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BÖLÜM 1: KURAMSAL ÇERÇEVE VE ĐLGĐLĐ ÇALIŞMALAR

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Figura 17: Print Screen de My Son John, 1m 10s

Na rua repleta de árvores e casas padrão, Chuck e Ben, trajando o uniforme da marinha estadunidense, brincam com uma bola de futebol americano (figura 17). Impaciente com a demora de Lucille em arrumar-se, Dan, o pai, a chama aos gritos e os dois têm uma cômica discussão, repleta de piadas. Como não poderia deixar de ser em um domingo de manhã, a família vai à igreja. Em menos de dois minutos, essa primeira cena

do filme135 nos situa em uma divertida família católica estadunidense do subúrbio. A cena também já revela o ar cômico que perpassa grande parte da narrativa. Na igreja, depois da missa, o padre, outra figura bastante cômica, vem saudar a família. Se refere a Chuck e Ben com muito carinho, lembrando que os batizou e deseja-lhes que Deus esteja ao lado deles. Os garotos fazem uma brincadeira, dizendo que esperam que Deus esteja um pouco à frente deles, fazendo o bloqueio, o gesto feito por Chuck nos traz a impressão de que ele faz referência ao futebol americano.136 Durante o jantar os garotos demonstram todo o carinho que sentem por sua mãe, brincam com ela e se entristecem diante de sua tristeza pela ausência de John. O padre então vai buscá-los para levá-los à estação. Nessa hora percebemos que eles estão indo para a Guerra. Depois de uma despedida extrovertida, mas emocionada, os dois vão embora.137 Nessa rápida aparição já podemos observar algumas coisas sobre a constituição desses dois personagens. O primeiro minuto do filme, com os dois garotos, vestidos com uniforme da marinha, jogando futebol americano em frente à sua casa no subúrbio, chega a ser aterrador pela quantidade de referências sobre a constituição do estadunidense que nos são passadas em tão pouco tempo.

É difícil esperar que um filme dos primeiros anos da Guerra Fria localizasse a casa de uma família branca e de classe média em outro lugar que não o subúrbio. A vida no subúrbio permeou as propagandas da época e passava a ser defendido como o local do

American Way of Life.138 Elaine Tayler May, observa que, apesar de os governantes terem

distorcido a realidade no tocante ao acesso à moradia no subúrbio, ela foi real para muitos brancos da classe trabalhadora e da classe média estadunidense e uma poderosa aspiração para muitos outros.139 Com isso, “o ‘American Way of Life’, encarnado na família nuclear suburbana, como um ideal cultural, se não uma realidade universal, motivou inúmeros americanos do pós-guerra a lutar por ele”.140 O crescimento dos subúrbios foi real e junto

com ele teria se desenvolvido, também como resultado das ansiedades da Guerra Fria, uma nova ênfase na família e na conformidade.141 Diante disso, parece claro que Chuck e Ben representam essa valorização da família nuclear suburbana e da conformidade, e a disposição de lutar pela defesa do American Way of Life. Se pensarmos ainda a ligação feita entre Chuck e Ben com o futebol americano, que em cenas posteriores será

135 My Son John, 1m 03s – 2m 57s. 136 Ibid., 3m 34s – 4m 26s. 137 Ibid., 4m 27s – 8m 04s.

138 Cf. MAY, Elaine Tyler – op.cit. p. 8 139 Ibid. pp. 22-23

140 Ibid. p. 11

fortalecida142, essa representação dos garotos como representantes da luta pelo American

Way of Life, se mostra ainda mais forte.

Segundo Jeffrey Montez de Oca, que destaca o entrelaçamento entre a mídia esportiva e a política, o futebol ganhou espaço na mídia estadunidense no início da Guerra Fria em detrimento do baseball, que era o esporte nacional.143 O autor observa que durante todo o século XX os “esportes vigorosos” foram citados como importantes para o treinamento de soldados e cidadãos fortes, como incentivador inclusive do sentimento democrático.144 Durante a Primeira Guerra Mundial o futebol teria sido amplamente utilizado como parte dos treinamentos para condicionar e levantar a moral dos recrutas, o que teria levado a uma grande popularização do esporte entre as classes mais baixas, que estavam fora das universidades.145 Porém, apesar desse reconhecimento da importância do esporte para o treinamento militar, e até mesmo civil, vir de muito tempo, o autor destaca um agravamento dessa questão durante os primeiros anos da Guerra Fria. Nesse período passaram a divulgar nas escolas um filme da Coronet Instructional Film, de 1951, intitulado Getting Ready Physically, definindo exercícios físicos e treinamentos esportivos para que os meninos estudantes se preparassem para ingressar no exército após a formatura e, assim, suportar os rigores da guerra. Montez de Oca ressalta que houve a partir desse período uma “militarização da educação física”, inclusive com educadores físicos militares dando aulas de educação física nas escolas públicas.146 Nesse contexto, o Futebol americano foi visto como algo que ajudava a produzir uma “masculinidade fortificada”, vista como necessária em tempos de Guerra Fria.147 Diante dessa questão, parece oportuno dar destaque à cena do filme em que Lucille, John e Stedman estão discutindo e Stedman, percebendo que Lucille está muito abalada por descobrir que John é um comunista, pergunta sobre Chuck e Ben, “os half-backs”. Lucille então pega uma foto dos dois em um

142 Em uma cena posterior, quando o agente Stedman vai à casa de Lucille fingindo cobrar uma dívida de seu

marido, Lucille lhe mostra a foto de Chuck e Ben em um jogo de futebol americano, e Stedman os identifica como half-backs, jogadores ofensivos. (35m 29s). Mais uma vez, quando Stedman pergunta a Lucille sobre os garotos ela pegará a foto e se lembrará, contando para John, de quando iam assisti-los jogar. (1h 41m 28s).

My Son John.

143 Cf. MONTEZ DE OCA, Jeffrey - Discipline and indulgence: college football, media, and the American

way of life during the cold war. New Brunswick: Rutgers University Press, 2013. p. 06.

144 Em 1907 Teddy Roosevelt, em um discurso em Harvard, disse que. “Em qualquer república, a coragem é

uma necessidade primordial para o cidadão comum, se quiser ser um bom cidadão. . . . Esportes são bons, especialmente em suas formas mais ásperas, porque eles tendem a desenvolver essa coragem. Eles são bons também porque incentivam um verdadeiro espírito democrático, pois no campo de atletismo, o homem deve ser julgado não com referência a atributos externos e acidentais, mas para essa combinação de vigor físico e qualidade moral que vai fazer-se proezas”. De MONTEZ DE OCA, Jeffrey - 2013, op.cit. pp. 09-10.

145 Ibid. p. 10. 146 Ibid. p. 12. 147 Ibid. p. 20.

jogo de futebol e canta um pedaço de The Battle Hymn of the Republic “Ele morreu para tornar os homens santos”, repensando a próxima frase, que seria “Vivamos para tornar os homens livres”, ela diz que talvez Chuck e Ben morram para tornar os homens livres.148

Depois disso, ela passa a lembrar John de quando os meninos jogavam:

Lucille: - Que luta que eles tinham. Você se lembra, John? John: - Sim, querida.

Lucille: - Muitos eram os jogos em que eles se salvavam quando o tempo estava

se esgotando. Quando o tempo estava se esgotando, John. Sim. Você nunca jogou, não é?

John: - Não, querida.

Lucille: - Eu acho que às vezes te machucava quando o seu pai e eu pulávamos

para cima e para baixo torcendo por eles. Se lembre que eu sussurrei para você, "continue estudando, existem outros gols, John."

John: - Mhmmmm.

Lucille: - Agora estamos torcendo para Ben e Chuck novamente. Eles estão

lutando ao lado de Deus agora e eu estou lutando com eles.

Transtornada Lucille segura John e continua:

Lucille: - Me escuta, John, você tem que entrar nesse jogo e você mesmo tem que

carregar a bola.

John: - Bem, você está fazendo tudo certo...

Lucille: - Estou levando-a agora, mas quero passá-la a você, hm? Pegue a bola,

John. Eu... eu não quero fazer este último jogo. John, o tempo está se esgotando. Nós não podemos parar o relógio. John, tome a bola antes que o tempo se esgote. Eu... eu estou torcendo por você agora. Meu filho John, meu filho John, meu filho John...149

Essa cena, com a metáfora do futebol como Guerra, a constatação de que o filho comunista nunca praticou o esporte e a colocação de que para vencer o comunismo é preciso entrar no jogo, é o ápice da afirmação do futebol como construtor de uma “masculinidade fortificada”, que mais uma vez traz a já discutida ligação que se fazia entre masculinidade e posição política150, da qual o filme se utiliza para construir a figura dos garotos que estão indo para a Guerra lutar por seu país. A ida à Guerra completa a representação dos garotos

half-backs suburbanos da família Jefferson.

Já se discutiu no capítulo I deste trabalho a concepção dos estadunidenses sobre a Guerra, que pautada na memória da Revolução e da Guerra Civil, defende as guerras travadas pelos Estados Unidos como boas guerras. Guerras que teriam sido “travadas por grandes e boas causas” e teriam criado a liberdade, a independência, a democracia,

148 My Son John, 1h 41m 47s – 1h 41m 55s. 149 Ibid., 1h 42m 03s – 1h 43m 26s.

destruído a escravidão, possibilitado o crescimento da força industrial e da riqueza, e garantido a formação de uma nação poderosa e unificada.151 Assim, Chuck e Ben, cidadãos preparados para os tempos de Guerra Fria, entram para o hall dos heróis que lutaram para defender a liberdade, a democracia e as riquezas do país.

Benzer Belgeler