Quando a secessão do Catanga terminou, em Dezembro de 1963, foi em Angola que Tchombé procurou acolhimento para os seus homens e para o seu material de guerra. Relativamente a este material devemos ter presente que se tratou de uma enorme diversidade de equipamentos e que terá exigido um grande esforço logístico a Portugal, nomeadamente, aos Comandos Militares de Angola para garantir o seu adequado armazenamento. Este material terá sido sujeito a um apertado controlo quer da parte portuguesa, que tinha a responsabilidade de o guardar, quer da parte catanguesa que fez sempre questão de ter conhecimento de tudo o que tinha a ver com esse mesmo material.
Foi neste contexto que o Comando da Região Militar de Angola montou um sistema de controlo ao longo de toda a fronteira leste com o Congo e criou um comando eventual, o Comando de Evacuação do Catanga (COMEVAK)404, com base no Batalhão de
Caçadores 261, para organizar e defender este sector da fronteira e receber os apoiantes de Tchombé que iam retirando. Estes elementos, que pertenciam à polícia (gendarmes) e que mais tarde, viriam a constituir as unidades de “Fiéis”, uma das muitas forças irregulares criadas em Angola, entraram por Teixeira de Sousa com o respectivo material, onde formalmente se entregaram às autoridades portuguesas405.
Interessa-nos, sobretudo, o destino que terá sido dado a este material e será com base nos relatórios elaborados por comissões eventuais que eram constituídas por militares portugueses e indivíduos da inteira confiança de Tchombé, que tentaremos perceber a dimensão da participação portuguesa nas operações, de apoio a Tchombé, que visavam a recolha e o armazenamento do material que aquele dirigente catanguês utilizou durante a secessão do Catanga.
a. Material de Telecomunicações
Em Janeiro de 1963 deu entrada, em Teixeira de Sousa, por ordem de Tchombé, dois vagões com material de telecomunicações, provenientes de Kolwesi. Este material terá
404 Ver Anexo T (COMEVAK).
seguido para o Luso, onde ficou sob a responsabilidade do comando militar local. Posteriormente, em Abril, o material foi conferido na presença de um representante de Tchombé, daqui surgiu uma listagem fazendo referência às principais características, ao estado de conservação e ao valor comercial406.
O material viria a ser transferido para Luanda face às condições precárias para a arrumação e conservação adequada do material que existiam no Luso. Como seria de esperar o tempo que o material esteve armazenado no Luso provocou avultados danos originando, um dilema para as autoridades portuguesas: guardar apenas o material ou tentar recuperá-lo também. O valor comercial do material, estimado com base no seu estado de conservação, atingia os 2.005.100$00 mas caso viesse a ser recuperado o seu valor duplicaria407.
Para que se perceba o risco que representavam, para Portugal, estas operações importa referir que, relativamente a esta operação, o GCC chegou a entrar em contacto com a Embaixada portuguesa em Leopoldville, exigindo a restituição de todo o material envolvido nesta entrega408 uma vez que, ao terem tido conhecimento do sucedido viam
confirmado os rumores do apoio de Portugal ao Catanga colocando, dessa forma, as autoridades portuguesas numa posição que lhes era impossível negar o referido apoio.
b. Material de Aeronáutica409
Os aviões catangueses recolhidos em Angola e que se encontravam à guarda da 2ª Região Aérea de Angola terão sido, também, conferidos na presença dos representantes de Tchombé, devidamente credenciados para o efeito, tendo sido lavrado um auto de verificação para o efeito410.
Dos aviões recolhidos dois deles (Super – Cub 150 e Piper – Comanche 250) terão sido desmontados e transportados, por via-férrea, do Luso até ao Lobito, e desta cidade, por via aérea, para Luanda, tendo ficado a montagem à responsabilidade da 2ª Região Aérea.
406 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963.
407 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. Importa referir que no relatório a que tivemos acesso fazia referência à listagem deste material em anexo, no entanto, esse anexo não foi possível consultá-lo por não estar junto ao relatório, apenas tivemos acesso ao anexo E (Material do Lobito).
408 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. 409 Ver Anexo U (AVIAÇÃO DO CATANGA - AVIKAT)
410 Listagem que não foi possível consultar uma vez que era um dos anexos omissos do relatório a que tivemos acesso. Importa referir que relativamente a esta questão dos aviões que tivemos acesso a uma Nota, presume-se da PIDE, que pertencia este processo e que fazia referência ao facto de Tchombé e os seus representantes terem feito alusão à existência em Angola de 14 Aviões “Mustang” novos e desmontados. ADN – CX – 4937: Nota.
Posteriormente, em Maio de 1963, na fronteira da Caianda411, entrou um outro avião
catanguês, “FOUGA”, que foi também desmontado e transportado para o Luso e mais tarde, por via aérea, para Luanda, ficando, por este motivo, à margem daquela relação412.
A preocupação das autoridades portuguesas em manter um controlo apertado do material proveniente do Catanga foi permanente ao longo dos anos. Em Maio de 1970 a Secretaria-Geral da Defesa Nacional, em resposta a um ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, de Setembro de 1969, relativamente à situação do Material do Congo guardado em Angola, solicitava uma decisão sobre o destino a dar aos aviões catangueses que ainda se encontravam à guarda das autoridades portuguesas em Angola413. Dessa
relação constavam os seguintes aviões: “ 1 Dougla-DC-3, 3 Havard T-6, 1 Super-Cub 150, 1
Fouga Magister CM 170, 1 Loocheed Loadstar, 1 Dove MK-6, 1 Dolkou F-20 7, 1 Piper TripAcer, 2 Piper Comanche 250”414
.
c. Material de Guerra
Foi no Depósito do Grafanil, em Luanda, que foi armazenado grande parte do material de guerra proveniente do Catanga e terá sido, a 7 de Agosto de 1963, perante os representantes de Tchombé, os Capitães Hwambu Antoine e Mboio Floribert e o Tenente Walter, que se procedeu à verificação e inventariação de todo o material do Catanga ali depositado, tendo sido elaboradas listas assinadas por todos os intervenientes. Apesar de não termos tido acesso ao conteúdo destas listagens415, pelo título atribuído a cada uma delas podemos constatar o tipo de material que terá ficado armazenado no Depósito do Grafanil oriundo da província do Catanga: “armamento, viaturas e munições; artigos de material
aeronáutico; material de telecomunicações; artigos alimentícios; artigos de fardamento e equipamento; explosivos”416.
O mau estado de conservação era uma característica comum a todos os artigos que constavam nestas listagens e, com o intuito de minimizar os custos que estavam subjacentes à degradação do material, foram apresentadas propostas, em coordenação com os representantes de Tchombé, para evitar que o material se tornasse inutilizável. Essas
411Ver Anexo B (ANGOLA COLONIAL).
412 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. 413 AHD – Maço 1095, PAA, Processo: Bens Catangueses 1963-1971, 1963.
414 AHD – Maço 1095, PAA, Processo: Bens Catangueses1963-1971: Ofício da Secretaria-Geral da Defesa
Nacional, 1970.
415 Este foi mais um dos anexos do relatório que tem estado a ser referido que estava omisso. 416 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963.
propostas foram as seguintes: relativamente ao armamento, viaturas automóveis e material de telecomunicações sugeria-se a sua reparação e respectiva assistência; no que diz respeito aos géneros alimentícios, e por estes serem susceptíveis de deterioração, foi proposto que fossem entregues à Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), para dar assistência aos refugiados; os artigos de fardamento e equipamento foram, também, cedidos à CVP); e os explosivos que face ao perigo que apresentavam, fruto do seu avançado estado de degradação, era urgente procederem à sua destruição417.
d. Material Sanitário
Em Fevereiro de 1963 deu entrada em Angola, através da fronteira de Teixeira de Sousa, dois vagões, oriundos do Catanga, com material sanitário (medicamentos, apósitos418
e material diverso) que ficaram retidos, durante algum tempo, no Luso para posteriormente serem devolvidos419.
Este material, depois de conferido e avaliado num valor estimado de 112.029$00, terá sido entregue à Farmácia do Estado do Luso, no dia quatro de Julho de 1963. Mais tarde, no dia 30 de Julho, ficou decidido que essa quantia seria creditada a Tchombé por contrapartida a oferecer pelos Serviços de Saúde aos refugiados catangueses420.
e. Material de Equipamento Militar
De Dezembro de 1962 a Fevereiro de 1963 foi desembarcado no Porto do Lobito, com destino à Província do Catanga, 512 fardos e 306 caixas com equipamento militar (Polainitos, panos de tenda, sacos de campanha, cartucheiras, boinas, capas de plástico) e, ainda, 20 rolos de arame farpado421.
Em finais de Dezembro dirigiu-se ao Lobito um dos representantes de Tchombé, o Major Muteta, com o intuito de fazer seguir para o Catanga o material até então desembarcado, o que não terá vindo a acontecer, por não ter conseguido disponibilizar a verba necessária para efectuar o pagamento do transporte. Posteriormente e uma vez que não se verificou nenhuma diligência, por parte de Tchombé, para providenciar a expedição do referido material, terá ficado depositado à guarda da Administração do Porto do Lobito.
417 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. 418 Material para curativos.
419 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. 420 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. 421 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963.
Só mais tarde, em 19 de Maio de 1963, é que terá sido solicitado, por um dos representantes de Tchombé, o Capitão Hwambu Antoine, que o material fosse levantado no Lobito e encaminhado para junto do que já existia nos depósitos de Luanda422.
Este material não terá sido expedido para Luanda, tendo continuado à guarda da Administração do Porto do Lobito; perante esta situação colocou-se um problema: caso o material não fosse levantado pelo destinatário no prazo de um ano teria que ser removido para os armazéns das alfândegas para se proceder à sua venda em hasta pública. Uma vez que, essa venda não era conveniente para os interesses portugueses e também não era oportuno o seu envio para o Catanga, conforme terá sido acordado com Tchombé, a proposta terá sido no sentido de se proceder à remoção do material para o Depósito do Grafanil, local onde já se encontrava armazenado o restante material do Catanga423.
f. Combustíveis
Os combustíveis provenientes do Catanga eram colocados à guarda do Comando do Batalhão de Caçadores 114, no Luso e relativamente ao destino que lhes foi dado importa dizer o seguinte:
“2324 bidons de gasolina, de 200 litros cada um, foram vendidos à Móbil Oil Portuguesa, ao
preço de 3$30 o litro, pela quantia de 1.413.590$00 que terá sido depositada à ordem das autoridades portuguesas para liquidar as despesas referentes à hospedagem dos refugiados catangueses no Luso;
Foram consumidos pelo Batalhão de Caçadores 114, 2000 litros de gasóleo, 3500 litros de
gasolina, 200 litros de óleo que ao preço normal para as Forças Armadas, importaria em 21.680$00. Por despacho de 22/7/63 foi considerada esta importância como compensação pelas despesas efectuadas por aquele Batalhão em transporte de material do Catanga;
Cinco bidons de 200 litros cada, de óleo de aviões, foram cedidos ao Governo do Distrito do
Moxico”424.
Em Agosto de 1963 só restavam 255 bidons com 50.526 litros de combustível para aviões a jacto que a Móbil Oil Portuguesa se recusava a adquirir sem o analisar previamente. Terá sido autorizado a esta companhia a recolha de uma amostra de 100 litros
422 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. ADN – CX – 4937: Informação da
PIDE relativamente Ao material armazenado no Lobito, 1963.
423 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963. 424 ADN – CX – 4937: Informação n.º 61 do Governo-Geral de Angola, 1963.
para efectuar a referida análise sendo esta a razão principal para, aquela data, ainda existirem combustível armazenado no Luso425.
Durante todo este período o apoio português a Tchombé intensificou-se uma vez que, caso o Catanga conseguisse a independência, poderia estabelecer-se uma nova aliança estratégica que garantiria, a Portugal, na fronteira, o controlo dos grupos que combatiam em Portugal, no entanto, a derrota de Tchombé viria a ser uma das noticias que deixaria Salazar extremamente preocupado.