas provocadas pela instalação do porto, e isolado dos arredores da cidade do século XIX em razão do caminho ferroviário que ligava Barcelona a Mataró, instalaram-se, desde o final do século XIX, além de núcleos habitacionais precários, vários equipamentos e infraestruturas insalubres fundamentais para a manutenção do funcionamento da cidade. Ali se encontravam, na margem direita, a estação central de tratamento de águas, construída em 1975 e ampliada em 1992 em razão da desativação da central del Bogatell – que deu lugar à Vila O límpica – uma central de tratamento de resíduos e uma usina termoelétrica, que substitui uma antiga usina a carvão. Na margem esquerda havia uma outra central termoelétrica. Também fazia parte do contexto o bairro popular La Mina, um conjunto de 2.700 apartamentos provido de equipamentos comunitários construído entre 1970 e 1975 e que representou a primeira atuação em grande escala do governo franquista no âmbito da habitação social.
A despeito do caráter aparentemente caótico do espaço na região de Besòs a área foi escolhida como espaço referencial a ser contemplado com uma operação urbana de grande porte que, à semelhança das recentes intervenções na Vila O límpica e no waterfront, vinculava-se a um evento de alcance internacional, o Fórum Universal das Culturas realizado em 2004.
O Fórum foi uma iniciativa patrocinada pela UNESCO73 que pretendia reunir todas as culturas do
mundo para debater o papel central das cidades na geração de condições para a paz, a integração mundial e a sustentabilidade. A região de Besòs fora convertida num cenário emblemático para a celebração do Fórum por se tratar de um lugar simbólico74 e pela urgência
de se experimentar ali uma melhoria radical em termos urbanísticos, ambientais75 e sociais
(AJUNTAMIENTO DE BARCELO NA, 2007).
Para atuar na gestão urbanística foi criada, em 2000, a Infraestrutures de Llevante de Barcelona S.A., uma empresa municipal que se encarregou da direção e desenvolvimento dos projetos e da administração dos recursos, tanto públicos como privados. A empresa era responsável, também, pela gestão da construção dos espaços públicos e pelas concessões de uso destes espaços. 73. O rganização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura.
74. Além do débito que a cidade acumulava quanto à reintegração da área ao tecido urbano, Besòs fora palco do fuzilamento de milhares de catalães após o final da G uerra Civil Espanhola (AJUNTAMIENTO DE BARCELO NA, 2007).
75. O novo cenário deveria expressar a aplicação prática dos princípios de sustentabilidade, eixo temático do Fórum. Esta preocupação regeu o projeto das obras, tanto no que diz respeito aos materiais e recursos utilizados, quanto a seu funcionamento e manutenção (consumo de energia, água, diminuição das emissões de CO 2, etc.). A instalação de grandes cobertas fotovoltaicas geradoras de energia limpa, capazes de alimentar os edifícios, e a criação de um zoológico marinho (ainda não executado) ligam-se, também, a esta estratégia.