O choro do recém-nascido ganhou destaque no contexto dos depoimentos. Para os entrevistados o choro do neonato representa a vida. Ao presenciar o ato de nascer do filho e escutar o seu choro, os pais se emocionaram e ressaltaram experienciar sentimentos de felicidade, alegria e sensação de bem estar.
Foi uma emoção muito grande, um momento inesquecível, principalmente na hora que a criança chora. Quando nasce ela ta sem respirara aí tem que esperar. Quando chora é um sinal que ta respirando. Demorou 3 segundos a 5 segundos, foi rápido. (MANOEL)
O momento do nascimento foi bom demais [...] ver ele nascendo é uma felicidade grande, ansiedade também porque eu tava muito ansioso pra ver ele chorar. Daí quando eu vi ele ali na caminha, vi ele chorar, o médico segurando ele, aí pronto, foi uma emoção e junto com a felicidade imediata. [...]eu já vi em outras situações o pessoal contar que a criancinha não chorou ou a criancinha quando nasce o médico bate ou o médico bota de ponta cabeça pra ele chorar, pra daí limpar o pulmão. (FELIPE)
O choro constitui-se em uma resposta fisiológica a uma determinada situação. Após o nascimento, a atenção dos profissionais é voltada para a respiração do neonato. O recém- nascido normal, respira e chora, logo após o nascimento. (REZENDE FILHO, 2008). O primeiro choro é considerado fisiológico e favorece a oxigenação do sangue, a reorganização dos sistemas cardiovascular e respiratório ajudando na conservação da homeostase. Daí, representa um sinal de vitalidade. (BRANCO; BEHLAU; REHDER, 2005).
Estudos mostram que a mãe fica ansiosa para ouvir o choro da criança e mesmo que os profissionais afirmem que o bebê nascera saudável, a expressão facial materna ainda condiz com uma interrogação, que é minimizada quando ela escuta o filho chorar. O choro é algo que sinaliza uma manifestação de vida, é uma representação de que a criança se faz viva e que está salutar. (ROSA et al, 2010).
Os participantes expressaram conhecimentos sobre a necessidade do choro da criança, logo após o nascimento. Portanto, deixaram claro o desejo que tinham de escutar o
choro do filho, o que simbolizava a vida da criança. Em tempos remotos, quando a participação do homem no parto, restringia-a a ficar fora da cena da parturição, esperando o evento do nascimento do seu filho, ouvir a criança chorar era um sinal de paz e início da celebração da vida. (CAVALCANTE, 2007).
O nascimento e o choro da criança teve um valor simbólico para o pai. Segundo os depoentes, foi algo inesquecível, levando-os a considerar que esses fenômenos ficarão marcados em sua memória. Isto poderá repercutir na corresponsabilidade do homem para com a criança, pois conceberam que ao presenciar o nascimento do filho e vê-lo chorar, estarão mais presentes nas relações familiares. Demonstraram ainda o querer de cuidar da criança, retirando parte da responsabilidade da mãe, que outrora cuidava sozinha do filho, e ao homem cabia apenas a tarefa de provedor.
[...] é uma sensação ímpar, uma sensação muito boa de você pegar a sua criancinha no colo e ver que ele ta ali até chorando mesmo, ta sadio, tudo isso é uma sensação muito boa, boa demais até. (FELIPE)
Eu cheguei normal na sala de parto, só mudou a sensação quando eu vi a criança chorar, me deu uma sensação de alegria, né? Por a gente ta vendo um filho da gente nascer pela primeira vez, eu fiquei assim, eu me emocionei, mas não chorei. Foi uma sensação de alegria, mas não cheguei a chorar não. (MATEUS)
A ansiedade de averiguar se o filho nasceu saudável foi conferida mediante o choro expressado pelo neonato. Além disso, trouxe a certeza de que de simples companheiro passou para a condição de companheiro e pai, trazendo-lhe contentamento, pois os discursos revelaram que eles sentiram-se felizes e emocionados por presenciarem o nascimento do filho pela primeira vez.
Relativo ao depoente que mencionou não ter chorado, leva-se a refletir sobre o quanto o homem é sensível, todavia é obrigado a privar-se de expressar seus sentimentos diante de uma sociedade que o considera como ser viril, devendo, portanto, assumir a masculinidade por inteiro. Sobre esse assunto, Gomes (2008) destaca que a masculinidade é um espaço simbólico, servindo para estruturar a própria identidade do homem no seio da sociedade, assim são modelados comportamentos, atitudes e emoções a serem apreendidas pelo ser masculino. Seguir tais modelos, serve para atestar a sua qualidade de homem, como também a certeza de que não serão questionados por outrem que compartilhe desses símbolos.
Nesse contexto, é preciso que profissionais de saúde lidem com a cena do parto, considerem o fenômeno do nascimento como algo repleto de emoções e reconheçam que os envolvidos, companheiro e parturiente, podem e devem expressar sua sensibilidade. É necessário possibilitar aos homens sentimentos acolhedores e não repressivos. Como seres humanos, são dotados de subjetividade e sentimentos que, uma vez expressados diante do cenário do nascimento do filho, carecem ser respeitados.
Os dados desta pesquisa permitem afirmar que a presença do homem no contexto da sala de parto é de fundamental importância aos cônjuges, e de modo especial à companheira e ao filho, pois favorece as relações interpessoais no âmbito do nascimento. O companheiro adota atitudes de cuidado direcionadas à parturiente, confirmando o preconizado pelo Ministério da Saúde.
Do ponto de vista da maioria dos depoentes, os profissionais da instituição onde foi realizada a pesquisa em apreço tiveram uma atitude de acolhimento para com eles, focando sobremaneira o trinômio companheiro, parturiente e filho. Da mesma forma, evidenciou-se conhecimentos desse acompanhante acerca do processo da parturição, o que pode ter influenciado sua decisão em se fazer presentes à sala de parto e adotar atitudes empáticas diante da parturiente, contribuindo para um parto tranquilo e sem maiores intercorrência.